História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 49 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 48

 

O dia passou devagar. Enquanto eu e Lila ficamos tranquilas sob o sol, esperando que chegasse a hora em que Nino e Bruno viriam com bebidas frescas, o humor de Pinuccia começou a piorar sem motivo. Soltou frasezinhas nervosas a intervalos cada vez mais breves. Ora temia que os dois não viessem, ora exclamava que eles não podiam jogar nosso tempo fora à espera de que aparecessem. Quando pontualmente os rapazes compareceram com as bebidas de sempre, ela se mostrou irritada, disse que estava exausta. Mas poucos minutos depois, sempre de mau humor, mudou de ideia e concordou resmungando em ir pegar o coco.

Quanto a Lila, fez uma coisa que não me agradou. Durante toda a semana nunca me falara do livro que eu lhe emprestara, tanto é que eu tinha até me esquecido. No entanto, assim que Pinuccia e Bruno se afastaram, ela não ficou esperando que Nino puxasse a conversa e lhe perguntou sem preâmbulos:

“Você já esteve no teatro?”.

“Algumas vezes.”

“E gostou?”

“Mais ou menos.”

“Eu nunca estive, mas já vi na televisão.”

“Não é a mesma coisa.”

“Eu sei, mas é melhor do que nada.”

E nesse ponto tirou da bolsa o livro que eu lhe emprestara, o volume que reunia o teatro de Beckett, e o mostrou a ele.

“Você já leu este?”

Nino pegou o livro, o examinou, admitiu incomodado:

“Não”.

“Então há algo que você ainda não leu.”

“Sim.”

“Você deveria ler este.”

Lila então começou a falar do livro. Para minha surpresa, ela se empenhou muito, e o fez à sua velha maneira, escolhendo as palavras de modo a nos fazer enxergar pessoas e coisas, e também a emoção que lhe dava redesenhá-las, exibi-las ali, agora, vivas. Disse que não era preciso esperar uma guerra atômica, no livro era como se ela já tivesse ocorrido. Falou longamente de uma senhora que se chamava Winnie e que a certa altura exclamava: outro dia divino, e ela mesma declamou aquela frase, emocionando-se a ponto de, ao pronunciá-la, sua voz tremer um pouco: outro dia divino, palavras insuportáveis, porque nada, nada, nos explicou, nada na vida de Winnie, nada nos gestos, nada na cabeça, era divino, nem naquele dia nem nos dias anteriores. Mas, acrescentou, quem mais a surpreendeu foi um tal de Dan Rooney. Dan Rooney, disse, é cego, mas não se lamenta, porque considera que sem a visão a vida é melhor, e chega até a se perguntar se, tornando-se surdo e mudo, a vida não seria ainda mais vida, vida pura, vida sem mais nada que não a vida.

“Por que você gostou?”, quis saber Nino.

“Ainda não sei se gostei.”

“Mas ficou curiosa.”

“Me fez pensar. O que quer dizer uma vida que é mais vida sem a visão, sem audição, até sem palavras?”

“Talvez seja só uma tirada.”

“Não, que tirada nada. Ali há alguma coisa que sugere mil outras, não é uma tirada.”

Nino não replicou. Disse apenas, fixando a capa do livro como se até ela devesse ser decifrada:

“Você já terminou?”.

“Terminei.”

“Pode me emprestar?”.

Aquele pedido me desconcertou, senti uma pontada. Nino tinha dito — me lembro bem — que a literatura lhe interessava pouco ou nada, que suas leituras eram outras. Eu tinha dado aquele Beckett a Lila justamente porque sabia que não poderia usá-lo em minhas conversas com ele. E agora que ela lhe falava do livro, não só a escutava, mas até o pedia emprestado. Interrompi:

“É da Galiani, foi ela quem me deu”.

“Você já leu?”, me perguntou.

Precisei admitir que não, não tinha lido, mas logo acrescentei:

“Estava pensando em começar nesta noite”.

“Quando terminar você me empresta?”

“Se lhe interessa tanto”, me apressei em dizer, “leia você antes.”

Nino me agradeceu, raspou com a unha uma mancha de mosquito na capa e disse, virando-se para Lila:

“Vou ler nesta noite e amanhã conversamos”.

“Amanhã, não, não vamos nos ver.”

“Por quê?”.

“Vou estar com meu marido.”

“Ah.”

Ele me pareceu irritado. Esperei trêmula que se dirigisse a mim e perguntasse se nós dois nos veríamos. Mas teve um impulso de impaciência e disse:

“Amanhã também não posso. Os pais de Bruno vão chegar esta noite, e eu preciso ir dormir em Barano. Volto na segunda”.

Barano? Segunda? Esperei que me convidasse a ir encontrá-lo nos Maronti. Mas estava distraído, talvez ainda estivesse com a cabeça em Rooney, que, não contente em ser cego, ainda queria ser surdo e mudo. Não me falou nada.

 

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