História do novo sobrenome
Capítulo 27
No dia da inauguração, Lila chegou à Piazza dei Martiri instalada no conversível, ao lado do marido. Quando saiu do carro, notei seu olhar incerto, de quem teme desastres. A excitação dos dias do painel se dissipara, ela tornara a assumir o ar doentio da mulher desinteressadamente grávida. No entanto se vestira com esmero, parecia saída de uma revista de moda. Desvencilhou-se logo de Stefano e me arrastou para ver as vitrines da Via dei Mille.
Passeamos por um tempo. Ela estava tensa, me perguntava continuamente se havia alguma coisa fora do lugar.
“Você se lembra”, disse de repente, “da garota toda vestida de verde, aquela de chapéu-coco?”
Eu lembrava. Lembrava o incômodo que tínhamos sentido ao vê-la naquela mesma rua anos atrás, e o confronto entre nossos rapazes e os rapazes daquela zona, a intervenção dos Solara, e Michele com a barra de ferro, e o medo. Compreendi que ela queria ouvir algo que a acalmasse e emendei:
“Era só uma questão de dinheiro, Lila. Hoje tudo mudou, você é muito mais bonita que a garota vestida de verde.”
Mas pensei: não é verdade, estou mentindo para você. Havia algo de perverso na desigualdade, e agora eu compreendia. Algo que agia em profundidade, que escavava além do dinheiro. Não bastava o caixa das duas charcutarias nem o da fábrica de calçados ou da loja de sapatos para ocultar nossa origem. A própria Lila, ainda que tirasse mais dinheiro do caixa do que já pegava, ainda que faturasse milhões, trinta, até cinquenta, não conseguiria. Eu me dera conta disso e finalmente havia uma coisa que eu sabia melhor que ela, que eu aprendera não naquelas ruas, mas na entrada da escola, olhando a garota que vinha encontrar Nino. Ela era superior a nós, assim, sem querer. E isso era insuportável.
Retornamos à loja. A tarde prosseguiu como uma espécie de matrimônio: comida, doces, muito vinho, todos com os trajes usados no casamento de Lila, Fernando, Nunzia, Rino, toda a família Solara, Alfonso, as garotas, eu, Ada, Carmela. Os carros estacionados desordenadamente se aglomeraram, a loja lotou, cresceu o barulho das vozes. Gigliola e Pinuccia, disputando entre si, se comportaram o tempo todo como as donas da casa, cada uma tentando ser mais dona que a outra, exaltadas pela tensão. Acima de tudo e de todos imperava o painel com a foto de Lila. Havia quem parava para olhá-lo com interesse, quem lançava uma mirada cética ou até ria. Eu não conseguia desgrudar os olhos dele. Lila não era mais reconhecível. Permanecia uma forma sedutora e tremenda, uma imagem de deusa monócula que avançava seus pés bem calçados para o centro da sala.
No meio da multidão, quem mais me impressionou foi Alfonso, pelo modo como se mostrava cheio de vivacidade, alegre, elegante. Nunca o tinha visto assim, nem na escola, nem no bairro, nem na charcutaria, e a própria Lila o avaliou demoradamente, perplexa. Eu lhe disse, rindo:
“Não é mais ele.”
“O que aconteceu?”
“Não sei.”
Alfonso foi a verdadeira novidade positiva daquela tarde. Algo que nele estava silencioso despertou naquela ocasião, na loja iluminada como o dia. Foi como se tivesse descoberto de repente que aquela era a parte da cidade que o fazia se sentir bem. Tornou-se particularmente desenvolto. Pudemos vê-lo arrumando isso e aquilo, puxando conversa com as pessoas elegantes que entravam curiosas, que examinavam a mercadoria ou pegavam um docinho e uma taça de vermute. A certa altura veio até nós e, com ar desembaraçado, elogiou sem meios termos o trabalho que tínhamos feito com a foto. Estava em um tal estado de liberdade mental que venceu sua antiga timidez e disse à cunhada: “Eu sempre soube que você era perigosa”, e a beijou nas bochechas. Eu o olhei perplexa. Perigosa? O que ele havia intuído naquele painel que me escapara? Alfonso era capaz de não se deter nas aparências? Sabia olhar com fantasia? Será possível, pensei, que seu verdadeiro futuro não esteja nos estudos, mas nesta parte rica da cidade, onde saberá usar aquele pouco que está aprendendo na escola? Ah, sim, ele escondia dentro de si outra pessoa. Era diferente de todos os rapazes do bairro e acima de tudo era diferente do irmão, Stefano, que estava em um canto, sentado num pufe, em silêncio, mas pronto a responder com sorrisos a qualquer um que lhe dirigisse a palavra.
Anoiteceu. Repentinamente rompeu um forte clarão no lado de fora. Os Solara, avô, pai, mãe, filhos, se precipitaram para ver, arrebatados por um rumoroso entusiasmo de estirpe. Saímos todos para a rua. Em cima da vitrine e na entrada brilhava a inscrição: SOLARA.
Lila fez uma careta e me disse:
“Cederam até nisso.”
Empurrou-me desinteressadamente até Rino, que parecia o mais contente de todos, e lhe disse:
“Se os sapatos são Cerullo, por que a loja é Solara?”
Rino a pegou pelo braço e lhe disse em voz baixa:
“Lina, por que você sempre insiste em encher o saco? Lembra a confusão em que você me meteu anos atrás justamente nesta praça? O que é que eu posso fazer, você quer outra confusão? Pelo menos uma vez se contente. Estamos aqui, no centro de Nápoles, e somos os proprietários. Cadê os merdas que queriam nos trucidar três anos atrás, cadê? Eles param, olham a vitrine, entram, pegam um docinho. Não é suficiente para você? Sapatos Cerullo, loja Solara. O que você queria escrever lá em cima? Carracci?”.
Lila se esquivou, dizendo sem agressividade:
“Já estou calma. O suficiente para lhe dizer que você não precisa me pedir mais nada. O que você está fazendo? Está pegando dinheiro emprestado com a senhora Solara? Stefano também está? Os dois estão endividados: é por isso que sempre dizem sim? A partir de agora, cada um por si, Rino”.
Deu as costas para nós dois e foi direto para Michele Solara com maneiras festivamente sedutoras. Vi que se afastava com ele pela praça, ambos circulavam em torno dos leões de pedra. Vi que o marido a seguia com o olhar. Vi que não tirou os olhos de cima dela durante todo o tempo em que ambos passeavam conversando. Vi que Gigliola estava ficando furiosa, que falava sem parar no ouvido de Pinuccia, e que as duas olhavam para ela.
Nesse meio-tempo a loja se esvaziou, e alguém apagou o grande e luminosíssimo letreiro. Na praça houve instantes de escuridão, depois os postes rebrilharam com força. Lila deixou Michele sorrindo, mas entrou na loja com uma expressão de repente vazia de vida, fechando-se no compartimento onde havia a privada.
Alfonso, Marcello, Pinuccia e Gigliola começaram a pôr ordem na loja. Aproximei-me para ajudá-los.
Lila saiu do banheiro e Stefano, como se estivesse de tocaia, imediatamente a agarrou pelo braço. Ela se desvencilhou irritada e veio até mim. Estava palidíssima, sussurrou:
“Estou perdendo um pouco de sangue. O que significa? O menino morreu?”.
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