História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 38 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 37

Começou naquela noite o longo, conturbado período que desembocou em nosso primeiro rompimento e numa longa separação.

Demorei a me recuperar. Até aquele momento houvera mil motivos de tensão, seu descontentamento e sua ânsia de dominação emergiam cada vez mais. Mas nunca, nunca, nunca ela se empenhara tão explicitamente em me humilhar. Renunciei às minhas escapadas à charcutaria. Apesar de ter comprado meus livros didáticos, apesar de termos feito aquela nossa aposta, não fui dizer a ela que acabei sendo aprovada com oito em tudo e dois noves. Assim que as aulas acabaram, comecei a trabalhar numa livraria da Via Mezzocannone e sumi do bairro sem avisá-la. Em vez de se atenuar, a lembrança do tom sarcástico daquela noite cresceu muito, e até o rancor se tornou sempre mais robusto. Pareceu-me que nada pudesse justificar o que ela me fizera. Nunca me passara pela cabeça, como no entanto acontecera em outras ocasiões, que ela sentiria a necessidade de me humilhar para poder suportar melhor a própria humilhação.

Para facilitar meu distanciamento, logo depois tive a confirmação de que realmente eu tinha causado boa impressão na festa. Perambulava pela Via Mezzocannone durante o intervalo do almoço quando ouvi me chamarem. Era Armando, estava indo fazer uma prova oral. Descobri que estudava medicina e que o exame era difícil, mas, antes de sumir rumo a San Domenico Maggiore, mesmo assim ele passou um tempo comigo, enchendo-me de elogios e voltando a falar de política. À noite ele até passou na livraria, tinha tirado oito e estava feliz. Pediu meu número de telefone, respondi que não tinha telefone; perguntou se podíamos passear no domingo seguinte, disse a ele que aos domingos precisava ajudar minha mãe em casa. Passou a falar da América Latina, para onde tinha intenção de ir assim que se formasse, para tratar dos deserdados e convencê-los a empunhar armas contra os opressores; falou tanto que tive de mandá-lo embora antes que meu patrão ficasse nervoso. Em suma, eu estava contente porque era óbvio que ele gostava de mim, e eu fui gentil, mas não disponível. De todo modo, as palavras de Lila tinham feito estrago. Eu me sentia malvestida, mal penteada, falsa nos tons, ignorante. Além disso, com o final das aulas, sem Galiani, o hábito de ler jornais se afrouxara e, porque o dinheiro também era contado, não senti a necessidade de comprá-los do meu próprio bolso. Assim Nápoles, a Itália, o mundo rapidamente voltaram a ser uma extensão árida e enevoada, dentro da qual eu não me orientava mais. Armando falava e eu fazia que sim com a cabeça, mas do que ele falava eu entendia bem pouco ou quase nada.

No dia seguinte houve outra surpresa. Enquanto eu varria o piso da livraria, me apareceram na frente Nino e Nadia. Tinham sabido por Armando onde eu trabalhava e vieram só para me dar um alô. Propuseram que eu fosse com eles ao cinema no domingo seguinte. Precisei responder como tinha respondido a Armando: não era possível, eu trabalhava a semana inteira e, nos dias de folga, minha mãe e meu pai queriam que eu ajudasse em casa.

“Mas você pode pelo menos passear pelo bairro?”

“Isso, sim.”

“Pois então nós vamos encontrar você.”

Como o patrão me chamou com um tom mais impaciente que o de costume — era um homem de seus sessenta anos, a pele do rosto parecendo suja, muito irascível, um olhar equívoco —, os dois foram embora logo.

No fim da manhã do domingo seguinte, ouvi me chamarem do pátio e reconheci a voz de Nino. Apareci na janela, ele estava sozinho. Tentei em poucos minutos me pôr num aspecto apresentável e, sem sequer avisar minha mãe, feliz e ao mesmo tempo ansiosa, corri para baixo. Quando o vi na minha frente, perdi o fôlego. “Só tenho dez minutos”, disse a ele ofegante, e, em vez de passearmos pelo estradão, perambulamos entre os edifícios. Por que ele tinha vindo sem Nadia? Por que se deslocara até o bairro mesmo ela não podendo vir? Respondeu àquelas minhas perguntas sem que eu as expressasse. Nadia tinha visita de parentes paternos e foi obrigada a ficar em casa. Ele viera para rever o bairro e também para me trazer algo para ler, o último número de uma revista chamada Cronache Meridionali. Me estendeu o fascículo com um gesto incomodado, eu agradeci, e de modo incongruente ele passou a falar mal da revista, tanto que me perguntei por que decidira dar um exemplar a mim. “É esquemática”, disse, e acrescentou rindo: “Que nem Galiani e Armando”. Depois voltou a ficar sério e assumiu um tom que me pareceu de velho. Disse que devia muitíssimo à nossa professora, que sem ela o período do liceu teria sido uma perda de tempo, mas que era preciso ficar atento, mantê-la à distância: “O maior problema”, sublinhou, “é que ela não suporta que se possa pensar diferentemente dela”. Então retornou à revista, disse que Galiani também escrevia nela e de repente, sem nenhum nexo, fez menção a Lila: “Depois quem sabe você empresta para ela”. Não lhe disse que Lila não lia mais nada, que agora era apenas a senhora Carracci, que, da infância, só tinha conservado a crueldade. Me esquivei, perguntei sobre Nadia, me disse que ela faria uma longa viagem com a família, de carro até a Noruega, e depois passaria o resto das férias em Anacapri, onde o pai tinha uma casa da família.

