História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 122 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 121

Eu não imaginava que ganharia dinheiro. No entanto recebi a minuta do contrato e descobri que, certamente graças ao apoio de Adele, a editora me assegurava um adiantamento de duzentas mil liras, cem na assinatura e cem na entrega. Minha mãe ficou sem fôlego, não podia acreditar. Meu pai falou: “Preciso de meses para ganhar todo esse dinheiro”. Ambos começaram a se gabar pelo bairro e fora dele: nossa filha ficou rica, é escritora, vai se casar com um professor da universidade. Renasci, parei de estudar para o concurso da escola. Assim que o dinheiro chegou, comprei um vestido, maquiagem, fui pela primeira vez na vida a um salão de beleza e viajei para Milão, cidade que eu não conhecia.

Na estação tive dificuldade de me orientar. No final peguei o metrô certo e cheguei ansiosa ao endereço da editora. Dei mil explicações ao porteiro que nem tinha me perguntado nada, ao contrário, enquanto eu falava ele continuou lendo o jornal. Subi de elevador, bati, entrei. Fiquei extasiada com o apuro. Sentia a cabeça repleta de tudo o que eu tinha estudado e que queria exibir para demonstrar que, apesar de ser uma mulher, apesar de se perceber minha origem, eu era uma pessoa que tinha conquistado o direito de publicar aquele livro, e agora, aos vinte e três anos, nada, nada, nada meu podia ser posto em questão.

Fui acolhida com gentileza, levada de escritório em escritório. Falei com o redator que estava cuidando de meu manuscrito, um homem de idade, calvo, mas com um rosto muito agradável. Raciocinamos juntos por umas duas horas, ele me elogiou muito, citou várias vezes Adele Airota com grande respeito, mostrou as alterações que me aconselhava, me deixou uma cópia do texto e de suas anotações. Ao se despedir, disse com um tom grave: “A história é bonita, uma história de hoje muito bem articulada e escrita de modo sempre surpreendente; mas o ponto não é este: é a terceira vez que leio seu livro e a cada página há algo de poderoso, que não consigo entender de onde vem”. Fiquei vermelha, agradeci. Ah, o que eu tinha sido capaz de fazer, e como tudo era rápido, como eu agradava e me fazia amar, como sabia falar de meus estudos, de onde os tinha feito, de minha tese sobre o quarto livro da Eneida: rebatia com precisão elegante as observações elegantes, imitando perfeitamente os tons da professora Galiani, dos filhos dela, de Mariarosa. Uma funcionária graciosa e agradável chamada Gina me perguntou se eu precisava de um hotel e, quando acenei que sim, me reservou um na Via Garibaldi. Para meu grande espanto, descobri que tudo era por conta da editora, cada centavo que eu gastaria para comer, até os bilhetes de trem. Gina me pediu que apresentasse uma nota das despesas, eu receberia um reembolso, e mandou lembranças a Adele. “Ela me ligou”, disse, “aprecia muito a senhora.”

No dia seguinte parti para Pisa, queria dar um abraço em Pietro. No trem avaliei uma a uma as notas do redator e, satisfeita, vi meu livro com os olhos de quem o elogiava e se esforçava para torná-lo ainda melhor. Cheguei ao destino muito contente comigo. Meu noivo me conseguiu um pernoite na casa de uma velha assistente de literatura grega, que eu também conhecia. À noite me levou para jantar e, de surpresa, me mostrou meu datiloscrito. Ele também tinha uma cópia e tinha feito umas notas, as repassamos juntos uma por uma. Tendiam ao seu habitual rigor e diziam respeito sobretudo ao léxico.

“Vou pensar”, eu disse, agradecendo a ele.

Depois do jantar nos afastamos numa campina. Depois de uma enervante esfregação no frio, às voltas com capotes e malhas de lã, me pediu para limar acuradamente as páginas em que a protagonista perdia a virgindade na praia. Respondi perplexa:

“Mas é um momento importante.”

“Você mesma disse que são páginas um tanto ousadas.”

“Na editora não fizeram objeções.”

“Devem falar em seguida.”

Fiquei nervosa, disse que também refletiria sobre aquilo e no dia seguinte parti para Nápoles de mau humor. Se as páginas daquele episódio impressionavam Pietro, que era um jovem de muitas leituras, que tinha escrito um livro sobre os ritos báquicos, o que diriam minha mãe e meu pai, meus irmãos, o bairro sobre aquelas mesmas páginas? No trem me concentrei no texto, levando em conta as observações do redator, de Pietro, e o que pude eliminar eliminei. Queria que o livro fosse bom, que não desagradasse ninguém. Duvidava que um dia escreveria outro.

 

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