História do novo sobrenome
Capítulo 94
E foi mesmo, no dia seguinte. Pegou o metrô, desceu nos Campi Flegrei, procurou a rua, o portão.
Naquela época, sobre Enzo, eu só sabia que nada, absolutamente nada andava bem: nem as lamúrias da mãe, nem o peso dos irmãos, nem a camorra do mercado de hortifrúti, nem as saídas com a carroça, cujos rendimentos eram cada vez mais escassos, nem as conversas comunistas de Pasquale, nem o noivado com Carmen. Mas, como tinha um caráter fechado, era difícil ter uma ideia do tipo que ele era. Por Carmen fiquei sabendo que estudava em segredo, queria tirar por conta própria um diploma de perito industrial. Na mesma ocasião — Natal? — Carmen me dissera que desde quando havia voltado do serviço militar, na primavera, só lhe tinha dado uns beijos. Até acrescentou irritada:
“Talvez não seja homem.”
Quando um rapaz não nos dava muita atenção, nós garotas dizíamos frequentemente que não era homem. Enzo era, não era? Eu não entendia nada de certos fundos obscuros dos homens, ninguém de nós sabia nada, então para cada manifestação estranha deles recorríamos àquela fórmula. Alguns, como os Solara, como Pasquale, Antonio, Donato Sarratore, até como Franco Mari, meu namorado da Normal, gostavam de nós com as tonalidades mais diversas — agressivas, subalternas, descuidadas, atenciosas —, mas gostavam sem sombra de dúvida. Outros, como Alfonso, como Enzo, como Nino, eram — segundo tonalidades igualmente diversas — de uma compostura distante, como se entre nós e eles houvesse um muro e o esforço de escalá-lo fosse nosso. Enzo, depois do período militar, tinha acentuado essa característica e não só não fazia nada para agradar às mulheres, mas na verdade não fazia nada para agradar a ninguém. Até seu corpo, que já era de baixa estatura, parecia estar ainda menor, como por uma espécie de autocompressão se tornara um bloco compacto de energia. A pele sobre os ossos do rosto tinha se esticado como uma barraca de praia, e reduzira seu andamento ao puro compasso das pernas, nada mais nele se movia, nem os braços, nem o pescoço, nem a cabeça, nem mesmo os cabelos, que eram um casco louro-avermelhado. Quando decidiu ir ver Lila, comunicou a Pasquale e a Antonio não para discutir, mas na forma de um breve esclarecimento capaz de cortar qualquer discussão. E não chegou perplexo aos Campi Flegrei. Achou a rua, achou o portão, subiu as escadas e bateu com determinação na porta certa.
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