“Você vai encontrá-la?”

“Uma ou duas vezes, preciso estudar.”

“Sua mãe está bem?”

“Está ótima. Este ano vai voltar a Barano, fez as pazes com a dona da casa.”

“E você vai passar as férias com a família?”

“Eu? Com meu pai? Nunca, nunca. Vou ficar em Ischia, mas por minha conta”.

“Onde?”

“Um amigo meu tem uma casa em Forio: os pais a deixam com ele durante todo o verão e vamos ficar lá, estudando. E você?”

“Vou trabalhar em Mezzocannone até setembro.”

“Inclusive no feriado de Ferragosto?”

“Não, no Ferragosto não.”

Ele sorriu:

“Então venha a Forio, a casa é grande: talvez Nadia também venha por dois ou três dias”.

Sorri emocionada. Em Forio? Em Ischia? Numa casa sem adultos? Ele se lembrava dos Maronti? Lembrava que tínhamos nos beijado ali? Respondi que precisava voltar para casa. “Vou passar de novo”, prometeu, “quero saber o que achou da revista”. Acrescentou em voz baixa, as mãos enterradas nos bolsos: “Gosto de conversar com você”.

De fato, ele tinha falado bastante. Fiquei orgulhosa, comovida por ele ter se sentido à vontade. Murmurei: “Eu também”, embora eu não tivesse falado quase nada, e estava para atravessar o portão quando aconteceu um fato que nos perturbou. Um grito cortou a calma dominical do pátio e vi Melina à janela, agitando os braços e tentando chamar nossa atenção. Quando Nino finalmente se virou para olhar, perplexo, Melina gritou ainda mais forte, um misto de júbilo e de angústia. Gritou: Donato.

“Quem é?”, perguntou Nino.

“Melina”, respondi, “se lembra?”.

Ele fez uma careta de incômodo.

“Será que invocou comigo?”.

“Não sei.”

“Ela disse Donato.”

“Pois é.”

Virou-se mais uma vez e olhou a janela, de onde a viúva se debruçava, gritando o mesmo nome.

“Você acha que me pareço com meu pai?”.

“Não.”

“Tem certeza?”.

“Tenho.”

Disse nervoso:

“Vou indo.”

“É melhor.”

Afastou-se a passos rápidos, ombros curvos, enquanto Melina o chamava cada vez mais alto, cada vez mais agitada: Donato, Donato, Donato.

Também fui embora, voltei para casa com o coração batendo forte, mil pensamentos emaranhados. Nino não tinha um traço sequer que o assemelhasse a Sarratore: nem a estatura, nem o rosto, nem os modos, nem mesmo a voz ou o olhar. Era um fruto anômalo, docíssimo. Como era fascinante com aqueles cabelos compridos e despenteados. Como era estranho a qualquer outra forma masculina: em toda Nápoles não havia ninguém que se parecesse com ele. E gostava de mim, embora eu ainda estivesse começando o terceiro ano do liceu, e ele, a universidade. Viera até o bairro num domingo. Estava preocupado comigo, viera me alertar. Quis me avisar que Galiani era ótima, mas também tinha lá seus defeitos, e além do mais me trouxera aquela revista certo de que eu tinha capacidade de lê-la e discuti-la, chegara inclusive a me convidar a Ischia, a Forio, no Ferragosto. Algo impraticável, não um verdadeiro convite, ele mesmo sabia que meus pais não eram como os de Nadia, nunca me deixariam ir; no entanto me convidara mesmo assim, para que nas palavras ditas eu sentisse outras palavras não ditas, como: quero reencontrá-la, como eu gostaria de retomar nossas conversas no Porto, nos Maronti. Sim, sim, me ouvi gritando dentro de mim, eu também gostaria, irei encontrá-lo, no Ferragosto fujo de casa, aconteça o que acontecer.

Escondi a revista entre meus livros. Mas à noite, assim que me deitei, olhei o índice, estremeci. Havia um artigo de Nino. Um artigo dele, naquela publicação de aspecto seríssimo: quase um livro, não a revistinha sem graça dos estudantes na qual, dois anos antes, me propusera publicar meu relato contra o padre, mas páginas de relevo, escritas para pessoas adultas e por pessoas adultas. No entanto lá estava ele, Antonio Sarratore, nome e sobrenome. E eu o conhecia. E era apenas dois anos mais velho que eu.

Li, compreendi pouco, reli. O artigo falava de Planejamento com maiúscula, de Plano com maiúscula, e era escrito de modo complicado. Mas era uma parte de sua inteligência, uma parte de sua pessoa que, sem se vangloriar, em surdina, ele presenteara a mim.

A mim.

Meus olhos se encheram de lágrimas, só pus a revista de lado tarde da noite. Contar a Lila? Emprestar a revista a ela? Não, aquilo era uma coisa minha. Não queria mais ter relações verdadeiras com ela, somente oi, frases genéricas. Ela não sabia me dar valor. Já outros sabiam: Armando, Nadia, Nino. Esses eram meus amigos, a eles eu faria minhas confidências. Tinham visto em mim, de imediato, o que ela se apressara em não ver. Porque tinha o olhar do bairro. Só era capaz de ver como Melina, que, fechada em sua loucura, enxergava Donato em Nino e o tomava por seu ex-amante.

 

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