História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 60 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 59

No dia seguinte, para nos adequarmos ao novo horário dos rapazes, chegamos à praia às nove e não às dez, mas eles não estavam lá. Lila ficou nervosa. Esperamos, não deram as caras nem às dez, nem depois. Só apareceram no início da tarde e com um ar zombeteiro, de cumplicidade. Disseram que, já que passariam a noite com a gente, tinham decidido adiantar os estudos. Lila teve uma reação que surpreendeu especialmente a mim: expulsou os dois. Usando um dialeto violento, sibilou que eles podiam estudar quando quisessem, de tarde, de noite, de madrugada, agora mesmo, ninguém os impedia. E, como Nino e Bruno tentaram não a levar a sério e continuaram rindo, como se aquela agressão fosse uma tirada espirituosa, ela guardou a saída de praia, agarrou enfaticamente a bolsa e se dirigiu a passos largos para a estrada. Nino correu atrás dela, mas voltou logo em seguida com uma cara de enterro. Não tinha jeito, ela de fato estava furiosa e não queria saber de explicações.

“Vai passar”, disse me fingindo de tranquila, e fui tomar banho com eles. Me enxuguei ao sol e comi um sanduíche, conversei sem entusiasmo e então falei que também precisava voltar para casa.

“E hoje à noite?”, perguntou Bruno.

“Lila precisa ligar para Stefano, estaremos lá.”

Mas o ataque dela me perturbou. O que significavam aquele tom, aquelas maneiras? Que direito tinha de se aborrecer por um encontro adiado? Por que não conseguia se controlar e tratava os rapazes como se fossem Pasquale ou Antonio ou até os Solara? Por que se comportava como uma menininha mimada, e não como a senhora Carracci?

Entrei em casa agitada. Nunzia estava lavando toalhas e roupas, Lila estava no quarto, sentada na cama e, coisa igualmente anômala, estava escrevendo. Tinha o caderno apoiado nos joelhos, olhos apertados e cenho franzido, um de meus livros largado no lençol. Há quanto tempo não a via escrever?

“Você teve uma reação exagerada”, eu disse.

Deu de ombros, não tirou os olhos do caderno, continuou escrevendo a tarde toda.

De noite se arrumou como quando esperava o marido, e fomos todas para Forio. Notei com surpresa que Nunzia, que nunca tomava sol e era palidíssima, pediu o batom emprestado à filha só para colorir um pouco os lábios e o rosto. Não queria — disse — parecer já morta.

Topamos logo com os dois rapazes, que estavam parados em frente ao bar como sentinelas ao lado de uma guarita. Bruno ficara de bermuda, só tinha trocado a camisa. Nino estava de calça comprida, camisa de uma brancura reluzente e os cabelos rebeldes tão forçadamente em ordem que, ao vê-lo, me pareceu menos bonito. Quando perceberam a presença de Nunzia, se empertigaram imediatamente. Sentamos sob um alpendre, na entrada do bar, e pedimos um merengue. Para nosso espanto, Nunzia desandou a falar e não parou mais. Dirigiu-se apenas aos rapazes. Elogiou a mãe de Nino e recordou como ela era bonita; contou vários episódios do tempo da guerra, fatos ocorridos no bairro, e perguntou a Nino se ele se lembrava; quando ele respondia não, ela replicava sistematicamente: “Pergunte a sua mãe, com certeza ela se lembra”. Lila começou a dar sinais de incômodo, anunciou que era hora de ligar para Stefano e entrou no bar, onde ficavam as cabines. Nino emudeceu e Bruno prontamente o substituiu na conversa com Nunzia. Ele não demonstra — notei irritada — os constrangimentos que tem comigo quando estamos sós.

“Me deem licença um momento”, disse de repente Nino, que se levantou e entrou no bar.

Nunzia se agitou e me sussurrou no ouvido:

“Não me diga que ele vai pagar. A mais velha sou eu e a conta é minha.”

Bruno escutou e disse que já estava tudo pago, imagine se iam deixar uma senhora pagar. Nunzia se conformou, passou a informar-se sobre a fábrica de embutidos do pai, elogiou o marido e o filho, que também eram proprietários, tinham uma fábrica de calçados.

Lila demorava a voltar, e me preocupei. Deixei Bruno e Nunzia conversando e também entrei no bar. Desde quando os telefonemas para Stefano duravam tanto? Fui para as duas cabines telefônicas, ambas vazias. Olhei em volta, mas, parada no meio do bar, comecei a incomodar os filhos do dono que serviam às mesas. Vi uma porta aberta por onde entrava uma brisa; dava para um pátio. Me aproximei insegura, um cheiro de velhos pneus se misturava ao de um galinheiro. O pátio estava vazio, mas notei que numa lateral do muro havia uma abertura por onde se entrevia um jardim. Atravessei o espaço atravancado de ferro-velho e, antes mesmo de passar para o jardim, vi Lila e Nino. A claridade da noite de verão banhava as plantas. Os dois estavam abraçados, se beijando. Ele, com uma mão por baixo de sua saia; ela, tentando afastá-la, mas correspondendo ao beijo.

Recuei depressa, tentando não fazer barulho. Voltei ao bar, disse a Nunzia que Lila ainda estava no telefone.

“Estão brigando?”

“Não.”

Me sentia como se estivesse queimando, mas as chamas eram frias e eu não sentia dor. Ela é casada, disse a mim mesma, é casada há pouco mais de um ano.

Lila voltou sem Nino. Estava impecável, mas senti sua desordem, nas roupas, no corpo.

Esperamos um pouco, ele não apareceu, me dei conta de que detestava ambos. Lila se ergueu e disse: “Vamos, está tarde”. Quando já estávamos no veículo que nos conduziria para casa, Nino nos alcançou correndo e despediu-se com alegria: “Até amanhã”, gritou cordial, como nunca o tinha visto. Pensei: o fato de Lila ser casada não é um obstáculo nem para ele nem para ela, e aquela constatação me pareceu tão odiosamente verdadeira que meu estômago virou e levei uma mão à boca.

Lila foi para a cama cedo, esperei inutilmente que viesse me confidenciar o que tinha feito e o que pretendia fazer. Hoje acredito que nem ela soubesse.

 

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