História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 73 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 72

Temi encontrar as duas mulheres acordadas, mas ambas estavam dormindo. Não estavam preocupadas a ponto de perder o sono, me consideravam sensata, confiavam em mim. Dormi profundamente.

No dia seguinte acordei alegre e, mesmo quando Nino, Lila e o acontecimento nos Maronti me chegaram aos fragmentos, continuei me sentindo bem. Conversei longamente com Nella, tomei café com os Sarratore, não me desagradou a gentileza falsamente paternal com que Donato me tratou. Nem por um instante pensei que o sexo com aquele homem um tanto inchado, vaidoso e conversador tivesse sido um erro. No entanto, vê-lo ali, à mesa, ouvi-lo e ter consciência de que foi ele quem me desvirginou me causou repulsa. Fui à praia com toda a família, tomei banho com as crianças, deixei atrás de mim um rastro de simpatia. Cheguei a Forio pontualíssima.

Chamei Nino, ele apareceu logo. Recusei-me a subir, um pouco porque devíamos escapar o mais depressa possível, um pouco porque não queria guardar na lembrança imagens dos cômodos que Nino e Lila tinham habitado sozinhos por quase dois dias. Esperei, Lila não chegava. A ansiedade retornou de golpe, imaginei que Stefano tivesse arranjado um jeito de partir de manhã, que estivesse desembarcando algumas horas antes do previsto, que aliás já estivesse indo para casa. Chamei mais uma vez, Nino voltou a aparecer, me fez sinal para aguardar só mais um minuto. Desceram uns quinze minutos depois, se abraçaram e se beijaram demoradamente no portão. Lila correu para mim, mas parou de repente, como se tivesse esquecido alguma coisa, e voltou atrás, o beijou de novo. Desviei o olhar incomodada, e tornou a ganhar força a ideia de que eu era mal constituída, sem uma verdadeira capacidade de envolvimento. Por outro lado, os dois voltaram a me parecer lindíssimos, perfeitos em cada movimento, tanto que gritar: “Lina, se apresse” foi quase desfigurar uma imagem de fantasia. Ela pareceu puxada por uma força cruel, a mão correu lentamente do ombro dele pelo braço até a ponta dos dedos, como num passo de balé. Finalmente ela veio até mim.

Fizemos o trajeto numa carroça motorizada, trocando poucas palavras.

“Tudo bem?”

“Tudo. E você?”

“Bem.”

Não falei nada sobre mim; ela, nada sobre si. Mas as razões daquele laconismo eram muito diferentes. Ao que me acontecera eu não tinha nenhuma intenção de dar palavras: era um fato nu, se referia a meu corpo, à sua reatividade fisiológica; que nele, pela primeira vez, tivesse se introduzido uma parte minúscula do corpo de um outro me parecia irrelevante: a massa noturna de Sarratore não me comunicava nada, salvo uma sensação de estranheza, e era um alívio que tivesse se dissipado como um temporal que não chega. Ao contrário, me pareceu evidente que Lila se calava porque não tinha palavras. Senti que se mantinha num estado sem pensamentos ou imagens, como se, afastando-se de Nino, tivesse esquecido nele tudo aquilo de seu, até a capacidade de dizer o que lhe acontecera, o que estava acontecendo. Essa diferença entre nós me deixou melancólica. Tentei vasculhar minha experiência na praia para ver se achava algo de equivalente ao seu alheamento doloroso-feliz. Também me dei conta de que nos Maronti, em Barano, eu não tinha deixado nada, nem mesmo aquele novo eu que se revelara a mim. Tinha levado tudo comigo e por isso não sentia a urgência que, ao contrário, eu lia nos olhos de Lila, em sua boca entreaberta, nos punhos cerrados, a urgência de voltar atrás, de reintegrar-me a quem eu tive de deixar. E, se aparentemente minha condição podia parecer mais sólida, mais compacta, o fato é que, ao lado de Lila, eu me sentia pantanosa, terra demasiado impregnada de água.

 

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