História do novo sobrenome
Capítulo 24
Nos dias seguintes, Lila deu início a um período de frenético ativismo. Começou com a nova charcutaria, cuidando dela como se fosse a coisa mais importante do mundo. Acordava cedo, antes de Stefano. Vomitava, preparava o café, vomitava de novo. Ele se tornara muito atencioso, queria acompanhá-la de carro, mas Lila recusava, dizia que tinha vontade de caminhar e partia no ar fresco da manhã, antes que o calor explodisse, percorrendo ruas ainda desertas, entre edifícios recém-construídos e em grande parte ainda vazios, até a loja em preparação. Ali ela erguia a porta de enrolar, limpava o piso sujo de tinta, esperava os operários e os fornecedores que entregavam balanças, fatiadores e móveis, dava orientações sobre onde colocá-los, se esforçava ela mesma em deslocar as coisas para experimentar novas disposições, mais eficazes. Homenzarrões ameaçadores e jovens de modos rudes eram comandados com rédea curta, submetendo-se a todos os caprichos dela sem protestar. Nem bem terminava de dar uma ordem e já se empenhava ela mesma em trabalhos pesados, suscitando a apreensão de todos: senhora Carracci!, e se desdobravam para ajudá-la.
Apesar do calor que lhe tirava as forças, Lila não se limitou à loja do bairro novo. Às vezes acompanhava a cunhada ao pequeno canteiro de obras da Piazza dei Martiri, em geral liderado por Michele, mas frequentemente também por Rino, que se sentia no direito de seguir os trabalhos seja como fabricante dos calçados Cerullo, seja como cunhado de Stefano, que era sócio dos Solara. Tampouco naquele espaço Lila se mantinha quieta. Inspecionava tudo, subia nas escadas dos pedreiros, observava o ambiente do alto, descia, começava a deslocar as coisas. No início se chocou com a suscetibilidade de todos, mas logo, um após o outro, acabavam cedendo a contragosto. Michele, mesmo sendo o mais sarcasticamente hostil, mostrou-se imediatamente o mais preparado a acatar as vantagens das sugestões de Lila.
“Senhó”, dizia debochado, “venha também reformar meu bar, eu pago.”
Ela naturalmente nem pensava em pôr as mãos no bar Solara, mas, depois de botar de cabeça para baixo a Piazza dei Martiri, passou ao reino da família Carracci, a velha charcutaria, aquartelando-se ali. Obrigou que Stefano deixasse Alfonso em casa porque ele precisava estudar para as provas de recuperação, e impeliu Pinuccia, em companhia da mãe, a meter cada vez mais o bico na loja da Piazza dei Martiri. Assim, uma coisa hoje, outra amanhã, reorganizou os dois ambientes contíguos da charcutaria do bairro velho de maneira a tornar o trabalho mais ágil e eficiente. Em pouco tempo, demonstrou que tanto Maria quanto Pinuccia eram substancialmente supérfluas e reforçou o papel de Ada ali dentro, conseguindo que Stefano aumentasse seu salário.
Quando no fim de tarde eu voltava do Sea Garden e entregava as meninas à dona da papelaria, quase sempre passava na charcutaria para ver como Lila estava, se a barriga já se via. Ela estava nervosa, a cor da pele não era boa. Às perguntas cautelosas sobre a gravidez, ou não respondia, ou me puxava para fora da loja e me dizia coisas meio insensatas do tipo: “Não quero falar sobre isso, é uma doença, tenho um vazio aqui dentro que me pesa”. Então disparava a falar da charcutaria nova e da velha e da Piazza dei Martiri, com sua técnica habitual de exaltação, só para me fazer pensar que eram lugares onde aconteciam coisas maravilhosas que, pobre de mim, eu estaria perdendo.
Mas agora eu conhecia seus truques, ficava escutando sem dar muita bola, embora sempre acabasse hipnotizada pela energia com que se fazia de serva e de senhora. Lila era capaz de, ao mesmo tempo, falar comigo, falar com os clientes e falar com Ada sem parar um segundo, desembrulhando, cortando, pesando, recebendo dinheiro, devolvendo o troco. Anulava-se nas palavras e nos gestos, se exauria, parecia realmente empenhada numa luta sem trégua para esquecer o peso que, no entanto, definia de modo incongruente como “um vazio aqui dentro”.
