História do novo sobrenome
Capítulo 31
Tanto Rino quanto Michele atribuíram a culpa pelo incêndio a Gigliola, que fumava às escondidas e por isso possuía um minúsculo isqueiro. Segundo Rino, Gigliola agira de propósito: enquanto todos estavam envolvidos na discussão, ela ateara fogo no painel que, cheio de papel, cola e tinta, tinha queimado num piscar de olhos. Michele foi mais cauteloso: como se sabia, Gigliola brincava continuamente com o isqueiro e, assim, sem querer, tomada pelo bate-boca, não se dera conta de que a chama estava muito próxima da foto. Mas ela não tolerou nem a primeira nem a segunda hipótese e, com uma expressão muito combativa, atribuiu a culpa à própria Lila, isto é, à sua imagem deformada, que se incendiara sozinha, como acontecia ao diabo quando, para transviar os santos, assumia feições femininas, mas os santos invocavam Jesus e o demônio se transmudava em chama. Para corroborar sua versão, acrescentou que a própria Pinuccia lhe contara como a cunhada tinha a capacidade de não engravidar e, caso engravidasse, deixava o menino se perder, recusando os dons do Senhor.
A boataria se intensificou quando Michele Solara começou a ir dia sim, dia não, à charcutaria nova. Passava muito tempo se divertindo com Lila, se divertindo com Carmen, tanto que esta supôs que ele viesse por causa dela e, por um lado, temeu que alguém o dissesse a Enzo, que prestava serviço militar no Piemonte, e, por outro, ficou lisonjeada e passou a flertar com Michele. Já Lila só zombava do jovem Solara. Os boatos espalhados por sua noiva tinham chegado a seus ouvidos, por isso ela dizia:
“Melhor você ir embora, aqui dentro nós duas somos bruxas, somos muito perigosas”.
Mas as vezes em que a visitei naquela fase nunca a encontrei realmente alegre. Adotava um tom artificial e falava de tudo com sarcasmo. Tinha um roxo no braço? Stefano lhe fizera uma carícia apaixonada demais. Estava com os olhos vermelhos de choro? Não era choro de dor, mas de contentamento. Cuidado com Michele, ele gosta de fazer mal às pessoas! Que nada, ela dizia, se tocar em mim se queima: sou eu que faço mal às pessoas.
Quanto àquele ponto, sempre houve um discreto consenso. Mas especialmente Gigliola não tinha mais dúvidas: Lila era uma feiticeira vadia, tinha embruxado o noivo, é por isso que ele queria lhe dar a gerência da loja na Piazza dei Martiri. E por dias não foi trabalhar, enciumada, desesperada. Depois decidiu conversar com Pinuccia, se aliaram, passaram ao contra-ataque. Pinuccia trabalhou o irmão gritando-lhe várias vezes que era um corno feliz e depois agrediu Rino, o noivo, dizendo que não era patrão de coisa nenhuma, mas um criado de Michele. Então, certa noite, Stefano e Rino foram esperar o jovem Solara na saída do bar e, quando ele apareceu, vieram com uma conversa muito genérica, mas que na substância queria dizer: deixe Lila em paz, ela está perdendo tempo, precisa trabalhar. Michele decifrou imediatamente a mensagem e retrucou, gélido:
“Que caralho vocês estão dizendo?”.
“Se não entende, significa que não quer entender.”
“Não, meus caros, são vocês que não querem entender nossas necessidades comerciais. E, se não querem entender, quem tem de pensá-las sou eu.”
“Ou seja?”, perguntou Stefano.
“Sua mulher na charcutaria é um desperdício.”
“Em que sentido?”
“Na Piazza dei Martiri ela faria em um mês o que sua irmã e Gigliola não conseguiriam fazer nem em cem anos.”
“Explique-se melhor.”
“Lina deve comandar, Sté. Deve ter uma responsabilidade. Deve inventar coisas. Deve pensar imediatamente em novos modelos de sapatos.”
Os três discutiram e, por fim, depois de mil discrepâncias chegaram a um acordo. Stefano excluiu absolutamente que a esposa fosse trabalhar na Piazza dei Martiri, a charcutaria nova estava indo bem e tirá-la de lá seria uma tolice; mas prometeu convencê-la a desenhar em breve novos modelos, pelo menos os de inverno. Michele reiterou que não dar a Lila a gerência da loja de calçados era uma estupidez, e adiou a discussão com uma frieza vagamente ameaçadora para depois do verão, dando por certo que ela já começaria a projetar novos sapatos.
“Deve ser coisa chique”, recomendou, “você precisa insistir nesse ponto.”
“Vai fazer, como de hábito, o que agrada a ela.”
“Eu posso aconselhá-la, a mim ela ouve”, disse Michele.
“Não há necessidade.”
Fui ver Lila logo depois daquele acordo, ela mesma me contou tudo. Eu tinha acabado de sair do colégio, já fazia um certo calor, me sentia cansada. Ela estava sozinha na charcutaria e, num primeiro momento, me pareceu como que aliviada. Disse que não desenharia nada, nem sequer uma sandália, nem sequer uma pantufa.
“Eles vão ficar furiosos.”
“E eu com isso?”
“É questão de dinheiro, Lila.”
“Eles já têm o suficiente.”
