História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 110 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 109

Perto das férias de Natal de 1966 tive um resfriado fortíssimo. Telefonei para uma vizinha de casa dos meus pais — finalmente agora no bairro velho muitos já tinham o aparelho — e avisei que não iria para as férias. Depois afundei em dias desolados de febre muito alta e tosse, enquanto a faculdade se esvaziava e ficava cada vez mais silenciosa. Não comia nada, tinha dificuldade até de beber. Certa manhã em que eu me deixara levar por uma letargia extenuante, escutei vozes altas, em meu dialeto, como quando no bairro as mulheres brigavam de uma janela a outra. Do fundo mais negro de minha cabeça me veio o passo conhecido de minha mãe. Não bateu, escancarou a porta e entrou carregada de bolsas.

Algo inimaginável. Tinha saído do bairro poucas vezes, no máximo para ir ao centro. Fora de Nápoles, que eu saiba, ela nunca tinha estado. No entanto entrara num trem, viajara de noite e viera despejar em meu quarto iguarias natalinas preparadas antecipadamente só para mim, frases briguentas em voz altíssima, ordens que deviam, como por magia, me restabelecer e me fazer viajar com ela naquela noite: porque ela precisava partir, em casa tinha outros filhos e meu pai.

Mais que a febre, foi ela quem me debilitou. Temi que a diretora aparecesse, de tanto que ela gritava e deslocava móveis, arrumava coisas sem cautela. A certo ponto tive a impressão de que ia desmaiar, fechei os olhos esperando que não me seguisse no escuro nauseante para o qual eu me sentia arrastada. Mas ela não se deteve diante de nada. Sempre em movimento pelo quarto, solícita e agressiva, me falou de meu pai, dos irmãos, dos vizinhos, dos amigos e, naturalmente, de Carmen, Ada, Gigliola e Lila.

Eu tentava não escutar, mas ela me perseguia dizendo: entendeu o que ela fez, entendeu o que aconteceu?, e me sacudia tocando meu braço ou um pé enterrado sob os cobertores. Descobri que, no estado de fragilidade devido à doença, eu estava mais sensível que de costume a tudo o que não suportava nela. Me irritei — e deixei claro — com o fato de, a cada palavra, ela querer demonstrar que todas as amigas de minha idade tinham fracassado terrivelmente, se comparadas a mim. “Pare com isso”, murmurei. E ela nada, repetia continuamente: já você.

Mas o que mais me feriu foi notar por trás de seu orgulho de mãe o temor de que, de um momento para outro, tudo mudasse e eu de novo perdesse pontos, não lhe dando mais a ocasião de se vangloriar. Confiava pouco na estabilidade do mundo. Por isso me alimentou à força, enxugou meu suor, me obrigou a checar a febre não sei quantas vezes. Tinha medo de que eu morresse e a privasse de minha existência-troféu? Temia que, não tendo mais forças, eu cedesse e de algum modo andasse para trás, tivesse que voltar para casa sem nenhuma glória? Falou obsessivamente de Lila. Insistiu tanto que de repente intuí o quanto ela a tinha em consideração desde pequena. Ela também, minha mãe também, pensei, se deu conta de que Lila é melhor do que eu e agora está surpresa de que eu a tenha deixado para trás, acredita e não acredita, tem medo de perder o lugar de mãe mais felizarda do bairro. Olha como é combativa, olha quanta presunção tem nos olhos. Notei a energia que expandia em torno de si e pensei que o passo claudicante lhe demandara mais forças do que o normal para sobreviver, até lhe impor a ferocidade com que se movia dentro e fora da família. Já meu pai era o quê? Um homenzinho fraco, adestrado para ser subserviente e a estender a mão com discrição para embolsar pequenas gorjetas: com certeza jamais conseguiria superar todos os obstáculos e chegar lá dentro daquele edifício austero. Mas ela conseguira.

Quando foi embora e o silêncio voltou, de um lado me senti aliviada, de outro, por culpa da febre, fiquei comovida. Pensei nela sozinha, indagando a cada passante se estava na direção certa para a estação ferroviária, ela, a pé, com sua perna machucada, numa cidade desconhecida. Jamais gastaria em um ônibus, tinha o cuidado de não desperdiçar nem sequer cinco liras. Mas de todo modo conseguiria: compraria a passagem certa e tomaria os trens corretos, viajando à noite em assentos desconfortabilíssimos ou em pé, até Nápoles. Lá, em mais uma longa caminhada, rumaria até o bairro para voltar a lustrar e a cozinhar, e cortaria em pedaços a enguia, e prepararia a salada de acompanhamento, e o caldo de galinha, e os struffoli, sem repousar nem um instante, raivosa, mas dizendo para se confortar em alguma parte de sua mente: “Lenuccia é melhor que Gigliola, que Carmen, que Ada, que Lina, que todas”.

 

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