História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 50 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 49

 

Enquanto voltávamos para casa, eu disse a Lila:

“Se eu lhe empresto um livro, que aliás nem é meu, só lhe peço que não o traga para a praia. Não posso devolvê-lo a Galiani com areia dentro.”

“Desculpe”, disse ela, e me deu com alegria um beijo na bochecha. Talvez para ser perdoada, quis carregar minha bolsa e a de Pinuccia.

Lentamente fui me acalmando. Pensei que não por acaso Nino mencionara o fato de que estava indo a Barano: queria que eu soubesse e decidisse por minha conta encontrá-lo ali. Ele é assim mesmo — disse a mim mesma, com alívio crescente —, precisa ser procurado: amanhã acordo cedo e vou. Mas quem ficou de mau humor foi Pinuccia. Normalmente ela se enfurecia com facilidade, mas logo se aquietava, especialmente agora que a gravidez não só lhe amaciara o corpo, mas também as arestas do caráter. No entanto se mostrou cada vez mais raivosa.

“Bruno lhe disse algo antipático?”, perguntei a ela a certa altura.

“Imagina.”

“E o que houve?”

“Nada.”

“Não está se sentindo bem?”

“Estou ótima, nem eu sei o que é que tenho.”

“Vá se arrumar que Rino já está chegando.”

“Sim.”

Mas ficou com a roupa úmida no corpo, folheando distraidamente uma fotonovela. Lila e eu nos embelezamos, especialmente Lila, que se enfeitou como se fosse a uma festa, e ela, nada. Então até Nunzia, que trabalhava silenciosa preparando o jantar, disse baixinho: “Pinu, o que é, minha linda, não vai se vestir?”. Nenhuma resposta. Somente quando ouviu o ronco das lambretas e as vozes dos dois jovens que chamavam, Pina deu um pulo e correu para se trancar no quarto de casal, gritando: “Não o deixem entrar, por favor”.

Passamos uma noite confusa, que em diferentes graus acabou também confundindo os maridos. Stefano, já acostumado aos conflitos permanentes de Lila, se viu inesperadamente diante de uma garota muito afetuosa, inclinada a abandonar-se a carícias e beijos sem a hostilidade de sempre; já Rino, que estava habituado às manhas pegajosas de Pinuccia, ainda mais pegajosas agora que estava grávida, ficou mal porque a mulher não correu para encontrá-lo nas escadas, precisou ir procurá-la no quarto e, quando finalmente a abraçou, percebeu logo o esforço que fazia para se mostrar contente. Não só. Enquanto Lila riu muito quando, depois de uns copos de vinho, os dois jovens meio bêbados começaram a escancarar seu desejo com alusões sexuais, Pinuccia, assim que Rino lhe sussurrou rindo não sei o quê no ouvido, se retraiu bruscamente e sibilou em um semi-italiano: “Pare com isso, você é um cafona”. Ele disse com raiva: “Cafona, eu? Cafona?”, e ela resistiu alguns minutos, até que seu lábio inferior tremeu e foi se refugiar no quarto.

“É a gravidez”, disse Nunzia, “é preciso ter paciência.”

Silêncio. Rino terminou de comer, bufou, foi até a esposa. Não voltou mais.

Lila e Stefano decidiram dar uma volta de lambreta para ver a praia de noite. Foram embora aos risos e trocando beijinhos. Eu tirei a mesa insistindo como sempre com Nunzia, que não queria que eu mexesse uma palha. Conversamos um pouco sobre como ela conheceu Fernando e os dois se apaixonaram, disse uma coisa que me espantou muito: “Você ama pela vida inteira pessoas que nunca sabe realmente quem são”. Fernando tinha sido tão bom quanto ruim, e ela o amara muito, mas também o odiara. “De modo que”, sublinhou, “não há motivo de preocupação: Pinuccia está de lua, mas depois se ajeita; e lembra como Lila voltou da lua de mel? Bem, olhe para eles agora. A vida toda é assim: numa vez você apanha, noutra, recebe beijos”.

Fui me recolher em meu quartinho, tentei acabar o Chabod, mas voltei a pensar em como Nino ficara encantado com o modo de Lila falar daquele Rooney e me passou a vontade de perder tempo com a ideia de nação. Nino também é esquivo, pensei, Nino também é difícil de entender quem é. Parecia não se interessar por literatura, mas aí Lila pega ao acaso um livro de teatro, diz meia dúzia de bobagens, e ele se apaixona. Remexi em meus livros em busca de outros volumes de literatura, mas não havia nenhum. Por outro lado, notei que faltava um livro. Será possível? Galiani tinha me emprestado seis. Um agora estava com Nino, um eu estava lendo, no mármore do parapeito havia três. Onde estava o sexto?

Procurei em todo canto, até debaixo da cama, e nesse meio tempo lembrei que era um livro sobre Hiroshima. Fiquei agitada, certamente Lila o pegara enquanto eu estava me lavando no banheiro. O que estava acontecendo com ela? Depois de anos de sapataria, noivado, amor, charcutaria, negócios com os Solara, resolvera voltar a ser o que tinha sido na escola fundamental? Claro, ela já havia dado um sinal: quisera fazer aquela aposta que, para além dos resultados, com certeza tinha sido um modo de me manifestar seu desejo de retomar os estudos. Mas isso não foi adiante, ela de fato se empenhou? Não. No entanto bastaram as conversas de Nino, seis tardes de sol na praia, para lhe devolver a vontade de aprender, quem sabe até disputar para ver quem era a melhor. Por isso elogiara a professora Oliviero? Por isso achara bonito que alguém se apaixonasse por toda a vida apenas por coisas importantes, e não pelas banais? Saí de meu quarto evitando os rangidos da porta, na ponta dos pés.

A casa estava silenciosa, Nunzia tinha ido dormir, Stefano e Lila ainda não tinham voltado. Entrei no quarto deles: um caos de roupas, sapatos, malas. Sobre uma cadeira encontrei o volume, o título era Hiroshima no dia seguinte. Ela o pegara sem me pedir permissão, como se minhas coisas fossem dela, como se eu devesse a ela aquilo que eu era, como se até os cuidados de Galiani com minha formação dependessem do fato de que ela, com um gesto distraído, uma frase apenas esboçada, me pusera em condição de alcançar esse prestígio. Pensei em levar o livro comigo. Mas me envergonhei, mudei de ideia, o deixei ali.

 

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