História do novo sobrenome
Capítulo 28
A gravidez de Lila durou ao todo pouco mais de dez semanas, depois veio a parteira e lhe raspou tudo. No dia seguinte já tinha voltado a trabalhar na charcutaria nova com Carmen Peluso. Ora gentil, ora feroz, iniciou um longo período em que parou de correr de lá pra cá e pareceu decidida a comprimir toda sua vida dentro da ordem daquele espaço que cheirava a reboco e queijo, cheio de salames, de pães, de mozarela, de anchovas no sal, de blocos de ciccioli de porco, de sacos transbordantes de legumes secos, de roliças bexigas recheadas de banha.
Aquele comportamento foi muito apreciado, sobretudo por Maria, a mãe de Stefano. Como se tivesse reconhecido na nora algo de si, de repente se tornou mais afetuosa, dando-lhe de presente uns antigos brincos de ouro rosa que eram seus. Lila os aceitou de bom grado e muitas vezes os colocou. Por um tempo conservou a palidez do rosto, as espinhas na testa, os olhos enterrados no fundo das olheiras, os zigomas que lhe esticavam a pele até torná-la transparente. Depois refloresceu e pôs ainda mais energia na condução dos negócios. Já antes do Natal o faturamento aumentou bastante e, em poucos meses, superou o da charcutaria do bairro velho.
A admiração de Maria cresceu. Passou a ir cada vez mais dar uma mão à nora, e não ao filho, irritado com a frustração da paternidade e as tensões dos negócios, ou à filha, que tinha começado a trabalhar na loja da Piazza dei Martiri e proibira taxativamente a mãe de aparecer por lá, para não fazer feio com a clientela. A madura senhora Carracci chegou até a tomar as dores da jovem senhora Carracci quando Stefano e Pinuccia a culparam por não ter sabido ou querido manter o filho dentro de si.
“Ela não quer ter filhos”, se lamentou Stefano.
“É verdade”, o apoiou Pinuccia, “quer continuar uma menina, não sabe agir como esposa”.
Maria censurou os dois com dureza:
“Vocês não devem nem pensar numa coisa dessas: os filhos, Nosso Senhor os manda e Nosso Senhor os leva embora, não quero mais ouvir essas cretinices.”
“Fique calada você”, gritou a filha furiosa, “que deu àquela idiota os brincos que eu adorava”.
As discussões entre eles, as reações de Lila, logo se tornaram a fofoca do bairro, se espalhando e chegando aos meus ouvidos. Mas não me preocupei com isso, o ano letivo tinha recomeçado.
As coisas logo se arranjaram de um modo que surpreendeu sobretudo a mim. Desde os primeiros dias comecei a me destacar, como se, com a partida de Antonio, com o sumiço de Nino, talvez até com o definitivo aprisionamento de Lila na gestão da charcutaria, algo em minha cabeça tivesse se destravado. Descobri que me lembrava com precisão de tudo o que tinha estudado mal no primeiro ano do liceu, respondendo às questões de revisão dos professores com uma rapidez brilhante. Não só. A professora Galiani, talvez porque tivesse perdido Nino, seu aluno mais brilhante, acentuou a simpatia que demonstrava por mim e chegou a me aconselhar que seria interessante e instrutivo se eu participasse de uma marcha pela paz no mundo que partiria de Resina e chegaria a Nápoles. Decidi ir dar uma espiada, um pouco por curiosidade, um pouco por medo de que Galiani se ofendesse, um pouco porque a marcha passava pelo estradão, margeava o bairro, não me custava nada ir ver. Mas minha mãe quis que eu levasse meus irmãos. Briguei, esperneei, me atrasei. Cheguei com eles até a ponte da ferrovia, vi lá embaixo as pessoas que caminhavam e ocupavam toda a estrada, impedindo os automóveis de passar. Era gente normal, que não marchava, mas passeava carregando bandeiras e cartazes. Eu queria ir procurar Galiani, dar as caras, e ordenei a meus irmãos que me esperassem na ponte. Foi uma péssima ideia: não encontrei a professora e, assim que virei as costas, eles se juntaram a outros meninos e começaram a atirar pedras nos manifestantes, gritando insultos. Voltei correndo para buscá-los, toda suada, e os levei embora aterrorizada com a ideia de que Galiani, com seu olhar agudo, os tivesse localizado e percebido que eram meus irmãos.
Enquanto isso as semanas passavam, havia novas aulas e os livros didáticos para comprar. Achei completamente inútil mostrar a lista dos manuais a minha mãe para que ela falasse com meu pai e conseguisse o dinheiro, eu já sabia que não havia dinheiro. Além disso, não havia notícias da Oliviero. Entre agosto e setembro fui visitá-la umas duas vezes no hospital, mas na primeira vez ela estava dormindo e, na segunda, descobri que ela tinha recebido alta, mas não voltara para casa. No fim das contas, no início de novembro fui perguntar sobre ela a uma vizinha e soube que, por causa da saúde precária, uma irmã que morava em Potenza a hospedara em casa e sabe-se lá se um dia ela voltaria a Nápoles, ao bairro, ao trabalho. Naquela altura, pensei em perguntar a Alfonso se, quando o irmão lhe comprasse os livros, seria possível nos organizarmos de modo que eu pudesse usar um pouco os dele. Ele ficou entusiasmado e me propôs que estudássemos juntos, quem sabe na casa de Lila, que, desde que passara a cuidar da charcutaria, ficava vazia das sete da manhã às nove da noite. Então decidimos fazer assim.
Mas uma manhã Alfonso me disse, bastante irritado: “Passe hoje na charcutaria para ver Lila, ela quer falar com você”. Ele sabia para que, mas ela o fizera jurar segredo, e foi impossível tirar qualquer informação dele.
À tarde fui à charcutaria nova. Carmen, entre alegre e triste, me mostrou um cartão-postal de não sei que cidade do Piemonte que Enzo Scanno, seu noivo, lhe mandara. Lila também recebera um postal, mas de Antonio, e por um instante achei que tivesse me feito correr para lá só para me mostrar isso. No entanto, nem ela me mostrou o postal, nem disse o que estava escrito nele; me puxou para o fundo da loja e perguntou, divertida:
“Você se lembra da nossa aposta?”
Fiz sinal que sim.
“Lembra que você perdeu?”
Fiz sinal que sim.
“Portanto lembra que deve passar de ano com média oito em tudo?”
Fiz sinal que sim.
Então ela me apontou dois grandes pacotes confeccionados com papel de embrulho. Eram os livros da escola.
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