De todo modo, o que mais me impressionou foi seu comportamento desenvolto com o dinheiro. Ia ao caixa e pegava o que queria. O dinheiro para ela era aquela gaveta, uma arca da infância que se abria e oferecia suas riquezas. Nos casos (raros) em que o dinheiro do caixa não era suficiente, bastava-lhe lançar um olhar a Stefano. Ele, que parecia ter voltado à generosa solicitude de quando eram noivos, levantava o avental, procurava no bolso posterior da calça, extraía uma gorda carteira e perguntava: “Quanto você quer?”. Lila fazia um gesto com os dedos, o marido alongava o braço direito com o punho fechado, ela estendia a mão comprida e delgada.
Detrás do balcão, Ada a olhava com o mesmo olhar com que contemplava as divas nas páginas de revista. Imagino que, naquela fase, a irmã de Antonio se sentisse como numa fábula. Seus olhos cintilavam quando Lila abria o caixa e lhe dava dinheiro. Assim que o marido virava as costas, ela o distribuía sem problemas. Deu a Ada dinheiro para Antonio, que estava de partida para o serviço militar, deu dinheiro a Pasquale, que precisava extrair três dentes com urgência. No início de setembro, me chamou à parte e me perguntou se eu precisava de dinheiro para os livros.
“Que livros?”
“Os livros didáticos, mas também os não didáticos.”
Respondi que a professora Oliviero ainda não tinha voltado do hospital, que eu não sabia se ela me ajudaria com os manuais escolares como costumava fazer, e prontamente ela já queria enfiar dinheiro em meu bolso. Recusei, me esquivei, não queria parecer uma espécie de parente pobre forçada a pedir dinheiro. Disse que era preciso esperar o reinício das aulas, disse que a dona da papelaria tinha prolongado minha missão no Sea Garden até meados de setembro, disse que assim eu ganharia um pouco mais que o previsto e que me arranjaria sozinha. Ela se lamentou, insistiu em que a procurasse caso a professora não pudesse ajudar dessa vez.
Não apenas eu, mas cada um de nós, jovens, diante de toda essa munificência, teve seguramente algum problema. Pasquale, por exemplo, não queria aceitar o dinheiro para o dentista, se sentia humilhado, e no fim das contas o embolsou só porque o rosto se deformara, tinha um olho inflamado e as compressas de alface não serviam para nada. Antonio também ficou bastante soturno, tanto que, para aceitar o dinheiro que nossa amiga dava a Ada por fora do salário, precisou convencer-se de que era um ressarcimento pelo salário infame que Stefano lhe pagara anteriormente. Estávamos habituados a ver pouco dinheiro, sempre, e dávamos grande importância até às cédulas de dez liras; basta dizer que, quando encontrávamos uma moedinha na rua, era uma festa. Por isso achávamos um pecado mortal o fato de Lila distribuir dinheiro como se fosse um metal sem valor, papel inútil. Ela o fazia em silêncio, com um gesto imperativo que lembrava o jeito com que, na infância, organizava as brincadeiras e atribuía os papéis. Depois falava de outra coisa, como se aquela cena nunca houvesse existido. Por outro lado — me disse uma noite Pasquale, com seu modo obscuro —, a mortadela vende, os sapatos, também, e Lina sempre foi nossa amiga, está do nosso lado, é nossa aliada, nossa companheira. Agora está rica, mas por mérito dela: sim, por seu mérito, porque ela não tinha grana por ser a senhora Carracci, a futura mãe do filho do salsicheiro, mas sim porque era quem tinha inventado os sapatos Cerullo, e mesmo se agora ninguém parecia se lembrar disso, nós, seus amigos, nos lembrávamos.
Tudo verdade. Quantas coisas Lila tinha feito acontecer no giro de poucos anos. No entanto, agora que tínhamos dezessete anos, parecia que a substância do tempo não era mais fluida, mas tinha assumido um aspecto viscoso, que circulava à nossa volta como um creme amarelo dentro de uma máquina de confeiteiro. A própria Lila o constatou com fastio quando, num domingo de mar liso e céu branco, apareceu de surpresa no Sea Garden por volta das três da tarde, sozinha, um fato realmente anômalo. Tinha pegado o metrô, dois ônibus e agora estava diante de mim em trajes de banho, com uma tez esverdeada e um despontar de espinhas na testa. “Dezessete anos de merda”, disse em dialeto, mas com uma aparência alegre, os olhos cheios de sarcasmo.
Tinha brigado com Stefano. Nas trocas cotidianas com os Solara, veio à tona o nó da gestão da loja na Piazza dei Martiri. Michele tentara impor Gigliola, ameaçara pesadamente Rino, que argumentava em favor de Pinuccia, e se lançou com decisão numa enervante tratativa com Stefano, tanto que os dois quase chegaram às vias de fato. E por fim o que aconteceu? Aparentemente, nem vencidos nem vencedores. Gigliola e Pinuccia dirigiriam juntas a loja. Mas contanto que Stefano recuasse de uma velha decisão.
