História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 112 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 111

 

Com a partida de Antonio, a ligação entre Gigliola e Ada ficou fortíssima. Gigliola sugeriu o que a filha de Melina já tinha em mente há tempos, ou seja, que ela não devia mais esperar, a situação matrimonial de Stefano precisava ser rompida. “Lina deve sair daquela casa”, disse a ela, “e você deve entrar: se esperar demais, o encantamento acaba e você perde tudo, até o emprego na charcutaria, porque aí ela vai recuperar terreno e obrigar Stefano a demitir você.” Gigliola chegou a confidenciar que falava por experiência, que ela estava com o mesmíssimo problema em relação a Michele. “Se eu esperar que ele se decida a casar comigo”, sussurrou, “acabo ficando velha; por isso não lhe dou trégua: ou nos casamos até a primavera de 1968, ou me separo dele, e vá se foder.”

Foi assim que Ada passou a emaranhar Stefano numa rede de genuíno e viscoso desejo, que o fazia se sentir um homem especial, e enquanto isso lhe murmurava entre beijos: “Você precisa se decidir, Sté, ou fica comigo ou com ela; não digo que você deva botá-la no olho da rua com o menino, ele é seu filho, você tem obrigações; mas faça como hoje estão fazendo tantos atores e pessoas importantes: dê a ela um pouco de dinheiro e pronto. Todos no bairro já sabem que eu sou sua verdadeira mulher, então quero ficar sempre, sempre, sempre com você.”

Stefano respondia que sim e a apertava forte na caminha desconfortável do Rettifilo, mas depois não fazia muita coisa, exceto voltar para casa e gritar com Lila, ora porque não havia meias limpas, ora porque a tinha visto enquanto falava com Pasquale ou algum outro.

Nessa altura Ada começou a se desesperar. Num domingo de manhã encontrou Carmen, que lhe falou em tom muito recriminador das condições de trabalho nas duas charcutarias. Palavra vai, palavra vem, começaram a cuspir veneno sobre Lila, que ambas, por motivos diferentes, consideravam a origem de todos os seus males. Por fim Ada não resistiu e contou sua situação sentimental, perdendo de vista que Carmen era a irmã de seu ex-namorado. E Carmen, que não via a hora de também entrar na rede das fofocas, escutou com grande prazer, interferiu várias vezes para atiçar fogo, tentou com seus conselhos fazer todo o mal possível a Ada, que tinha traído Pasquale, e a Lila, que a tinha traído. Mas, devo dizer, prescindindo dos rancores, havia o prazer de lidar com uma pessoa — sua amiga de infância — que se encontrara nada menos que no papel de amante de um homem casado. E embora nós, meninas do bairro, desde pequenas quiséssemos nos tornar esposas, de fato, ao crescer, quase sempre simpatizávamos com as amantes, que nos pareciam personagens mais animadas, mais combativas e sobretudo mais modernas. Por outro lado, esperávamos que, adoecendo gravemente e morrendo a legítima esposa (em geral uma mulher muito pérfida, ou de todo modo infiel há tempos), a amante deixaria de sê-lo e coroaria seu sonho de amor se tornando esposa. Em suma, estávamos do lado da infração, mas só para que se reafirmasse o valor da regra. Consequentemente, mesmo entre muitos conselhos sub-reptícios, Carmen acabou aderindo com entusiasmo à história de Ada, experimentou emoções verdadeiras e um dia lhe disse com toda a franqueza: “Você não pode continuar assim, deve expulsar aquela cretina, se casar com Stefano, lhe dar filhos seus. Pergunte aos Solara se eles conhecem alguém da Sagrada Rota”.

Ada imediatamente associou os conselhos de Carmen aos de Gigliola e certa noite, na pizzaria, se dirigiu diretamente a Michele:

“Você tem acesso a essa Sagrada Rota?”

Ele respondeu irônico:

“Isso eu não sei, posso perguntar, sempre se acha um amigo. Mas agora cuide de pegar o que é seu, isso é a coisa mais urgente. E não se preocupe com nada: se alguém quiser lhe fazer mal, mande-o me procurar.”

