História do novo sobrenome
Capítulo 62
Foi um sábado péssimo. Ela de fato não foi à praia, nem eu, mas não fiz outra coisa senão pensar que Nino e Bruno estavam nos esperando inutilmente. Mas não ousei dizer: vou dar um pulo na praia, só o tempo de dar um mergulho e voltar. Não ousei sequer perguntar: o que eu devo fazer? Preparo as bagagens? Vamos embora? Ficamos? Ajudei Nunzia a limpar a casa, a fazer o almoço e o jantar, e de vez em quando ia ver Lila, que nem se levantou da cama: ficou na cama lendo e escrevendo no tal caderno e, quando a mãe a chamou para comer, não respondeu, quando a chamou de novo, fechou a porta do quarto com tanta violência que toda a casa tremeu.
“Mar demais dá nervoso”, disse Nunzia enquanto almoçávamos sozinhas.
“É verdade.”
“E ela nem está grávida.”
“Pois é.”
No fim da tarde Lila saiu da cama, mastigou alguma coisa, passou horas no banheiro. Lavou o cabelo, se maquiou, colocou um belo vestido verde, mas a expressão do rosto permaneceu enfezada. De todo modo, recebeu o marido com ares afetuosos, e ele, quando pôs os olhos nela, beijou-a como num filme, um beijo demorado e intenso, enquanto eu e Nunzia bancávamos os espectadores constrangidos. Stefano trouxe lembranças de minha família, disse que Pinuccia parara com os caprichos, contou detalhadamente que os Solara ficaram contentes com os novos modelos de sapato fabricados por Rino e Fernando. Mas aquela conversa desagradou a Lila, e as coisas entre eles desandaram. Até aquele momento ela mantivera um sorriso forçado no rosto, mas assim que ouviu o nome dos Solara passou a agredi-lo, disse que não estava nem aí para aqueles dois, que não queria viver só em função do que eles pensavam ou deixavam de pensar. Stefano ficou mal, fechou a cara. Compreendeu que o encanto das últimas semanas tinha terminado, mas lhe respondeu com seu habitual meio sorriso aquiescente, disse que só estava lhe contando o que acontecera no bairro, que não havia necessidade de falar naquele tom. De pouco serviu. Lila rapidamente transformou a noite num conflito sem trégua. Stefano não podia pronunciar uma só palavra sem que ela achasse um meio de retrucar agressivamente. Foram para a cama às turras, e os escutei brigando até pegar no sono.
Acordei ao alvorecer. Não sabia o que fazer: recolher minhas coisas, esperar que Lila tomasse uma decisão; ir para o mar me arriscando a topar com Nino, coisa que Lila não perdoaria; me angustiar o dia inteiro trancada no quartinho, como já estava fazendo. Resolvi deixar um bilhete em que eu dizia que tinha ido aos Maronti, mas que voltaria no início da tarde. Escrevi que não podia deixar Ischia sem me despedir de Nella. Escrevi de boa-fé, mas hoje sei bem como minha cabeça funciona: eu queria confiar no acaso, Lila não teria como me censurar se eu topasse com Nino, que talvez estivesse ali, pedindo dinheiro aos pais.
O resultado foi um dia confuso e um razoável desperdício de dinheiro. Peguei um barco, desembarquei nos Maronti. Fui ao local onde os Sarratore costumavam ficar e encontrei apenas o guarda-sol. Olhei ao redor, avistei Donato tomando banho e ele me viu. Agitou os braços em saudações, veio até mim, me disse que a mulher e os filhos tinham ido passar o dia em Forio, com Nino. Fiquei péssima, o acaso não só era irônico, mas também carrasco: me negara o filho e, em troca, me dera a conversa xaroposa do pai.
Quando tentei me esquivar para ir ver Nella, Sarratore não me deixou, recolheu depressa as coisas dele e quis me acompanhar. No caminho assumiu um tom adocicado e, sem nenhum embaraço, desandou a falar sobre o que tinha acontecido entre nós, tempos atrás. Me pediu perdão, murmurou que o coração não se deixa comandar, discorreu com palavras suspirantes sobre minha beleza de então e, sobretudo, de agora.
“Que exagero”, eu disse e, mesmo sabendo que eu deveria me manter séria e distante, comecei a rir de nervoso.
Embora carregando o guarda-sol e suas tralhas, ele não conseguiu renunciar a um discurso entrecortado. Substancialmente falou que o problema da juventude era a falta de olhos para se ver e de sentimentos para se sentir com objetividade.
“Existe o espelho”, repliquei, “e esse é objetivo.”
“O espelho? O espelho é a última coisa em que se pode confiar. Aposto que você se sente menos bonita que suas duas amigas.”
“É verdade.”
“No entanto você é muito mais linda que elas. Pode confiar. Olhe que belos cabelos louros você tem. E que porte. Você só precisa enfrentar e resolver dois problemas: o primeiro é a roupa de banho, não é apropriada às suas potencialidades; o segundo é o modelo de óculos. Esse aí é totalmente inadequado, Elena: pesado demais. Seu rosto é tão delicado, tão admiravelmente formado pelas coisas que estuda. Você precisaria de óculos mais leves.”