“Qual?”, perguntei.
“Vamos ver se você adivinha.”
Não adivinhei. Com seu ar gozador, Michele pediu a Stefano que cedesse a foto de Lila vestida de noiva. E dessa vez seu marido concordou.
“É verdade?”
“Verdade. Como eu lhe disse, bastava esperar. Vão me expor dentro da loja. No final quem venceu a aposta fui eu, não você. Comece a estudar, neste ano vai ter que tirar oito em tudo.”
E então mudou de tom, ficou séria. Disse que não tinha vindo por causa da foto, há tempos já sabia que para aquele merda ela era apenas mercadoria de troca. Viera por causa da gravidez. Falou demoradamente sobre o assunto, nervosa, como de algo a ser macerado num pilão, e o fez com gélida firmeza. Não tem sentido, me disse sem esconder a angústia. Os homens nos metem a coisa deles lá no fundo, e você vira uma lata de carne com um boneco vivo por dentro. Eu tenho um, ele está aqui e me dá repugnância. Vomito sem parar, é minha própria barriga que não o suporta. Sei que devo pensar em coisas bonitas, sei que devo encontrar uma razão para isso, mas não consigo, não vejo razão nem beleza. Além do fato, acrescentou, de que não me sinto capaz com crianças. Você, sim, basta ver como cuida das filhas da dona da papelaria. Eu, não, não nasci com essa predisposição.
Aquela conversa me fez mal; o que responder?
“Você ainda não sabe se tem ou não tem predisposição, precisa experimentar”, tentei tranquilizá-la, apontando as meninas que brincavam logo adiante: “Fique um pouco com elas, converse.”
Riu, disse maldosamente que eu tinha aprendido o tom meloso de nossas mães. Mas depois, incomodada, arriscou umas palavras com as meninas, se retraiu, voltou a falar comigo. Eu me esquivei, insisti, forcei-a a cuidar de Linda, a filha caçula da dona da papelaria. Disse a ela:
“Vá, faça a brincadeira preferida dela, beber direto da fonte, ali, ao lado do bar, e esguichar água mantendo o polegar no cano.”
Foi com Linda de má vontade, levando-a pela mão. Passou um certo tempo e as duas não voltavam. Fiquei preocupada, chamei as outras duas meninas e fui ver o que estava acontecendo. Tudo bem, felizmente Lila tinha sido cativada por Linda. Segurava a menina sobre o jato e a deixava beber ou esguichar água em redor. Ambas riam com gargalhadas que pareciam gritos de alegria.
Me senti aliviada. Deixei com ela as outras irmãs de Linda e fui me sentar no bar, em um ponto de onde podia observar as quatro enquanto lia um pouco. É assim que ela vai ficar, pensei ao vê-la. O que antes parecia insuportável, agora já lhe dá alegria. Talvez eu devesse lhe dizer que as coisas sem sentido são as mais belas. É uma bela frase, ela vai gostar. Sorte dela que já tem tudo o que importa.
Tentei por um tempo acompanhar frase a frase os raciocínios de Rousseau. Depois ergui o olhar e vi que algo não estava bem. Gritos. Talvez Linda tivesse se inclinado demais, talvez uma das irmãs tivesse lhe dado um empurrão, o certo é que ela escapou das mãos de Lila e foi bater com o queixo na borda do chafariz. Corri assustadíssima. Assim que me viu, Lila imediatamente gritou com um tom infantil que eu nunca escutara nela, nem quando era pequena:
“Foi a irmã dela que a derrubou, não fui eu.”
Em seus braços, Linda pingava sangue gritando e chorando, enquanto as irmãs olhavam para o lado com pequenos movimentos nervosos e sorrisos tensos, como se a coisa não lhes dissesse respeito, como se não ouvissem, não vissem.
Tirei-lhe a menina dos braços e a debrucei sobre o jato de água, enxaguando seu rosto com mãos rancorosas. Surgiu um corte horizontal sob o queixo. Vou perder o dinheiro da lojista, pensei, minha mãe vai ficar furiosa. Enquanto isso corri para o salva-vidas, que distraiu Linda com paparicos e, sem que ela percebesse, a inundou de álcool fazendo-a gritar de novo, fixando-lhe em seguida um tampão de gaze no queixo e tornando a acalmá-la. Enfim, nada de grave. Comprei sorvete para as três meninas e voltei para a plataforma de cimento.
Lila tinha ido embora.
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