História do novo sobrenome
Capítulo 21
Quando reencontrei Lila, logo me dei conta de que ela não estava bem e que tendia a causar mal-estar a mim também. Passamos uma manhã em sua casa numa atmosfera aparentemente relaxada. De fato, ela me impôs com uma crescente maldade que eu provasse todos os seus vestidos, apesar de eu lhe dizer que não ficavam bem em mim. A brincadeira se transformou num tormento. Ela era mais alta, mais esbelta, cada peça sua que eu vestia me tornava ridícula. Mas ela não queria admitir, dizia que bastava ajustar aqui ou ali, e enquanto isso me examinava sempre de mau humor, como se eu a ofendesse com meu aspecto.
A certa altura exclamou chega, armando um olhar e uma cara de quem viu um fantasma. Depois voltou a si, se impôs um tom frívolo, me disse que uma ou duas noites atrás tinha ido tomar um sorvete com Pasquale e Ada.
Eu estava de anágua, ajudando-a a recolocar suas roupas nos cabides.
“Com Pasquale e Ada?”
“Sim.”
“Com Stefano também?”
“Eu sozinha.”
“Eles a convidaram?”
“Não, fui eu que pedi.”
E, com o ar de quem queria me surpreender, acrescentou que não se limitara apenas àquela escapada ao mundo de quando ainda era uma menina: no dia seguinte tinha ido comer uma pizza com Enzo e Carmela.
“Sempre sozinha?”
“Sim.”
“E Stefano, o que acha disso?”
Fez uma careta de indiferença.
“Estar casada não significa levar uma vida de velha. Se ele quiser vir comigo, bem, se à noite estiver muito cansado, saio sozinha.”
“E como foi?”
“Eu me diverti.”
Esperei que não lesse em meu rosto o desapontamento. Estávamos nos vendo com frequência, não custava nada ter me falado: hoje à noite vou sair com Ada, Pasquale, Enzo, Carmela, não quer vir com a gente? Em vez disso não me disse nada, organizou e combinou aqueles encontros sozinha, em segredo, como se não fossem os nossos amigos de sempre, mas só os seus. E agora eis que me contava minuciosamente, com satisfação, tudo o que eles conversaram: Ada estava preocupada, Melina não comia quase nada e vomitava o pouco que comia, Pasquale estava ansioso por causa da mãe, Giuseppina, que não conseguia dormir, sentia as pernas pesadas, tinha palpitações e, quando ia visitar o marido na prisão, ao voltar para casa chorava de um jeito que ninguém podia consolar. Fiquei ouvindo. Notei que falava de um modo mais participativo que o habitual. Escolhia palavras emotivamente carregadas, descrevia Melina Cappuccio e Giuseppina Peluso como se seus corpos tivessem se apossado do seu, impondo-lhe as mesmas formas contraídas ou dilatadas, o mesmo mal-estar. Enquanto contava, tocou o rosto, o seio, a barriga, os flancos como se não fossem mais os seus, mostrando assim que sabia tudo daquelas mulheres, nos mínimos detalhes, para que eu constatasse que a mim ninguém dizia nada, e a ela, sim, ou pior, para me fazer sentir encerrada numa nuvem, alguém que não se dá conta de quanto sofrem as pessoas ao redor. Falou de Giuseppina como se não a tivesse perdido de vista em nenhum momento, apesar do vórtice do noivado e do casamento; falou de Melina como se a mãe de Ada e de Antonio ocupasse sua mente desde sempre e conhecesse a fundo sua loucura. Depois passou a me listar várias outras pessoas do bairro que eu mal conhecia, mas de quem ela parecia conhecer as histórias graças a uma espécie de participação à distância. Por fim me anunciou:
“Também tomei um sorvete com Antonio.”
Aquele nome me picou o estômago.
“Como ele está?”
“Bem.”
“Disse algo sobre mim?”
“Não, nada.”
“Quando ele viaja?”
“Em setembro.”
“Marcello não fez nada para ajudá-lo.”
“Era óbvio.”
Óbvio? Se era óbvio que os Solara não fariam nada, pensei, por que ela me levou até eles? E por que você, que é casada, agora quer rever os amigos, assim, sozinha? E por que tomou um sorvete com Antonio e não me disse, mesmo sabendo que ele é meu ex-namorado e não quer mais me ver, mas eu, ao contrário, gostaria de encontrá-lo? Quer se vingar de mim porque saí de carro com seu marido e não lhe comuniquei sequer uma palavra sobre o que conversamos? Tornei a me vestir nervosa, murmurei que tinha coisas a fazer, estava na hora de ir.
“Preciso lhe dizer mais uma coisa.”
Anunciou-me, séria, que Rino, Marcello e Michele quiseram que Stefano fosse à Piazza dei Martiri para ver como a loja estava ficando bonita e lá, os três, entre sacos de cimento, baldes de tinta e trinchas, lhe mostraram a parede em frente à entrada e disseram que estavam pensando em colocar uma grande ampliação de sua foto em vestido de noiva. Stefano ficou ouvindo e então respondeu que certamente seria uma bela propaganda para os sapatos, mas que não lhe parecia uma coisa oportuna. Os três insistiram, e ele disse não a Marcello, não a Michele e não a Rino. Em resumo, eu tinha vencido a aposta: o marido não tinha cedido aos Solara.
Respondi tentando aparentar entusiasmo:
“Viu só? Sempre falando mal do pobre Stefano. No entanto eu tinha razão. Agora você precisa voltar a estudar.”
“Aguardemos.”
“Aguardemos o quê? Uma aposta é uma aposta, e você perdeu.”
“Aguardemos”, repetiu Lila.
Meu mau humor se aguçou. Ela não sabe o que quer, pensei. Está insatisfeita por não ter tido razão quanto ao marido. Ou sei lá, talvez eu exagere, talvez tenha apreciado a recusa de Stefano, mas exige um embate bem mais duro entre os machos em torno de sua imagem e agora está decepcionada porque os Solara não insistiram o suficiente. Vi que passava languidamente a mão no próprio quadril e ao longo da coxa, como uma carícia de despedida, e em seus olhos mais uma vez surgiu por um instante aquela mistura de sofrimento, medo e desgosto que eu tinha notado na tarde do desaparecimento de Melina. Pensei: e se ela secretamente quiser que sua foto acabe realmente exposta, enorme, no centro da cidade, e lamente que Michele não tenha conseguido se impor sobre Stefano? Por que não? Ela quer ser a primeira em tudo, ela é assim: a mais bonita, a mais elegante, a mais rica. Então pensei: sobretudo a mais inteligente. E a hipótese de que Lila realmente retomasse os estudos me causou um desprazer humilhante. Com certeza recuperaria todos os anos de escola perdidos. Com certeza a encontraria a meu lado, cotovelos colados, fazendo o exame final do liceu. E me dei conta de que aquela perspectiva era insuportável. Mas ainda mais insuportável me pareceu descobrir em mim aquele sentimento. Fiquei envergonhada e logo passei a dizer-lhe quanto seria lindo se estudássemos juntas de novo, insistindo para que se informasse sobre os procedimentos necessários. Como ela deu de ombros, eu disse:
“Agora tenho mesmo que ir.”
Desta vez não me deteve.
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