História do novo sobrenome
Capítulo 87
Foi naquela ótica de jogo com prováveis desfechos mortais que Lila se intrometeu na disputa entre o irmão, o marido e os irmãos Solara. Valeu-se da convicção de Michele de que ela era a pessoa certa para administrar a situação comercial da Piazza dei Martiri. Parou repentinamente de dizer não a ele e, depois de uma tratativa turbulenta, graças à qual obteve absoluta autonomia e um pagamento semanal bastante considerável, quase como se não fosse a senhora Carracci, aceitou trabalhar na loja de calçados. Não se importou com o irmão, que se sentia ameaçado pela nova marca Solara e via seu movimento como uma traição, nem com o marido, que de início ficou furioso e a ameaçou, mas depois a impeliu a complicadas mediações em seu nome com os dois irmãos a propósito de dívidas contraídas com a mãe deles, de valores a receber e a pagar. Também ignorou as palavrinhas melosas de Michele, que circulava continuamente em torno dela para, sem dar na vista, vigiar a reestruturação da loja e, enquanto isso, pressionava para conseguir novos modelos de sapato diretamente dela, passando por cima de Rino e de Stefano.
Lila tinha intuído há tempos que o irmão e o pai seriam colocados no bolso, que os Solara se apropriariam de tudo, que Stefano só conseguiria sobreviver se tornando cada vez mais dependente de suas transações. Mas, se antes aquela perspectiva a indignava, agora escrevia em seus apontamentos que o assunto a deixava de todo indiferente. Claro, ficava triste por causa de Rino, lamentava que seu papel de pequeno proprietário já estivesse em declínio, especialmente agora que se casara e teria um filho. Mas a seus olhos todos os laços do passado tinham perdido consistência, sua capacidade de afeto tinha tomado um único rumo, cada pensamento seu, cada sentimento agora tinha Nino em seu centro. Se antes era movida pelo desejo de enriquecer o irmão, agora só se movia para agradar a ele.
A primeira vez em que foi à loja da Piazza dei Martiri para pensar no que ia fazer, notou com espanto que, na parede em que ficava o painel com sua foto vestida de noiva ainda havia uma mancha escuro-amarelada do fogo que o destruíra. Aquele vestígio a incomodou. Não gosto de nada disso, pensou, de tudo o que me aconteceu e do que eu fiz antes de Nino. E de repente se deu conta de que naquele espaço, no centro da cidade, por motivos obscuros, tinham acontecido os momentos mais relevantes de sua guerra. Ali, na noite da luta com os rapazes da Via dei Mille, decidira definitivamente que precisava escapar da miséria. Ali se arrependera daquela decisão e desfigurara sua foto com o vestido de noiva, pretendendo que a afronta, por afronta, fosse exibida na loja como uma decoração. Ali tinha descoberto os sinais de que sua gravidez estava por um fio. Ali, agora, o empreendimento dos calçados estava indo a pique, tragado pelos Solara. E ali, por fim, seu casamento acabaria e ela se livraria de Stefano e de seu sobrenome, com tudo o que isso implicaria. Que desleixo, disse a Michele apontando a mancha de queimado. Então saiu até a calçada, foi ver os leões de pedra no centro da praça e sentiu medo.
Enquanto isso, no bairro, a decisão de ir trabalhar na Piazza dei Martiri a isolou ainda mais do que já estava. Uma jovem que tinha feito um bom casamento e, do nada, passara a ter uma vida confortável, uma garota bonita que podia ser patroa na própria casa, na propriedade do marido, por que agora pulava da cama de manhã cedo e ficava longe de casa o dia todo, no centro, dependendo de outros, complicando a vida de Stefano, da sogra, que agora, por culpa sua, precisava voltar a se cansar na charcutaria nova? Especialmente Pinuccia e Gigliola, cada uma a seu modo, despejaram em cima de Lila toda a lama de que eram capazes, e isso já era previsível. Menos previsível foi que Carmen, que adorava Lila por todo o bem que ela lhe fizera, assim que ela deixou a charcutaria lhe retirou todo seu afeto, como se retira uma mão roçada pelos dentes de um animal. Ela não gostou da brusca passagem de amiga-colaboradora a serva nas garras da mãe de Stefano. Sentiu-se traída, abandonada a seu destino, e não soube controlar o ressentimento. Começou até a discutir com o noivo, Enzo, que não aprovava aquela atitude, balançava a cabeça e, com seu modo lacônico, em duas ou três palavras, mais que defender Lila atribuía a ela uma espécie de intangibilidade, o privilégio de ter razões sempre justas e indiscutíveis.
“Tudo o que eu faço não está bom, tudo o que ela faz está bom”, se queixava Carmen com irritação.
“Quem disse isso?”
“Você: Lina pensa, Lina faz, Lina sabe. E eu? Eu, que ela me deixou aqui e deu no pé? Mas naturalmente ela fez bem em ir embora, e eu faço mal em me lamentar. Não é verdade? Não é assim que você pensa?”
“Não.”
Porém, malgrado o puro e simples monossílabo, Carmen não se convencia e sofria. Intuía que Enzo estava cansado de tudo, inclusive dela, e isso a tornava ainda mais furiosa: desde que o pai dele morrera, desde que voltara do serviço militar, o rapaz fazia o que tinha de fazer, levava a vida de sempre, e no entanto, já durante o período no quartel, começara a estudar à noite para tirar não se sabe que diploma. Agora estava com isso preso na cabeça, rugindo que nem uma fera — por dentro, os rugidos, por fora, o silêncio —, e Carmen não conseguia suportá-lo, mas acima de tudo não podia aceitar que ele só se animasse um pouco quando se falava daquela cretina, e berrava isso a ele, e desandava a chorar, aos gritos:
“Tenho nojo de Lina, ela não está nem aí para ninguém, mas você gosta disso que eu sei. No entanto, se eu me comportasse como ela se comporta, você me quebraria a cara.”
