História do novo sobrenome
Capítulo 122
Assim que entrei em casa tive uma péssima notícia. Minha mãe, certa de que era um direito seu olhar minha correspondência quando eu estivesse ausente, tinha aberto uma encomenda postal vinda de Potenza. No pacote encontrara alguns de meus cadernos da escola fundamental e um bilhete da irmã da professora Oliviero. Lia-se no bilhete que a professora Oliviero tinha morrido serenamente vinte dias antes. Nos últimos tempos se lembrara frequentemente de mim, e deixou instruções para que me restituíssem alguns cadernos do fundamental que tinha conservado por recordação. Me comovi mais que minha irmã Elisa, que chorava desconsolada havia horas. A coisa irritou minha mãe, que primeiro gritou com a filha menor e depois, para que eu, sua filha mais velha, ouvisse bem, comentou em voz alta: “Aquela cretina sempre se achou mais mãe do que eu”.
Durante todo o dia pensei em Oliviero, em como ficaria orgulhosa se soubesse de minha formatura com nota máxima, do livro que estava para publicar. Quando todos foram dormir, me fechei na cozinha silenciosa e folheei os cadernos um depois do outro. Como a professora tinha me instruído bem, que bela grafia me tinha dado. Pena que a mão adulta a tivesse reduzido, que a velocidade tivesse simplificado as letras. Sorri com os erros de ortografia assinalados com traços veementes, com os bom, os ótimo, que escrevia capciosamente ao lado quando topava com uma bela formulação ou a solução correta para um problema difícil, com as notas sempre altas que me dava. Tinha de fato sido mais mãe que minha mãe? De uns tempos para cá eu não estava mais segura disso. Mas tinha conseguido imaginar para mim um caminho que minha mãe não era capaz de imaginar e me forçara a trilhá-lo. Por isso eu lhe era agradecida.
Estava pondo o pacote de lado para ir dormir quando notei que, no meio de um dos cadernos, havia um fascículo magro, umas dez folhas quadriculadas presas por um alfinete e dobradas. Senti um vazio repentino no peito, reconheci A fada azul, o conto que Lila tinha escrito muitos anos antes, quantos?, treze, quatorze. Como eu tinha gostado da capa colorida com pastéis, as letras bem desenhadas do título: na época eu o tinha considerado um livro de verdade e senti inveja. Abri o fascículo na página central. O alfinete enferrujara, tinha desenhado o papel de marrom. Percebi com surpresa que a professora tinha escrito ao lado de uma frase: belíssimo. Então tinha lido? Então tinha gostado? Virei as páginas uma depois da outra, estavam cheias dos seus excelente, bom, muito bom. Fiquei com raiva. Velha bruxa, pensei, por que não nos disse que tinha gostado, por que negou a Lila essa satisfação? O que a levou a batalhar pela minha educação, e não pela dela? A recusa do sapateiro em deixar a filha fazer o exame de admissão era suficiente para justificá-la? Que frustrações você despejou sobre ela? Então me pus a ler A fada azul desde o início, correndo pela tinta pálida, pela grafia tão parecida com a minha de então. Mas já na primeira página comecei a sentir dor no estômago e logo me cobri de suor. E somente no final admiti aquilo que eu tinha percebido já nas primeiras linhas. As paginazinhas infantis de Lila eram o coração secreto do meu livro. Quem quisesse saber o que lhe dava calor e de onde nascia o fio robusto mas invisível que amarrava suas frases deveria remontar àquele fascículo de criança, dez paginazinhas de caderno, o alfinete enferrujado, a capa colorida de modo vivo, o título, e nem sequer uma assinatura.
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