História do novo sobrenome
Capítulo 67
Alguém me chamou, me virei de golpe.
“Então eu vi bem”, falou debochada uma voz masculina.
“Eu disse que era ela”, falou uma voz feminina.
Reconheci ambos imediatamente, me levantei. Eram Michele Solara e Gigliola, acompanhados pelo irmão dela, um menino de doze anos chamado Lello.
Fiz grandes festas para eles, embora não tenha dito: sentem-se. Esperava que por algum motivo estivessem com pressa, que fossem embora logo, mas Gigliola estendeu sobre a areia com cuidado sua toalha e a de Michele, pôs a bolsa em cima, os cigarros, o isqueiro, e disse ao irmão: deite na areia quente que está ventando, você está com o calção molhado e vai se resfriar. O que fazer? Me esforcei para não olhar na direção do mar, quase como se agindo desse modo eles também não olhassem para lá, e prestei uma atenção entusiasmadíssima em Michele, que disparou a falar com aquele seu tom sem emoção, indiferente. Eles haviam tirado um dia de descanso, fazia calor demais em Nápoles. Ferry de manhã, ferry à noite, ar fresco. De todo modo, a loja da Piazza dei Martiri estava sendo tocada por Pinuccia e Alfonso, aliás, não, por Alfonso e Pinuccia, porque Pinuccia não fazia grande coisa, mas Alfonso era ótimo. Tinha sido justamente por sugestão de Pina que eles decidiram vir a Forio. Com certeza vocês vão encontrá-las, ela dissera, basta caminhar pela praia. De fato, caminha, caminha, Gigliola gritou: aquela não é Lenuccia? E aqui estamos. Repeti várias vezes que alegria, enquanto Michele subia distraidamente com os pés sujos de areia na toalha de Gigliola, tanto que ela o censurou — “um pouco mais de atenção” —, mas inutilmente. Agora que ele tinha terminado o relato de como vieram parar em Ischia, eu sabia que a verdadeira pergunta estava por vir, pude lê-la em seus olhos antes mesmo que a formulasse:
“E Lina, onde está?”
“Foi dar um mergulho.”
“Com este mar?”
“Não está tão agitado.”
Foi inevitável, tanto ele quanto Gigliola se viraram para ver o mar cheio de caracóis de espuma. Mas o fizeram distraidamente, já estavam se acomodando nas toalhas. Michele repreendeu o menino, que queria tomar outro banho. “Fique aqui”, disse, “quer morrer afogado?”, e meteu em sua mão uma revista em quadrinhos, acrescentando para a noiva: “Nunca mais vamos trazer este aqui”.
Gigliola me fez muitos elogios:
“Como você está bem, toda bronzeada, e os cabelos ficaram ainda mais claros.”
Sorri, me esquivei, mas só pensava numa coisa: preciso achar um modo de levá-los embora.
“Venham descansar em casa”, disse, “Nunzia está lá, vai ficar muito contente.”
Recusaram, a embarcação sairia dali a duas horas, preferiam pegar um pouco mais de sol e depois repousariam no caminho.
“Então vamos ao bar, vamos pegar alguma coisa”, eu disse.
“Sim, mas vamos esperar Lina.”
Como sempre ocorria em momentos de tensão, me esforcei em eliminar o tempo com as palavras e parti numa rajada de perguntas, tudo o que me passava pela cabeça: como estava Spagnuolo, o confeiteiro; como estava Marcello, se tinha encontrado uma namorada; o que Michele achava dos novos modelos de sapato, e o que achava o pai dele, e o que achava sua mãe, e o que achava o avô. A certa altura me levantei e disse: “Vou chamar Lina”, fui para a beira do mar, comecei a gritar: “Lina, volte, Michele e Gigliola estão aqui”, mas foi inútil, ela não me ouviu. Voltei atrás, recomecei a falação para distraí-los. Esperava que Lila e Nino, voltando à orla, percebessem o perigo antes que Gigliola e Michele os vissem e, assim, pudessem evitar qualquer gesto de intimidade. Mas, enquanto Gigliola ficou me ouvindo, Michele não teve nem a gentileza de fingir. Ele viera a Ischia justamente para encontrar Lila e conversar com ela sobre os novos sapatos, eu tinha certeza disso, e lançava longos olhares ao mar cada vez mais agitado.
Por fim a avistou. Viu enquanto saía da água, os dedos entrelaçados aos de Nino, um casal que não passava despercebido de tanto que era bonito, ambos altos, ambos naturalmente elegantes, os ombros que se roçavam, os sorrisos que trocavam. Estavam tão absortos em si que não notaram que eu estava em companhia. Quando Lila reconheceu Michele e recolheu a mão, já era tarde. Gigliola talvez não tenha percebido nada, o irmão estava lendo os quadrinhos, mas Michele viu e fixou o olhar em mim, como se quisesse ler em meu rosto o atestado do que acabara de presenciar. Deve ter tido a confirmação numa espécie de espanto. Disse sério, com a lentidão de voz que assumia quando se tratava de enfrentar algo que demandava rapidez e decisão:
“Dez minutos, só o tempo de nos despedir, e depois vamos.”
Na verdade, ficaram mais de uma hora. Quando Michele ouviu o sobrenome de Nino, que apresentei acentuando muito o fato de que era um colega nosso da escola fundamental, além de meu colega de liceu, ele se saiu com a pergunta mais irritante:
“Você é filho daquele que escreve no Roma e no Napoli notte?”
Nino assentiu com indiferença, e Michele olhou-o fixamente por um longo segundo, como se quisesse encontrar nos olhos do outro a confirmação daquele parentesco. Depois não lhe dirigiu mais a palavra, falou sempre e apenas com Lila.
Lila foi cordial, irônica, às vezes pérfida. Michele disse:
“Aquele fanfarrão do seu irmão jura que foi ele quem projetou os sapatos novos.”
“E é verdade.”
“Então é por isso que são esse lixo.”
“Pode apostar que esse lixo vai vender ainda mais que os outros.”
“Pode ser, mas só se você vier trabalhar na loja.”
“Você já tem Gigliola, que trabalha muito bem.”
“Preciso de Gigliola no bar.”
“Problema seu, eu já estou na charcutaria.”
“Mas você vai ser transferida para a Piazza dei Martiri, madame, e terá carta branca.”
“Carta branca, carta preta, pode ir desistindo, eu estou bem onde estou.”
E a coisa seguiu nesse tom, os dois pareciam jogar frescobol com as palavras. Eu e Gigliola de vez em quando tentávamos dizer algo, principalmente Gigliola, que estava furiosa com o modo como o noivo falava de seu futuro sem sequer consultá-la. Quanto a Nino, notei que estava espantado, ou talvez admirado pela maneira de Lila sempre achar frases adequadas às de Michele, em dialeto, hábil e destemida.
Finalmente o jovem Solara anunciou que precisavam ir embora, o guarda-sol com as coisas deles estava bem longe. Se despediu de mim, se despediu de Lila efusivamente, reiterando que a esperava na loja ainda em setembro. Quanto a Nino, lhe falou sério, como a um subalterno a quem se manda comprar um maço de Nazionali:
“Diga a papai que ele fez muito mal ao escrever que a decoração da loja não lhe agradava. Quando se é pago, é preciso escrever que tudo é lindo, maravilhoso, se não, dinheiro nunca mais.”
Nino se atolou na surpresa, talvez na humilhação, e não respondeu. Gigliola lhe estendeu a mão, ele a apertou mecanicamente. O casal se retirou levando atrás de si o menino, que continuou lendo a revistinha enquanto caminhava.
OceanofPDF.com