História do novo sobrenome
Capítulo 8
Voltaram ao bairro quatro dias depois. Na mesma noite Stefano convidou os sogros e o cunhado para a casa nova. Com um ar mais humilde que o habitual, pediu a Fernando que dissesse a Lila como as coisas tinham se passado com Silvio Solara. Numa fala entrecortada e cheia de lamentos, Fernando confirmou diante da filha a versão de Stefano. Já a Rino, Carracci pediu logo em seguida que dissesse por que — de comum acordo, mas com grande pesar — ambos afinal decidiram dar a Marcello os sapatos que ele queria. Com um ar de homem muito experiente, Rino sentenciou: há situações em que as escolhas são obrigatórias, e passou a atacar a situação arriscada em que Pasquale, Antonio e Enzo tinham se metido quando espancaram os irmãos Solara e destruíram seu carro.
“Sabe quem se arriscou mais nessa história?”, disse inclinando-se sobre a irmã e aumentando progressivamente de tom. “Eles, seus amigos, os paladinos de França. Marcello os reconheceu e se convenceu de que eles tinham agido incitados por você. Como eu e Stefano devíamos nos comportar? Queria que aqueles três tapados levassem o triplo de bordoadas que deram? Queria acabar com eles? E afinal por quê? Por um par de sapatos número quarenta e um que seu marido não pode calçar porque são apertados e assim que chove entra água? No fim apaziguamos tudo e, já que Marcello queria tanto aqueles sapatos, os demos a ele.”
Palavras: com elas se faz e se desfaz como se quer. Lila sempre fora exímia com as palavras, mas, contrariamente às expectativas, naquela ocasião não abriu a boca. Aliviado, Rino fez questão de recordar em tom azedo que fora ela quem, desde pequena, o pressionara dizendo que era preciso ficar rico. Pois então, disse rindo, nos faça ficar ricos sem nos atrapalhar a vida, que já é bem complicada.
Naquela altura — uma surpresa para a dona da casa, para os outros certamente não — bateram à porta, e eram Pinuccia, Alfonso e a mãe, Maria, com uma travessa cheia de doces recém-feitos por Spagnuolo, o confeiteiro dos Solara.
Num primeiro momento, pareceu uma iniciativa para festejar a volta dos esposos da viagem de núpcias, tanto é que Stefano fez circular as fotografias do casamento recém-retiradas do fotógrafo (quanto aos filmes, claro, era preciso esperar um pouco mais). Mas logo ficou claro que o casamento de Stefano e Lila já era coisa do passado, os doces estavam sendo servidos para celebrar uma nova alegria: o noivado de Rino e Pinuccia. Todas as tensões foram deixadas de lado. Rino passou da entonação violenta de poucos minutos antes a modulações dialetais carinhosas, declarações de amor altissonantes, a ideia de fazer na bela casa de sua irmã, imediatamente, a festa de noivado. Depois, com gestos teatrais, extraiu do bolso um pequeno embrulho que, uma vez desembrulhado, revelou uma caixinha bojuda; e a caixinha bojuda, uma vez aberta, revelou um anel de brilhantes.
Lila notou que não era muito diferente do que ela trazia no dedo com a aliança e se perguntou onde seu irmão tinha conseguido o dinheiro. Houve abraços e beijos. Falou-se muito do futuro. Fizeram conjeturas sobre quem cuidaria da loja de sapatos Cerullo na Piazza dei Martiri, quando os Solara a abrissem no outono. Rino argumentou que Pinuccia poderia ficar à frente da loja, talvez sozinha, ou quem sabe com Gigliola Spagnuolo, que estava oficialmente noiva de Michele e por isso tinha seus interesses. A reunião de família ficou mais animada e cheia de esperanças.
Lila permaneceu quase todo o tempo de pé, ficar sentada lhe fazia mal. Ninguém, nem mesmo sua mãe, que se manteve calada durante todo o tempo, pareceu se dar conta de que ela estava com o olho direito inchado e escuro, o lábio inferior rachado, hematomas nos braços.
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