História do novo sobrenome
Capítulo 113
Agora Lila está entrincheirada no quarto de Rinuccio, pensando no que fazer. Para a casa da mãe e do pai não volta nunca mais: o peso de sua vida lhe pertence, não quer tornar a ser filha. Com o irmão não pode contar: Rino está fora de si, implica com Pinuccia para se vingar de Stefano e começou a brigar até com a sogra, Maria, porque está desesperado, sem mais um tostão, cheio de dívidas. Conta apenas com Enzo: confiou e confia nele, embora nunca tenha dado as caras; aliás, parece até ter sumido do bairro. Raciocina: ele me prometeu que me tiraria daqui. Mas às vezes acha que não vai manter a promessa, teme que lhe cause problemas. Não se preocupa com um eventual confronto com Stefano, o marido já renunciou a ela, e além disso é covarde, mesmo tendo a força de uma besta feroz. No entanto teme Michele Solara. Não hoje, não amanhã, mas quando nem eu me lembre mais dele, aí aparecerá na minha frente e, se eu não me dobrar, vai me fazer pagar caro, e vai fazer pagar caro quem quer que me tenha ajudado. Por isso é melhor ir embora sem envolver ninguém. Preciso encontrar um trabalho, qualquer um, de modo a ganhar o suficiente para matar a fome do menino e lhe dar um teto.
Só de pensar no filho ela perde as forças. O que foi parar na cabeça de Rinuccio: imagens, palavras. Preocupa-se com as vozes descontroladas que chegaram até ele. Quem sabe se ouviu a minha enquanto o carregava na barriga. Quem sabe como ela ficou gravada em seus nervos. Se sentiu amado, se sentiu rejeitado, notou minha agitação. Como se protege um filho. Alimentando-o. Amando-o. Ensinando-lhe as coisas. Servindo de filtro para cada sensação que possa mutilá-lo para sempre. Perdi seu verdadeiro pai, que não sabe nada sobre ele e nunca o amará. Stefano, que não é o pai e no entanto chegou a amá-lo um pouco, nos vendeu pelo amor de outra mulher e de um filho mais verdadeiro. O que acontecerá com este menino. Rinuccio já sabe que, quando vou para outro cômodo, ele não me perde, continuo a estar aqui. Se sai bem com objetos e fantasmas de objetos, com o fora e com o dentro. Sabe comer sozinho com a colherinha e o garfo. Manipula coisas e formas, transforma-as. Da palavra passou para a frase. Em italiano. Não diz mais ele, diz eu. Reconhece as letras do alfabeto e as compõe de modo a escrever o nome. Ama as cores. É alegre. Mas toda essa fúria. Me viu ser insultada e espancada. Me viu quebrar coisas e ofender. Em dialeto. Não posso mais ficar aqui.
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