História do novo sobrenome
Capítulo 106
O último ano em Pisa mudou a ótica com que eu tinha vivido os três primeiros. Peguei um desamor ingrato pela cidade, pelos colegas, pelos professores, pelas provas, pelos dias gelados, pelas reuniões políticas nas noites tépidas sob o Batistério, pelos filmes do cinefórum, por todo o espaço urbano, sempre o mesmo: o Timpano, o Lungarno Pacinotti, Via xxiv Maggio, Via San Frediano, Piazza dei Cavalieri, Via Consoli del Mare, Via San Lorenzo, percursos idênticos e todavia estranhos, mesmo quando o padeiro me dizia oi e a jornaleira falava do tempo, estranhos nas vozes que no entanto desde logo me esforcei em imitar, estranhos na cor das pedras e das plantas e das placas e das nuvens ou do céu.
Não sei se isso aconteceu por causa dos cadernos de Lila. O certo é que logo depois de os ter lido, e muito antes de jogar fora a caixa que os continha, me desencantei. Passou a impressão inicial de me encontrar no meio de uma batalha intrépida. Passaram as palpitações a cada exame e a alegria por ter tirado a nota máxima. Passou o prazer de reeducar minha voz, meus gestos, a maneira de vestir e de caminhar, como se competisse pelo prêmio de melhor fantasia, da máscara encaixada tão bem que era quase um rosto.
De repente me dei conta daquele quase. Eu tinha conseguido? Quase. Me desgarrara do bairro, de Nápoles? Quase. Tinha amigas e amigos novos, que vinham de ambientes cultos, muitas vezes bem mais cultos do que aquele ao qual pertenciam a professora Galiani e seus filhos? Quase. De exame em exame eu tinha me tornado uma estudante bem acolhida pelos professores pensativos que me arguiam? Quase. Por trás do quase tive a impressão de ver como as coisas estavam. Eu tinha medo. Tinha medo como no primeiro dia em que chegara a Pisa. Temia quem sabia ser culto sem o quase, com desenvoltura.
Na Normal eram muitos. Não se tratava apenas de estudantes que superavam os exames de modo brilhante, fosse em latim, grego ou história. Eram jovens — quase todos homens, assim como os professores de destaque e os nomes ilustres que passaram pela instituição — que se destacavam porque conheciam sem esforço aparente o uso presente e futuro de seu ímpeto de estudar. Sabiam por origem familiar ou por uma orientação instintiva. Sabiam como se fazia um jornal ou uma revista, como se organizava uma editora, o que era uma redação radiofônica ou televisiva, como nascia um filme, quais eram as hierarquias universitárias, o que estava além das fronteiras de nossos vilarejos ou cidades, além dos Alpes, além do mar. Conheciam os nomes de quem importava, as pessoas a serem admiradas e desprezadas. Já eu não sabia nada, para mim qualquer um que imprimisse o nome num livro ou jornal era um deus. Se alguém me dizia com admiração ou azedume: aquele é Fulano, aquele é filho de Sicrano, aquela é a sobrinha de Beltrano, eu me calava ou fazia de conta que estava a par. Intuía, claro, que eram sobrenomes realmente importantes, mas nunca os tinha escutado, não sabia o que tinham feito de relevante, ignorava o mapa do prestígio. Por exemplo, eu me apresentava preparadíssima para a prova, mas se o professor de repente me perguntasse: “Sabe de que obras deriva a autoridade com base na qual eu ensino esta matéria na universidade?”, não saberia o que responder. Já os outros estavam a par. Por isso eu me movia entre eles temendo falar e fazer coisas erradas.
Quando Franco Mari se apaixonou por mim, aquele medo se atenuou. Ele me instruía, aprendi a me mexer seguindo seu rastro. Franco era muito alegre, atento aos outros, atrevido, audacioso. Se sentia tão seguro de ter lido os livros certos e, portanto, de estar certo, que falava sempre com autoridade. Aprendi a me expressar na intimidade e mais raramente em público me apoiando em seu prestígio. E eu era boa nisso, ou pelo menos estava me tornando. Apoiada em suas certezas, às vezes eu conseguia ser mais atrevida que ele, às vezes mais eficaz. Porém, mesmo fazendo muitos progressos, continuei com a preocupação de não estar à altura, de dizer coisas erradas, de revelar o quanto eu era ignorante e inexperiente justo nas coisas que todos sabiam. E assim que Franco — contra a vontade dele — saiu de minha vida, o medo voltou a ficar forte. Tive então a prova do que no fundo no fundo eu já sabia. Sua riqueza, sua boa educação, o prestígio de jovem militante de esquerda muito conhecido entre os estudantes, a sociabilidade, até sua coragem quando intervinha com discursos bem calibrados contra pessoas poderosas dentro e fora da universidade tinham conferido a ele uma aura que, na condição de sua noiva, namorada ou companheira, automaticamente se estendera a mim, quase como se o puro e simples fato de que me amasse fosse a certificação pública de minhas qualidades. Mas a partir do momento em que perdera sua vaga na Normal seus méritos desvaneceram, não se irradiaram mais sobre mim. Os estudantes de boa família tinham parado de me convidar para passeios e festas dominicais. Alguns voltaram a zombar de mim por causa de meu sotaque napolitano. Tudo o que ele me presenteara tinha saído de moda, envelhecera em meu corpo. Eu tinha compreendido desde o início que Franco, sua presença em minha vida, tinha ocultado minha real condição, mas não a havia mudado, eu não tinha conseguido me integrar de fato. Estava entre os que se esforçavam dia e noite, que obtinham ótimos resultados, que eram até tratados com simpatia e estima, mas que nunca sustentariam com postura adequada a alta qualidade daqueles estudos. Eu sempre teria medo: medo de dizer a frase errada, de usar um tom excessivo, de estar vestida inadequadamente, de revelar sentimentos mesquinhos, de não ter pensamentos interessantes.
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