As palavras de Michele foram muito importantes, Ada se sentiu apoiada, nunca em sua vida sentira tanta aprovação em torno de si. Mas nem a insistência de Gigliola, nem os conselhos de Carmen, nem aquela inesperada promessa de proteção por parte de uma autoridade masculina de grande peso, ou mesmo a raiva porque, em agosto, Stefano não quisera fazer uma viagem ao exterior como no ano precedente, mas tinham apenas ido algumas vezes ao Sea Garden, foram suficientes para levá-la ao ataque. Foi necessário um autêntico fato novo e concreto: a descoberta de que estava grávida.

A gravidez deixou Ada furiosamente feliz, mas guardou a notícia para si, não falou nem sequer com Stefano. Numa tarde tirou o avental, deixou a charcutaria como para pegar um pouco de ar e foi para a casa de Lila.

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou perplexa a senhora Carracci, abrindo-lhe a porta.

Ada respondeu:

“Não aconteceu nada que você já não saiba.”

Entrou e lhe disse de tudo, na presença do menino. Começou calma, falou de atores e até de ciclistas, se definiu uma espécie de dama branca, mas mais moderna, e aludiu à Sagrada Rota para demonstrar que até a Igreja e Deus, em certos casos em que o amor é muito forte, dissolvem os matrimônios. Como Lila ficou ouvindo sem jamais a interromper, coisa que Ada nunca teria esperado — ao contrário, esperava que ela dissesse pelo menos meia palavra para fazê-la espumar sangue de tanta pancada —, ficou nervosa e começou a andar pelo apartamento, primeiro para lhe mostrar que tinha estado várias vezes naquela casa e a conhecia perfeitamente, depois, para lhe jogar na cara: “Olha que nojo, os pratos sujos, a poeira, meias e cuecas ainda pelo chão, não é possível que aquele coitadinho tenha de viver assim”. Por fim, tomada de um frenesi incontrolável, passou a recolher os panos sujos pelo chão do quarto gritando: “A partir de amanhã eu venho pôr tudo em ordem. Você não sabe nem fazer a cama, olhe aqui, Stefano não suporta que o lençol seja dobrado assim, ele me disse que já lhe explicou mil vezes, e você nada”. Nesse ponto parou de golpe, confusa, e disse em voz baixa:

“Você tem de ir embora, Lina, porque se não for eu mato o menino.”

Lila só conseguiu responder:

“Você está se comportando como sua mãe, Ada.”

Estas foram as palavras. Agora imagino sua voz: nunca foi capaz de tons comovidos, como sempre, deve ter falado com gélida maldade, ou distanciamento. No entanto, anos depois me contou que, ao ver Ada em sua casa naquele estado, se lembrou dos urros de Melina, a amante abandonada, quando a família Sarratore tinha deixado o bairro, e reviu o ferro de passar voando da janela e quase matando Nino. Lá estava a longa chama do sofrimento, que então a impressionara bastante, ardendo de novo em Ada; só que agora não era a mulher de Sarratore que a alimentava, mas ela, Lila. Um horrível jogo de espelhos que, na época, escapou a todas nós. Mas não a ela, e por isso é provável que, em vez de irritação, em vez de sua costumeira determinação em fazer mal, ela tenha experimentado amargura e piedade. O fato é que tentou segurar sua mão e falou:

“Sente-se, vou lhe preparar um chá de camomila.”

Mas em cada palavra de Lila, da primeira à última, e sobretudo naquele gesto, Ada só viu um insulto. Retraiu-se num choque, revirou os olhos de modo impressionante, mostrando a parte branca do globo, e quando reapareceram as pupilas gritou:

“Você está dizendo que eu sou louca? Que sou louca como minha mãe? Pois então tome muito cuidado, Lina. Não me toque, saia da frente e prepare a camomila para você. Enquanto isso eu limpo esta porcaria de casa.”

Varreu, lavou os assoalhos, refez a cama e durante todo o tempo não disse mais nada.

Lila a acompanhou com o olhar, temendo que se rompesse como um corpo artificial sujeito a uma aceleração excessiva. Depois pegou o menino e saiu, perambulou demoradamente pelo bairro novo falando com Rinuccio, indicando-lhe as coisas, nomeando-as, inventando fábulas. Mas fez isso mais para controlar a angústia do que para entreter o menino. Só voltou para casa quando, de longe, viu Ada sair pelo portão e correr como se estivesse atrasada.

 

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