História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 67 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 66

No dia seguinte contei tanta lorota a Nunzia que eu mesma me envergonhei de o quanto eram infames. No centro das mentiras coloquei a professora Oliviero, que vai saber em que terríveis condições se encontrava em Potenza, e isso foi ideia minha, não de Lila. “Ontem”, disse a Nunzia, “encontrei Nella Incardo, e ela me falou que a prima dela, convalescente, foi passar umas férias na praia com ela para se recuperar da doença. Amanhã à noite Nella vai dar uma festa para a professora e convidou a mim e a Lila, que fomos suas melhores alunas. Nós queríamos muito ir à festa, mas vai ficar muito tarde e então seria impossível. Mas Nella nos garantiu que podemos dormir na casa dela.”

“Em Barano?”, perguntou Nunzia franzindo o cenho.

“Sim, a festa vai ser lá.”

Silêncio.

“Vá você, Lenu, Lila não pode, o marido vai ficar bravo.”

Lila atalhou:

“Basta não dizer a ele.”

“Mas o que você está dizendo?”

“Mamãe, ele está em Nápoles e eu estou aqui, ele nunca vai saber.”

“De um modo ou de outro, sempre se acaba sabendo das coisas.”

“Claro que não.”

“Claro que sim, e chega. Lina, não quero mais discussão: se Lenuccia quiser ir, muito bem, mas você fica aqui.”

Seguimos em frente por uma boa hora, eu enfatizando que a professora estava muito mal e que talvez aquela fosse a última oportunidade de lhe demonstrarmos nossa gratidão, e Lila perseguindo-a assim: “Quantas mentiras você já disse a papai? Confesse. E não por mal, mas por bem, para ter um momento seu, para fazer uma coisa certa que ele nunca lhe permitiria”. Pressiona daqui, pressiona dali, Nunzia primeiro afirmou que nunca tinha dito nem uma mínima mentira a Fernando; depois admitiu que dissera uma, duas, um monte; por fim lhe gritou com raiva e ao mesmo tempo com orgulho materno: “O que aconteceu quando eu fiz você? Um acidente, um soluço, uma convulsão, faltou luz, uma lâmpada queimou, caiu a bacia d’água da cômoda? Com certeza alguma coisa aconteceu para você ter nascido assim tão insuportável, tão diferente das outras”. E nessa altura se entristeceu, pareceu amansar. Mas logo voltou a endurecer, disse que não se diziam mentiras a um marido só para encontrar uma professora. E Lila exclamou: “Devo à professora Oliviero o pouco que eu sei; a escola que eu fiz, fiz com ela”. E no final Nunzia cedeu. Mas nos deu um horário preciso: sábado às catorze em ponto precisávamos estar em casa de novo. Nem um minuto a mais. “E se Stefano chega antes e não a encontra? Olha lá, Lina, não me ponha numa situação difícil. Está claro?”. “Claro”.

.Fomos para a praia. Lila estava radiante, me abraçou, me beijou, disse que seria grata por toda a vida. Mas eu já sentia culpa por aquela evocação da professora Oliviero, que pus no meio de uma festa, em Barano, imaginando-a como ela era quando nos dava aula, com energia, e não como de fato devia estar naquele momento, pior do que estava quando a vi sendo levada pela ambulância, pior do que como a tinha visto no hospital. A satisfação de ter inventado uma mentira eficaz se dissipou, perdi o frenesi da cumplicidade, voltei a ficar hostil. Me perguntei por que apoiava Lila, por que lhe dava cobertura: de fato ela queria trair o marido, queria violar o vínculo sagrado do matrimônio, queria arrancar de si sua condição de esposa, queria fazer algo que, se Stefano descobrisse, lhe racharia a cabeça. De repente me voltou à memória o que ela havia feito com sua foto vestida de noiva e senti uma dor no estômago. Agora, pensei, está se comportando do mesmo modo, mas não com uma foto, com sua própria condição de senhora Carracci. E, também neste caso, me envolve para ser ajudada. Nino é um instrumento, sim, sim. Como as tesouras, a cola, as tintas, ele lhe serve para estropiar-se. A que ação terrível ela está me impelindo? E por que me deixo levar?

Quando chegamos à praia ele estava nos esperando. Perguntou ansioso:

“E então?”

Ela disse:

“Sim.”

Correram para a água sem sequer me convidar; de resto, eu não teria ido. Me sentia gelada de ansiedade: por que tomar banho, por que ficar na orla sozinha, com medo das profundezas?

O vento soprava, havia umas faixas de nuvens, o mar estava meio agitado. Mergulharam sem hesitar, Lila com um prolongado grito de alegria. Estavam felizes, carregados de sua história, tinham a energia de quem está obtendo com êxito o que deseja, custe o que custar. Perderam-se em pouco tempo entre as ondas com braçadas decididas.

Me senti acorrentada a um pacto insuportável de amizade. Como tudo era tortuoso! Fui eu que arrastei Lila para Ischia. Fui eu que a usei para ir atrás de Nino, aliás, sem esperança. Tinha renunciado ao salário da livraria de Mezzocannone pelo dinheiro que ela me dava. Me pus a seu serviço e agora fazia o papel da criada que dava assistência à patroa. Acobertava seu adultério, preparava-o, ajudava-a a ficar com Nino, a ficar com ele em meu lugar, a deixar-se foder — sim, foder —, a trepar com ele um dia inteiro e uma noite inteira, a lhe fazer boquetes. Minhas têmporas começaram a latejar, calquei uma vez, duas, três a areia com o calcanhar e senti prazer ao ouvir ressoar na cabeça os nomes da infância, carregados de sexo confusamente imaginado. O liceu sumiu, sumiu a bela sonoridade dos livros, das traduções do grego e do latim. Fixei o mar resplandecente, a longa linha lívida que do horizonte se movia rumo ao céu azul, rumo à estria branca de calor, e mal os entrevi, Nino e Lila, pontinhos escuros. Não entendi se continuavam nadando para a névoa no horizonte ou se estavam voltando. Desejei que se afogassem e que a morte lhes tirasse as alegrias do dia seguinte.

 

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