Parecia seu modo habitual de fazer birra, ela era assim, bastava que alguém lhe dissesse concentre-se em alguma coisa e ela logo perdia a vontade. Mas não demorei a perceber que não se tratava de um traço de seu caráter nem de desgosto pelos negócios do marido, de Rino, dos Solara, quem sabe reforçado pelas conversas comunistas com Pasquale e Carmen. Havia algo mais, e ela me falou devagar, com seriedade.
“Não me vem nenhuma ideia à cabeça”, disse.
“Já tentou?”
“Sim. Mas não é mais como aos doze anos.”
Os sapatos — compreendi — tinham saído de seu cérebro apenas aquela vez e não voltariam mais, não havia outros. A brincadeira tinha terminado, não sabia como reiniciá-la. Até o cheiro do couro e das peles a repugnava, e já não sabia fazer aquilo que tinha feito. Além disso, tudo havia mudado. A pequena oficina de Fernando tinha sido devorada pelos ambientes novos, pelas bancadas dos empregados, por três máquinas. O pai tinha como que se apequenado, nem brigava mais com o filho mais velho, apenas trabalhava. Até os afetos pareciam esvaziados. Se sua mãe ainda lhe causava ternura quando passava na charcutaria para encher as sacolas de graça como se ainda fossem os tempos de miséria, se ainda dava presentinhos aos irmãos mais novos, não conseguia mais sentir um vínculo com Rino. Estava gasto, corrompido. A necessidade de ajudá-lo e protegê-lo se enfraquecera. Por isso faltavam todos os motivos que tinham acendido a fantasia dos sapatos, o terreno em que germinara havia secado. Foi sobretudo uma maneira — disse de repente — de demonstrar a você que eu sabia fazer bem as coisas, apesar de não frequentar mais a escola. Depois sorriu nervosa, lançando-me um olhar oblíquo para captar minha reação.
Não respondi, experimentei uma forte emoção que me embargou. Lila era mesmo assim? Será que não tinha minha teimosa aplicação? Tirava de si pensamentos, sapatos, palavras escritas e faladas, planos complicados, fúrias e invenções só para mostrar a mim algo de si? Perdido aquele motivo, se dispersava? Nunca saberia refazer nem mesmo aquilo que fizemos com sua fotografia de noiva? Tudo nela seria fruto da desordem das ocasiões?
Tive a impressão de que, em alguma parte de mim, uma longa e dolorosa tensão se afrouxava, e seus olhos brilhantes me enterneceram, seu sorriso frágil. Mas durou pouco. Ela continuou falando, tocou a fronte com um gesto costumeiro e disse desgostosa: “Preciso sempre demonstrar que posso ser a melhor”. Depois acrescentou, sombria: “Quando abrimos este lugar, Stefano me mostrou como se trapaceia com o peso; eu de início gritei você é um ladrão, taí como você faz dinheiro, mas depois não soube resistir, mostrei a ele que tinha aprendido e logo descobri outros modos de enganar e os mostrei a ele, e sempre inventava novos; eu engano todos vocês, trapaceio no peso e em mil outras coisas, engano o bairro, não se fie em mim, Lenu, não se fie no que eu digo e no que faço”.
Me senti incomodada. Ela mudava num instante, eu já não sabia o que pretendia. Por que agora me falava daquela maneira? Não entendia se ela o fazia de caso pensado ou se as palavras saíam de sua boca sem querer, num fluxo impetuoso em que a intenção de reforçar nossos laços — intenção verdadeira — era logo varrida por uma necessidade igualmente verdadeira de negar-lhe uma especificidade: veja, me comporto com Stefano como com você, faço assim com qualquer um, faço o bem e faço o mal, o bonito e o feio. Entrelaçou as mãos longas e finas, apertou forte, perguntou:
“Ouviu que Gigliola anda dizendo que a foto pegou fogo sozinha?”.
“É uma tolice, Gigliola invocou com você.”
Deu uma risadinha que pareceu um estalo, algo nela se retorceu muito bruscamente.
“Sinto uma dor aqui, atrás dos olhos, há algo que pressiona. Está vendo essas facas? São muito afiadas, acabei de buscá-las do amolador. Enquanto corto o salame, penso em quanto sangue há no corpo das pessoas. Se você põe muita matéria nas coisas, elas se rompem. Ou então lançam centelhas e queimam. Estou contente de que a foto com o vestido de noiva tenha queimado. Era preciso queimar também o casamento, a loja, os sapatos, os Solara, tudo.”
Compreendi que, por mais que se debatesse, fizesse e acontecesse, ela não saía daquilo: desde o dia do casamento era perseguida por uma cada vez maior, mais desgovernada infelicidade, e senti pena dela. Disse-lhe que se acalmasse, fez sinal que sim.
“Tente ficar tranquila.”
“Me ajude.”
“Como?”
“Fique perto de mim.”
“É o que tenho feito.”
“Não é verdade. Eu lhe conto todos os meus segredos, até os mais terríveis, e você quase nunca me fala de si.”
“Engano seu. A única pessoa de quem não escondo nada é você.”
Fez um sinal enérgico de não, disse:
“Mesmo sendo melhor que eu, mesmo sabendo mais coisas, não me abandone.”
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