História do novo sobrenome
Capítulo 34
Não sentia vergonha dela, jurei, mas escondi que temia me envergonhar.
Stefano nos acompanhou com o conversível até a casa da professora. Eu ia sentada atrás, os dois na frente, e pela primeira vez notei as duas alianças maciças nos dedos de ambos. Enquanto Lila estava de saia e blusa como prometera, nada de excessivo, nem maquiagem, somente um pouco de batom, ele se vestira para festa, cheio de ouro, um forte cheiro de creme de barbear, como se esperasse que no último segundo lhe disséssemos: venha também com a gente. Não falamos nada. Eu me limitei a agradecer calorosamente, várias vezes, ao passo que Lila saiu do carro sem sequer se despedir dele. Então Stefano foi embora com um chiado doloroso dos pneus.
Ficamos tentadas a pegar o elevador, mas renunciamos. Nunca tínhamos tido a possibilidade de usar um desses, nem o prédio novo de Lila tinha elevador, e temíamos ter de enfrentar alguma dificuldade. Galiani me dissera que seu apartamento ficava no quarto andar, que na porta estava escrito “Prof. Dr. Frigerio”, mas mesmo assim checamos as placas de todos os andares, em silêncio, lance após lance. Como o prédio era limpo, como as maçanetas das portas e as placas de latão reluziam! Meu coração batia forte.
Identificamos a porta sobretudo pela música em alto volume que vinha de lá, pelo rumor de vozes. Alisamos nossas saias, eu ajustei a anágua que tendia a subir por minhas pernas, Lila ajeitou o cabelo com a ponta dos dedos. Ambas evidentemente temíamos sair daquele papel, arrancar num instante de distração a máscara decorosa que nos impuséramos. Apertei o botão da campainha. Esperamos, ninguém veio abrir. Olhei para Lila, toquei de novo a campainha, com mais insistência. Passos velozes, a porta se abriu. Apareceu um rapaz moreno, de baixa estatura, com o olhar vivo num rosto bonito. Ali no momento jurei que tinha uns vinte anos. Disse-lhe emocionada que era uma aluna da professora Galiani, mas ele nem me deixou terminar, riu, exclamou:
“Elena?”
“Sim.”
“Você é muito popular nesta casa, minha mãe nunca perde a ocasião de nos atormentar lendo suas redações.”
O rapaz se chamava Armando e sua frase foi decisiva, me deu uma repentina sensação de potência. Ainda me lembro dele, ali na soleira, com simpatia. Foi o primeiro em absoluto a me demonstrar, na prática, como é confortável chegar a um ambiente estranho, potencialmente hostil, e descobrir que você foi precedida de uma boa fama, que não precisa fazer nada para ser aceita, que seu nome já é conhecido, que já se sabe bastante sobre você, que são os outros, os estranhos, que devem se esforçar para caírem em suas graças, e não você na deles. Habituada como eu era à ausência de privilégios, aquele privilégio inesperado me deu energia, me tornou imediatamente desenvolta. As ansiedades sumiram, não me preocupei mais com o que Lila podia ou não aprontar. Tomada por minha súbita centralidade, esqueci até de apresentar minha amiga a Armando, nem por seu turno ele pareceu notá-la. Acompanhou-me como se eu estivesse sozinha, insistindo com alegria sobre como a mãe falava de mim, os elogios que me fazia. Eu o segui me esquivando, e Lila fechou a porta.
O apartamento era grande, os cômodos todos abertos e iluminados, o teto altíssimo e decorado com motivos florais. O que mais me impressionou foram os livros por toda parte, havia mais livros naquela casa que na biblioteca do bairro, paredes inteiras cobertas de prateleiras até o teto. E música. E jovens dançando desenfreados numa sala muito ampla, com iluminação luxuosa. E outros que conversavam fumando. Todos evidentemente estudavam, filhos de pais que também tinham estudado. Como Armando: a mãe professora, o pai médico-cirurgião, mas que não estava presente naquela noite. O rapaz nos levou até um pequeno terraço, o ar tépido, muito céu, um cheiro intenso de glicínias e rosas misturado ao do vermute e do marzipã. Vimos a cidade cheia de luzes, a planície escura do mar. A professora me chamou alegremente pelo nome, foi ela que me fez lembrar de Lila, atrás de mim.
“É sua amiga?”
Balbuciei alguma coisa, me dei conta de não saber como se faziam as apresentações. “Minha professora. Ela se chama Lina. Fomos colegas de infância”, disse. Galiani elogiou com entusiasmo as amizades antigas, tão importantes, uma ancoragem, frases genéricas pronunciadas enquanto fixava Lila, que respondeu embaraçada com alguns monossílabos e, quando se deu conta de que a professora pousara o olhar na aliança em seu dedo, imediatamente cobriu o anel com a outra mão.
“Você é casada?”.
“Sou.”
“Tem a mesma idade de Elena?”
“Sou duas semanas mais velha.”
Galiani olhou em volta e se dirigiu ao filho:
“Já as apresentou a Nadia?”.
“Não.”
“E está esperando o quê?”
“Calma, mamãe, elas acabaram de chegar.”
A professora me disse:
“Nadia quer muito conhecer você. Este aqui é um malandro, cuidado com ele, mas Nadia é excelente, vai ver que vão ficar amigas, você vai gostar dela.”
Fomos, e ela ficou sozinha, fumando. Entendi que Nadia era a irmã mais nova de Armando: dezesseis anos de pura chatice — ele a definiu com fingida agressividade —, acabou com minha infância. Mencionei com ironia os problemas que meus irmãos menores sempre me deram, dirigindo-me a Lila para confirmar o que eu dizia, rindo. Mas ela continuou séria, sem falar nada. Voltamos à sala de dança, que agora estava na penumbra. Uma canção de Paul Anka, ou talvez What a Sky, quem se lembra. Os jovens estavam colados uns aos outros, sombras que oscilavam apagadas. A música terminou. Antes mesmo que algum importuno mexesse no interruptor da luz, senti um choque no peito e reconheci Nino Sarratore. Estava acendendo um cigarro, a chama iluminou seu rosto. Não o encontrava havia quase um ano, me pareceu mais velho, mais alto, mais descabelado, mais bonito. Enquanto isso a luz elétrica explodiu na sala, e reconheci também a menina com quem ele acabara de dançar. Era a mesma que tempos atrás eu tinha visto na saída da escola, a garota elegante, luminosa, que me forçara a ter consciência de minha opacidade.
“Olha ela ali”, disse Armando.
Nadia, a filha da professora Galiani, era ela.
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