História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 94 de 126

Páginas do PDF

História do novo sobrenome

Capítulo 93

Quem espancou Nino foi Antonio, que no entanto não falou quase nada ao patrão. Quando Michele lhe perguntou se tinha encontrado o filho de Sarratore, respondeu que sim. Quando lhe perguntou com visível ansiedade se aquela pista o levara a Lila, respondeu que não. Quando perguntou se tinha conseguido notícias dela, disse que era impossível encontrar Lila e que a única coisa que se podia excluir com certeza era que o filho de Sarratore tivesse algo a ver com a senhora Carracci.

Mentia, obviamente. Tinha encontrado Nino e Lila muito rápido, casualmente, na noite em que saíra a trabalho para dar porrada nos comunistas. Tinha arrebentado alguns sujeitos e depois se retirara do combate para seguir os dois que tinham escapado. Descobriu onde moravam, compreendeu que viviam juntos, e nos dias seguintes estudou tudo o que faziam, como viviam. Ao vê-los, experimentara simultaneamente admiração e inveja. Admiração por Lila. Como é possível, pensou, que tenha abandonado a casa, uma casa linda, e deixado o marido, as charcutarias, os automóveis, os sapatos, os Solara, por um estudante sem um tostão, que a mantém num lugar quase pior que o bairro? O que essa garota tem? Coragem? Loucura? Depois se concentrou na inveja por Nino. O que lhe fazia mais mal era que aquele merda seco e feio, de quem eu gostava, também tivesse agradado a Lila. O que o filho de Sarratore tinha? Qual era o trunfo dele? Pensou nisso noite e dia. Tinha sido tomado por uma espécie de fixação doentia que lhe afetava os nervos, especialmente os das mãos, tanto que as entrelaçava continuamente e as apertava como se rezasse. Por fim decidiu que precisava libertar Lila, ainda que naquele momento, talvez, ela não tivesse nenhuma intenção de ser libertada. Porém — disse a si mesmo — as pessoas demoram um tempo até entender o que é bom e o que é mau, e ajudá-las significa justamente fazer por elas o que, num determinado momento de suas vidas, não são capazes de fazer por si. Michele Solara não tinha mandado que ele desse uma surra no filho de Sarratore, isso não: ele lhe omitira o essencial e, portanto, não havia motivo para chegar a tanto; espancá-lo tinha sido uma decisão dele, que tomara em parte porque queria tirá-lo de Lila e assim devolver a ela o que ela incompreensivelmente jogara fora, e em parte por prazer, por uma intolerância que sentia não por Nino, um insignificante, desprezível aglomerado de pele feminina e ossos muito longos e frangíveis, mas pelo que nós duas tínhamos atribuído a ele e continuávamos atribuindo.

Quanto a mim, devo admitir que, quando tempos depois ele me fez esse relato, tive a impressão de entender seus motivos. Fiquei comovida, fiz um afago em seu rosto para consolá-lo dos sentimentos ferozes que experimentara. Ele enrubesceu, se atrapalhou e disse, para me mostrar que não era um bicho: “Depois eu o ajudei”. Tinha levantado o filho de Sarratore e o acompanhara meio zonzo até uma farmácia; o abandonara ali, na entrada, e então voltou ao bairro para falar com Pasquale e Enzo.

Os dois decidiram encontrá-lo com enorme má vontade. Não o consideravam mais um amigo, especialmente Pasquale, que no entanto era namorado da irmã dele. Mas Antonio já não se importava com isso, fazia de conta que não era com ele, se comportava como se a hostilidade por ele ter se vendido aos Solara fosse uma birra que não afetava a amizade. Não falou nada sobre Nino, concentrara-se no fato de que tinha encontrado Lila e que era preciso ajudá-la.

“A fazer o quê?”, perguntou Pasquale com um tom agressivo.

“A voltar para a casa dela: ela não foi encontrar Lenuccia, está vivendo num lugar de merda nos Campi Flegrei.”

“Sozinha?”

“Sim.”

“E como é que ela tomou essa decisão?”

“Não sei, não conversei com ela.”

“Por quê?”

“Eu a encontrei a pedido de Michele Solara.”

“Você é um fascista de merda.”

“Não sou nada, apenas fiz um trabalho.”

“Muito bem, e agora quer o quê?”

“Eu não disse a Michele que a encontrei.”

“E então?”

“Não quero perder o emprego, preciso ganhar algum dinheiro. Se Michele souber que eu disse uma mentira para ele, me demite na hora. Vão buscá-la vocês e a tragam de volta para casa.”

Pasquale mais uma vez o insultou pesadamente, mas também nesse caso Antonio quase não reagiu. Só ficou nervoso quando o futuro cunhado disse que Lila tinha agido bem ao deixar o marido e todo o resto: se finalmente ela saíra da loja dos Solara, se percebeu que tinha cometido um erro ao se casar com Stefano, certamente não seria ele que iria buscá-la de volta.

“Você quer deixá-la sozinha nos Campi Flegrei?”, perguntou Antonio perplexo. “Sozinha e sem um centavo?”

“Por quê? Por acaso nós somos ricos? Lina é adulta, conhece a vida: se fez essa escolha, deve ter seus motivos, vamos deixá-la em paz.”

“Mas ela nos ajudou todas as vezes que pôde.”

Aquela menção ao dinheiro que Lila lhe dera deixou Pasquale envergonhado. Resmungou coisas genéricas sobre ricos e pobres, sobre a condição das mulheres dentro e fora do bairro, sobre o fato de que, se era o caso de lhe dar algum dinheiro, ele estava pronto a isso. Mas Enzo, que até aquele instante estivera sempre calado, o interrompeu com um gesto irritado e falou a Antonio:

“Me dê o endereço, vou ouvir as intenções dela.”

 

OceanofPDF.com