História do novo sobrenome
Capítulo 89
Stefano dormiu o dia todo. Quando despertou e se deu conta de que a mulher não estava, fingiu que não era nada. Comportava-se assim desde criança, quando o pai o aterrorizava apenas com sua presença, e ele, por reação, se adestrara àquele meio sorriso, aos movimentos lentos e tranquilos, a uma distância ponderada de cada coisa do mundo circunstante, para dominar tanto o pavor quanto o desejo de abrir-lhe o peito com as mãos e rasgá-lo, arrancar-lhe o coração.
Saiu à noite e fez uma coisa arriscada: foi para baixo da janela de Ada, sua vendedora, e, mesmo sabendo que ela devia estar no cinema com Pasquale, chamou-a e chamou-a várias vezes. Ada apareceu entre feliz e assustada. Ficara em casa porque Melina estava delirando mais do que o normal, e Antonio, desde que trabalhava para os Solara, andava sempre por aí, não tinha horários. Mas o namorado estava fazendo companhia a ela. Stefano subiu mesmo assim e, sem fazer nenhuma menção a Lila, passou a noite na casa dos Cappuccio conversando de política com Pasquale e de questões ligadas à charcutaria com Ada. Quando voltou para casa, fez de conta que Lila tinha ido para a casa dos pais e, antes de entrar na cama, barbeou-se com cuidado. Dormiu pesadamente a noite inteira.
Os problemas começaram no dia seguinte. A vendedora da Piazza dei Martiri comunicou a Michele que Lila não tinha aparecido. Michele ligou para Stefano, e Stefano lhe disse que a mulher estava doente. A doença durou vários dias, então Nunzia deu um pulo lá para ver se a filha estava precisando dela. Ninguém abriu, e ela voltou de noite, depois do fechamento das lojas. Stefano tinha acabado de voltar do trabalho e estava na frente da tv, com o volume nas alturas. Praguejou, foi abrir, a fez entrar e se sentar. Assim que Nunzia disse: “Como Lila está?”, ele respondeu que ela o havia abandonado, e desandou a chorar.
Ambas as famílias foram às pressas para lá: a mãe de Stefano, Alfonso, Pinuccia com o bebê, Rino, Fernando. Por um motivo ou por outro, todos estavam assustados, mas apenas Maria e Nunzia se preocuparam expressamente com a sorte de Lila e se perguntaram onde ela podia estar. Os outros brigaram entre si por motivos que pouco tinham a ver com ela. Rino e Fernando, que estavam embirrados com Stefano porque ele não fazia nada para impedir o fechamento da fábrica de calçados, o acusaram de nunca ter entendido nada de Lila e de ter agido malíssimo ao mandá-la para a loja dos Solara. Pinuccia se enfureceu e gritou ao marido e ao sogro que Lila sempre tinha sido uma cabeça de vento e que não era ela a vítima de Stefano, mas Stefano a dela. Quando Alfonso sugeriu que era preciso avisar à polícia, perguntar nos hospitais, os ânimos se exaltaram mais ainda, e todos o atacaram como se ele os tivesse ofendido: sobretudo Rino gritou que o menos recomendável era se tornar a piada do bairro. Foi Maria quem disse baixinho: “Talvez tenha ido passar um tempo com Lenu”. Aquela hipótese ganhou força. Continuaram preocupados, mas todos fingindo acreditar — exceto Alfonso — que Lila, por culpa de Stefano, dos Solara, tinha ficado deprimida e decidira partir para Pisa. “Sim”, disse Nunzia se acalmando, “ela faz sempre assim, basta ter um problema e corre para Lenu.” A partir daquele momento todos começaram a se enfurecer por aquela viagem arriscada, ela sozinha, dentro de um trem, distante, sem avisar ninguém. Por outro lado, a hipótese de que Lila estivesse comigo pareceu tão plausível e ao mesmo tempo tão tranquilizadora que logo se tornou um fato certo. Somente Alfonso disse: “Amanhã viajo e vou ver”, mas foi logo repreendido por Pinuccia — “Você vai é trabalhar” — e por Fernando, que resmungou: “Vamos deixá-la em paz, vamos esperar que se acalme”.
No dia seguinte aquela foi a versão que Stefano passou a dar a qualquer um que perguntasse por Lila: “Foi para Pisa, está hospedada com Lenuccia, precisa repousar”. Mas já de tarde Nunzia foi tomada de ansiedade, procurou Alfonso e perguntou se ele tinha meu endereço. Não tinha, ninguém tinha, somente minha mãe. Então Nunzia mandou Alfonso até ela, mas minha mãe, por uma natural hostilidade em relação a todos ou para proteger meus estudos de distrações, o repassou incompleto (é provável que ela mesma o tivesse anotado assim: minha mãe mal escrevia, ambas sabíamos que aquele endereço nunca seria utilizado). De todo modo, Nunzia e Alfonso me escreveram juntos uma carta em que me indagavam com muitos volteios de palavras se Lila estava comigo. Endereçaram o envelope para a Universidade de Pisa, nada mais do que isso, apenas meu nome e sobrenome, e o recebi com muito atraso. Li, fiquei ainda mais furiosa com Lila e Nino, não respondi.
Enquanto isso, já no dia seguinte à assim chamada viagem de Lila, Ada, além de trabalhar na charcutaria antiga, além de cuidar de toda a família e das necessidades do namorado, passou também a arrumar a casa de Stefano e a cozinhar para ele, o que deixou Pasquale de muito mau humor. Os dois brigaram, e ele lhe disse: “Você não é paga para bancar a escrava”, e ela respondeu: “Melhor bancar a escrava que perder tempo discutindo com você”. Quanto à Piazza dei Martiri, para agradar aos Solara mandaram Alfonso para lá às pressas, o qual se sentiu muito à vontade: saía de manhã cedo como se estivesse indo a um casamento e voltava à noite bastante satisfeito, gostava de passar o dia todo no centro. Já Michele se tornou intratável depois do sumiço de Lila, chamou Antonio num canto e lhe disse:
“Ache-a para mim.”
Antonio resmungou:
“Nápoles é grande, Miché, e Pisa também, e a Itália também. Por onde começo?”
Michele respondeu:
“Pelo filho mais velho de Sarratore. Depois lançou a ele a mirada que reservava a todos os que a seus olhos valiam menos que zero e falou: “Se ousar falar por aí sobre essa investigação, mando trancá-lo no manicômio de Aversa e você nunca mais sai de lá. Tudo o que souber, tudo o que vir, deve contar só para mim. Entendido?”
Antonio fez sinal que sim.
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