Quanto a Ada, há tempos se alinhara com o seu empregador, Stefano, e contra a esposa que o atormentava, e quando Lila foi embora para o centro trabalhar de vendedora de luxo ela se limitou a ser ainda mais pérfida. Falava mal dela a qualquer um, abertamente, sem papas na língua, mas zombava especialmente de Antonio e de Pasquale. “Ela sempre enganou todos vocês, homens”, dizia, “porque sabe como levá-los no bico, é uma vadia.” Falava exatamente assim, com raiva, como se Antonio e Pasquale fossem os representantes de toda a mediocridade do sexo masculino. Insultava o irmão, que não se alinhava com ela: “Fique calado porque você também recebe dinheiro dos Solara, vocês dois são dependentes da empresa, e eu sei que você se deixa mandar por mulher, ela lhe diz arraste isso, arraste aquilo, e você obedece”. E fazia ainda pior com o namorado, Pasquale, com quem divergia cada vez mais, agredindo-o continuamente: “Você está todo sujo, está fedendo”. Ele se desculpava, tinha acabado de voltar do trabalho, mas Ada continuava a atacá-lo em qualquer ocasião, tanto que Pasquale acabou cedendo em relação a Lila para não ter dor de cabeça, caso contrário teria que terminar o namoro; se bem que — é preciso dizer — não foi só por isso: até aquele momento ele se enfurecera várias vezes tanto com a namorada quanto com a irmã por terem se esquecido de todos os benefícios que tiveram com a ascensão de Lila, mas quando uma manhã viu nossa amiga numa Giulietta com Michele Solara em direção à Piazza dei Martiri, vestida como uma prostituta de luxo, toda pintada, admitiu que não conseguia entender como é que ela, sem ter uma real necessidade econômica, tinha podido se vender àquele sujeito.
Como de costume, Lila não deu a mínima bola à hostilidade que crescia em torno dela e se dedicou a seu novo trabalho. E as vendas logo começaram a subir. A loja se tornou um local aonde se ia para comprar, sim, mas também pelo gosto de conversar com aquela jovem animada, muito bonita, de fala brilhante, que tinha livros entre os sapatos, que lia aqueles livros, que oferecia chocolatinhos misturados a palavras inteligentes e que, sobretudo, não parecia querer vender calçados à esposa ou às filhas do advogado ou do engenheiro, ao jornalista do Mattino, ao jovem ou ao velho gagá que esbanjava tempo e dinheiro no clube, mas apenas acomodá-los no sofá ou nas poltronas para conversar disso e daquilo.
O único estorvo, Michele. Vira e mexe aparecia no horário de trabalho e uma vez lhe disse, com aquele tom sempre irônico, sempre insinuante:
“Você errou de marido, Lina. E eu tinha razão: olha só como você se move bem entre as pessoas que podem vir a nos ser úteis. Eu e você, juntos, em pouco tempo tomaríamos Nápoles e faríamos o que a gente quisesse.”
Naquele ponto tentou beijá-la.
Ela o repeliu, ele não levou a mal. Disse debochado:
“Tudo bem assim, eu sei esperar.”
“Espere onde quiser, mas não aqui dentro”, ela respondeu, “porque, se esperar aqui, eu volto amanhã mesmo para a charcutaria.”
Michele diminuiu suas visitas, ao passo que as visitas secretas de Nino aumentaram. Por meses ele e Lila finalmente tiveram uma vida só deles na loja da Piazza dei Martiri, que durava três horas por dia, exceto domingos e feriados religiosos, um período insuportável. O rapaz entrava pela portinha do banheiro a uma em ponto, assim que a vendedora baixava a porta da loja e ia embora, partindo por aquele mesmo caminho às quatro da tarde, antes que a vendedora voltasse. As raras vezes em que houve algum problema — em duas ocasiões Michele chegou com Gigliola e, numa circunstância particularmente tensa, até Stefano apareceu —, Nino se trancou no banheiro e escapou pela porta que dava para o pátio.
Acho que, para Lila, aquele foi um período tumultuoso de teste em vista de uma existência feliz. De um lado, continuava empenhada em recitar o papel da jovem senhora que dava um toque excêntrico ao comércio de sapatos, de outro, lia para Nino, estudava para Nino, refletia por Nino. E mesmo as pessoas de alguma importância com quem ela acabava se familiarizando na loja lhe pareciam sobretudo relações a serem usadas para ajudar a ele.
Foi naquela fase que Nino publicou no Mattino um artigo sobre Nápoles que lhe deu uma discreta fama nos ambientes universitários. Eu nem fiquei sabendo, e ainda bem: se tivesse me metido na história deles, como tinha acontecido em Ischia, ficaria marcada tão profundamente que nunca mais me recuperaria. De todo modo, eu não demoraria muito para notar que muitas linhas daquele texto — não as mais informadas, mas umas duas intuições que não demandavam grandes competências, apenas um contato fulminante de coisas muitos distantes entre si — eram de Lila, e que pertencia a ela sobretudo a tonalidade dominante da escrita. Nino jamais teria sabido escrever assim, nem seria capaz disso mais tarde. Somente ela e eu sabíamos escrever daquele jeito.
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