História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 42 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 41

Desembarcamos na ilha no segundo domingo de julho, Stefano e Lila, Rino e Pinuccia, Nunzia e eu. Os dois homens iam carregados de bagagens, alarmados, como heróis antigos aportados numa terra ignota, desconfortáveis porque privados da couraça de seus automóveis, infelizes por terem madrugado e, consequentemente, renunciado aos ócios de bairro no feriado. As esposas, vestindo roupa de domingo, estavam irritadas com eles, mas cada qual a seu modo: Pinuccia, porque Rino estava carregado demais, sem deixar a ela nenhum peso; Lila, porque Stefano fingia saber o que fazer e aonde ir, mas bem se via que ele não sabia nada. Quanto a Nunzia, tinha o ar de quem mal se sente tolerada e tinha o cuidado de não dizer nada que pudesse destoar e aborrecer os jovens. A única realmente satisfeita era eu, com a mochila a tiracolo cheia de minhas poucas coisas, excitada pelos cheiros de Ischia, pelos sons, pelas cores que imediatamente, logo após o desembarque, confirmaram sem decepcionar a memória das férias de anos antes.

Acomodamo-nos em duas carroças motorizadas, corpos espremidos, suor, bagagens. A casa, alugada às pressas graças à mediação de um fornecedor de embutidos de origem ischiana, ficava ao longo da estrada que ia até um local chamado Cuotto. Era uma construção pobre e pertencia a uma prima do revendedor, uma mulher magérrima, acima de sessenta anos, solteira, que nos acolheu com uma aspereza eficiente. Stefano e Rino arrastaram as malas por uma escadinha estreita brincando entre si, mas também se lamentando do cansaço. A proprietária nos introduziu em ambientes penumbrosos, cheios de imagens sacras e velas acesas. Mas, quando abrimos as janelas, vimos além da estrada, além dos vinhedos, além das palmas e dos pinheiros uma longa faixa de mar. Ou melhor: os quartos que Pinuccia e Lila escolheram para si após atritos do tipo o seu é maior, não, o seu é maior, davam para o mar; já o quarto que coube a Nunzia tinha uma espécie de escotilha no alto, para além da qual nunca soubemos o que havia; e o que coube a mim — minúsculo — mal continha uma cama e dava para um galinheiro em frente a um bosquezinho de juncos.

Na casa não havia nada para comer. Por indicação da proprietária, chegamos a uma tratoria escura, sem outros clientes. Fomos nos acomodando titubeantes, só para forrar o estômago, mas no final até Nunzia, que era desconfiada quanto a qualquer cozinha que não fosse a dela, achou que ali se comia bem e quis levar algo para a ceia da noite. Stefano não deu o mínimo sinal de querer pedir a conta e, depois de um mudo tergiversar, Rino se conformou em pagar para todos. Então nós, meninas, propusemos ir até a praia, mas os dois rapazes resistiram, bocejaram, disseram que estavam cansados. Insistimos, especialmente Lila. “Comemos demais”, disse, “vai fazer bem caminhar, você está disposta, mamãe?” Nunzia apoiou os rapazes, e todos voltamos para casa.

Após um entediado vaguear pelos cômodos, tanto Stefano quanto Rino disseram quase em uníssono que queriam dormir um pouco. Riram, cochicharam entre si, riram de novo e depois fizeram sinal às mulheres, que os acompanharam desinteressadamente aos quartos de casal. Nunzia e eu ficamos sós por umas duas horas. Verificamos o estado da cozinha, bastante suja, o que levou Nunzia a lavar ruidosamente cada utensílio com zelo: pratos, copos, talheres, panelas. Precisei insistir para que aceitasse minha ajuda. Pediu que eu me lembrasse de um certo número de pedidos urgentes à dona da casa e, quando ela mesma perdeu a conta das coisas que faltavam, se espantou que eu não tivesse esquecido nada e me disse: “Por isso você vai tão bem na escola”.

Finalmente os dois casais reapareceram, primeiro Stefano e Lila, depois Rino e Pinuccia. Tornei a propor uma ida à praia, mas um café aqui, uma brincadeira ali, conversas, e Nunzia que se pôs a cozinhar, e Pinuccia que ficou pendurada em Rino e ora o fazia tocar sua barriga, ora lhe sussurrava fique, volte amanhã de manhã, o tempo voou depressa e mais uma vez não fizemos nada. Por fim, os homens foram tomados pela pressa, tiveram medo de perder a embarcação e, imprecando porque não tinham vindo de carro, foram correndo buscar alguém que os levasse até o porto. Foram embora quase sem se despedir. Pinuccia ficou com lágrimas nos olhos.

Nós, as mais novas, começamos a desfazer as malas em silêncio, a arrumar nossas coisas, enquanto Nunzia se empenhava em deixar o vaso sanitário brilhando. Somente quando tivemos certeza de que os dois homens não tinham perdido a embarcação e não voltariam atrás, relaxamos e começamos a nos distrair. Tínhamos à nossa frente uma longa semana sem obrigações, exceto com nossas coisas. Pinuccia disse que tinha medo de ficar sozinha no quarto — havia uma imagem de Nossa Senhora das Dores com vários punhais no coração que cintilavam à luz de um círio — e foi dormir com Lila. Eu me tranquei no quartinho para desfrutar meu segredo: Nino estava em Forio, pouco distante dali, e talvez já amanhã o encontrasse na praia. Me senti uma louca, uma insensata, mas me regozijei com aquilo. Havia uma parte de mim que estava cansada de agir sempre como uma pessoa de bom senso.

Fazia calor, abri a janela. Fiquei escutando a agitação das galinhas, o roçar dos juncos e só então me dei conta dos pernilongos. Fechei a janela depressa e passei pelo menos uma hora localizando-os e esmagando-os com um dos livros que Galiani me emprestara, Teatro completo, de um escritor que se chamava Samuel Beckett. Não queria que Nino me visse na praia com bolhas vermelhas na cara e no corpo; não queria que me flagrasse com um livro de teatro, lugar onde, aliás, eu nunca pusera os pés. Afastei o Beckett, marcado com as manchas negras ou sanguíneas dos mosquitos, e comecei a ler um texto muito complicado sobre a ideia de nação. Adormeci lendo.

 

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