Fiquei ouvindo com aversão cada vez menor, parecia um cientista da beleza feminina. Falou sobretudo com uma competência tão distanciada que a certa altura me induziu a pensar: e se fosse verdade? Talvez eu não saiba me valorizar. Por outro lado, com que dinheiro eu compraria vestidos apropriados, uma roupa de banho adequada, óculos adequados? Eu estava a ponto de me abandonar a uma lamúria sobre pobreza e riqueza quando ele me falou com um sorriso:
“De resto, se não confia em meu julgamento, você deve ter se dado conta — espero — de como meu filho a olhava quando vocês vieram nos encontrar.”
Só então percebi que ele estava mentindo. Eram palavras para atiçar minha vaidade, serviam apenas para que eu me sentisse bem e me inclinasse a ele por necessidade de gratificação. Me senti uma idiota, ferida não por ele e por suas mentiras, mas por minha própria estupidez. Cortei a conversa com uma crescente aspereza que o esfriou.
Uma vez em casa, troquei umas palavras com Nella, disse que talvez voltássemos para Nápoles naquela noite e que eu queria me despedir.
“Pena que você vai embora.”
“Pois é.”
“Almoce comigo.”
“Não posso, preciso ir.”
“Mas, se você não for, me jure que vai vir outra vez, e por mais tempo. Passe o dia comigo, e a noite também, você sabe que pode ficar para dormir. Tenho um monte de coisas para lhe contar.”
“Obrigada.”
Sarratore se intrometeu e disse:
“Contamos com isso, você sabe o quanto lhe queremos bem.”
Saí depressa, até porque havia um parente de Nella que estava indo ao Porto de carro, e eu não queria perder a carona.
Durante o trajeto as palavras de Sarratore, inesperadas, ainda que eu só fizesse rechaçá-las, voltaram a me roer por dentro. Não, talvez ele não tivesse mentido. Realmente sabia enxergar além das aparências. Teve de fato a oportunidade de observar o olhar do filho sobre mim. E, se eu fosse bonita, se Nino me achara atraente de verdade — e eu sabia que sim: afinal de contas ele tinha me beijado, segurado minha mão —, já estava na hora de eu enxergar os fatos tal como eram: Lila o tirara de mim, Lila o afastara de mim e o atraíra para si. Talvez não tivesse feito de propósito, mas de todo modo fez.
Decidi de repente que deveria procurá-lo, vê-lo a qualquer custo. Agora que a partida estava próxima, agora que a força de sedução que Lila exercera sobre ele não teria mais meios de envolvê-lo, agora que ela mesma decidira retomar a vida que lhe cabia, a relação entre mim e ele poderia recomeçar. Em Nápoles. Em forma de amizade. Quem sabe até poderíamos nos encontrar para falar sobre ela. E depois voltaríamos às nossas discussões, às nossas leituras. Eu mostraria a ele que seria bem mais capaz de me apaixonar por suas ideias do que Lila, talvez até do que Nadia. Sim, eu deveria falar logo com ele, dizer estou indo, dizer: nos vemos no bairro, na Piazza Nazionale, em Mezzocannone, onde você quiser, mas o mais rápido possível.
Peguei uma carroça motorizada, fui até Forio, até a casa de Bruno. Chamei, ninguém apareceu. Perambulei pela cidade num estado crescente de mal-estar, depois fui caminhando a pé pela praia. E dessa vez o acaso aparentemente decidiu em meu favor. Estava andando havia um bom tempo quando topei com Nino na minha frente, felicíssimo por ter me encontrado, uma felicidade incontrolável. Tinha os olhos muito acesos, gestos exagerados, uma voz acima do tom.
“Procurei vocês ontem e hoje. Onde está Lina?”
“Com o marido.”
Tirou do bolso da bermuda um envelope, o colocou em minha mão com uma força excessiva.
“Pode dar isto a ela?”
Me irritei.
“Não adianta, Nino.”
“Dê a ela.”
“Hoje à noite vamos embora, vamos voltar para Nápoles.”
Fez uma expressão de sofrimento, disse rouco:
“Quem decidiu?”
“Ela.”
“Não acredito.”
“Mas é assim, ela me disse ontem à noite.”
Pensou um instante, fez um sinal para o envelope.
“Por favor, entregue a ela de qualquer jeito, e rápido.”
“Tudo bem.”
“Jura que vai fazer isso?”
“Já disse que sim.”
Me acompanhou por um longo trecho falando malíssimo da mãe e dos irmãos. Eles me infernizaram, disse, ainda bem que voltaram para Barano. Perguntei de Bruno. Fez um gesto de irritação, estava estudando, falou mal dele também.
“E você não estuda?”
“Não consigo.”
Enterrou a cabeça nos ombros, ficou melancólico. Começou a me falar das ilusões que formamos sobre nós mesmos só porque um professor, por questões próprias, o faz acreditar que você é bom. Ele se dera conta de que as coisas que queria aprender nunca o tinham interessado de verdade.
“O que você está dizendo? Assim, de repente?”
“Basta um piscar de olhos para mudar sua vida completamente.”
O que estava acontecendo com ele? Palavras banais, já não conseguia reconhecê-lo. Jurei a mim mesma que o ajudaria a voltar a si.
“Agora você está transtornado e não sabe o que está dizendo”, sentenciei com meu melhor tom judicioso. “Mas assim que voltar para Nápoles vamos nos ver e, se você quiser, conversamos.”
Fez que sim com a cabeça, mas logo em seguida quase gritou de raiva:
“Resolvi largar a universidade, quero achar um trabalho.”
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