História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 2 de 126

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História do novo sobrenome

Juventude

 

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1.

Na primavera de 1966, em um estado de grande agitação, Lila me confiou uma caixa de metal que continha oito cadernos. Disse que não podia mais guardá-los em casa, temia que o marido pudesse lê-los. Levei a caixa comigo sem fazer comentários, afora uma menção irônica ao excesso de barbante com que o atara. Naquela fase, nossas relações estavam péssimas, mas parecia que essa impressão era apenas minha. Ela, nas raras vezes em que nos víamos, não manifestava nenhum embaraço, era afetuosa, jamais deixava escapar uma palavra hostil.

Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei. Mas assim que me vi no trem, desatei o barbante, tirei os cadernos da caixa e comecei a ler. Não era um diário, embora ali figurassem relatos minuciosos de fatos de sua vida a partir do final da escola fundamental. Mais parecia o rastro de uma teimosa autodisciplina de escrita. As descrições abundavam: um galho de árvore, os pântanos, uma pedra, uma folha de nervuras brancas, as panelas de casa, as várias peças da maquininha de café, o braseiro, o carvão e o atiçador, um mapa detalhadíssimo do pátio, o estradão, o esqueleto de metal enferrujado além dos pântanos, os jardinzinhos e a igreja, o corte da vegetação à beira da ferrovia, os edifícios novos, a casa dos pais, os instrumentos que o pai e o irmão usavam para consertar sapatos, seus gestos quando trabalhavam, sobretudo as cores, as cores de cada coisa em diversas fases do dia. Mas não havia apenas frases descritivas. Aqui e ali surgiam palavras isoladas em napolitano e italiano, às vezes contornadas por um círculo, sem comentário. E exercícios de tradução do latim e do grego. E trechos inteiros em inglês sobre as lojas do bairro, as mercadorias, o carreto lotado de frutas e verduras que Enzo Scanno levava de rua em rua todos os dias, puxando o burro pelo cabresto. E vários raciocínios sobre os livros que lia, sobre os filmes que via na sala do padre. E muitas das ideias que defendera nas discussões com Pasquale, nas conversas que tínhamos uma com a outra. Claro, o andamento era descontínuo, mas qualquer coisa que Lila aprisionasse na escritura adquiria relevo, tanto que mesmo nas páginas escritas aos onze ou doze anos não achei uma só linha que soasse infantil.

Frequentemente as frases eram de extrema precisão, a pontuação muito cuidada, a grafia elegante como a que nos ensinara a professora Oliviero. Mas às vezes, como se uma droga lhe inundasse as veias, Lila parecia não suportar a ordem que se impusera. Tudo então se tornava árduo, as frases assumiam um ritmo sobressaltado, a pontuação desaparecia. Em geral, lhe bastava pouco para retomar o andamento largo e claro. Mas também acontecia de interromper-se bruscamente e preencher o resto da página com desenhinhos de árvores retorcidas, montanhas corcundas e fumegantes, caras assustadoras. Fui tomada tanto pela ordem quanto pela desordem, e quanto mais lia, mais me sentia enganada. Esse exercício estava por trás da carta que me enviara a Ischia anos antes: por isso era tão bem escrita. Recoloquei tudo na caixa prometendo a mim mesma que não mexeria mais naquilo.

Mas logo cedi de novo, os cadernos desprendiam a força de sedução que emanava de Lila desde pequena. Tinha tratado do bairro, dos parentes, dos Solara, de Stefano, de cada pessoa ou coisa com uma precisão implacável. E o que dizer da liberdade que se concedera quanto a mim, com o que eu dizia, com o que pensava, com as pessoas que eu amava, até com meu aspecto físico. Tinha fixado momentos decisivos para ela, sem se preocupar com nada nem com ninguém. Lá estava, nitidíssimo, o prazer que sentira quando aos dez anos escreveu aquele conto, A fada azul. Ali estava, com igual exatidão, o quanto havia sofrido porque nossa professora Oliviero não se dignara a dizer uma só palavra sobre aquele conto, aliás, o ignorara. Ali estava o sofrimento e a fúria por eu ter passado à escola média sem me preocupar com ela, abandonando-a. Lá estava o entusiasmo com que aprendera o ofício de sapateiro, e o sentimento de revanche que a induzira a desenhar sapatos novos, e o prazer de produzir um primeiro par com seu irmão Rino. Lá estava a dor quando Fernando, seu pai, dissera que os sapatos não eram bem-feitos. Havia de tudo naquelas páginas, mas especialmente o ódio pelos irmãos Solara, a determinação feroz com que rejeitara o amor do mais velho, Marcello, e o momento em que decidira ficar noiva do afável Stefano Carracci, o salsicheiro, que por amor quisera comprar o primeiro par de sapatos feito por ela, jurando que o guardaria para sempre. Ah, os belos momentos em que, aos quinze anos, se sentira uma mocinha rica e elegante, de braço dado com o futuro esposo que, só porque a amava, investira muito dinheiro na fábrica de calçados do pai e do irmão, a fábrica Cerullo. E que satisfação ela experimentara: os sapatos de sua fantasia em grande parte realizados, uma casa no bairro novo, o casamento aos dezesseis anos. E que deslumbrante festa de núpcias se seguira, como estava feliz. Depois Marcello Solara, acompanhado do irmão Michele, aparecera no meio dos festejos trazendo nos pés justamente os sapatos que seu marido dissera apreciar tanto. Seu marido. Com que tipo de homem se casara? Agora, fato consumado, arrancaria a falsa cara e mostraria a outra, horrivelmente verdadeira? Indagações, e os fatos sem truques de nossa miséria. Dediquei-me muito àquelas páginas, por dias, semanas. Estudei-as, acabei aprendendo de cor as passagens de que mais gostava, as que me exaltavam, as que me hipnotizavam, as que me humilhavam. Por trás de sua naturalidade havia com certeza um artifício, mas não soube descobrir qual.

Por fim, numa noite de novembro, exasperada, saí levando a caixa comigo. Não aguentava mais sentir Lila acima e dentro de mim, mesmo agora que eu era muito estimada, mesmo agora que tinha uma vida fora de Nápoles. Parei na ponte Solferino olhando as luzes filtradas por uma neblina gélida. Apoiei a caixa no parapeito, empurrei-a devagar, devagar, um pouco a cada vez, até que caiu no rio quase como se fosse ela, Lila em pessoa, a se precipitar, com seus pensamentos, suas palavras, a maldade com que restituía golpe após golpe a cada um, seu modo de apropriar-se de mim como fazia com qualquer pessoa ou coisa ou evento ou sabedoria que se aproximasse: os livros e os sapatos, a doçura e a violência, o casamento e a primeira noite de núpcias, o retorno ao bairro no novo papel de senhora Raffaella Carracci.

 

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