História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 57 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 56

 

O relato foi detalhado. Exausta depois da longa nadada, mas satisfeita por ter mostrado toda sua habilidade, ela se apoiara nele para manter-se na superfície com menos esforço. Mas Nino se aproveitara da proximidade e pressionara seus lábios com força nos seus. Ela fechara imediatamente a boca e, embora ele tivesse tentado abri-la com a ponta da língua, não cedera. “Você é maluco”, dissera a ele enquanto o afastava, “eu sou casada”. Mas Nino lhe respondera: “Eu te amo muito antes de seu marido, desde que fizemos aquela competição na escola”. Lila disse a ele que nunca mais tentasse fazer aquilo, e ambos voltaram nadando para a praia. “Ele machucou meus lábios de tanto que apertava”, concluiu, “e ainda está doendo.”

Esperava que eu reagisse, mas consegui não fazer perguntas ou comentários. Quando me recomendou que não subisse a montanha com ele, a menos que Bruno também os acompanhasse, respondi com frieza que, se Nino também me beijasse, não veria nada de mal nisso, já que eu não era casada nem tinha namorado. “Pena”, acrescentei, “que ele não me agrada: um beijo dele seria como pôr a boca num rato morto.” Naquela altura fingi não conter um bocejo e ela, após um olhar que me pareceu de afeto e de admiração, foi dormir. Desde que saiu do quarto, até o amanhecer, não fiz outra coisa senão chorar.

Hoje sinto certo mal-estar ao relembrar quanto sofri, não tenho nenhuma empatia por quem eu era naquela época. Mas durante toda aquela noite me pareceu que eu não tinha mais motivos para viver. Por que Nino se comportava daquele modo? Beijava Nadia, beijava a mim, beijava Lila. Como podia ser a mesma pessoa que eu amava, tão séria, tão cheia de ideias? As horas passaram, mas não pude aceitar que ele fosse tão profundo ao tratar dos grandes problemas do mundo quanto superficial nos sentimentos amorosos. Comecei a questionar a mim mesma, eu me enganara, me iludira. Será possível que eu, baixinha, muito cheia, de óculos, eu, diligente mas não inteligente, eu, que me fingia de culta e de informada quando não era, pudesse pensar que ele gostaria de mim nem que fosse apenas por umas férias? De resto, eu realmente pensara nisso? Examinei acuradamente meu comportamento. Não, eu não era capaz de me confessar com clareza meus próprios desejos. Não só tinha o cuidado de escondê-los dos outros, mas também os manifestava a mim de modo cético, sem convicção. Por que eu nunca tinha dito a Lila com clareza o que eu sentia por Nino? E agora, por que não lhe gritara a dor que me tinha causado com aquela confidência em plena noite, por que não lhe revelara que, antes mesmo de beijá-la, Nino tinha me beijado? O que me levava a agir assim? Mantinha meus sentimentos em surdina porque me assustava a violência com que, ao contrário, em meu íntimo eu queria coisas, pessoas, elogios, vitórias? Temia que, caso não conseguisse obter o que queria, aquela violência explodiria em meu peito tomando o rumo dos piores sentimentos, por exemplo, aquele que me levara a comparar a bela boca de Nino à carne de um rato morto? Então era por isso que, mesmo quando me dispunha a avançar, estava sempre pronta a dar um passo atrás? Era por isso que eu sempre tinha pronto um sorriso gracioso, uma risada contente, mesmo quando as coisas iam mal? Por isso que, mais cedo ou mais tarde, eu acabava achando justificativas plausíveis para quem me fazia sofrer?

Perguntas e lágrimas. Já era dia quando tive a impressão de entender o que havia acontecido. Nino tinha acreditado sinceramente que amava Nadia. Com certeza, motivado por minha boa fama com a professora Galiani, me observara por anos com simpatia e estima sincera. Mas agora, em Ischia, encontrara Lila e se dera conta de que ela tinha sido desde a infância — e seria sempre no futuro — seu único e verdadeiro amor. Ah, sim, com certeza as coisas se passaram desse modo. E como censurá-lo? Onde estava a culpa? Havia na história deles algo de intenso, de sublime, afinidades eletivas. Evoquei versos e romances como tranquilizantes. Talvez, pensei, ter estudado me sirva apenas para isso: para me acalmar. Ela acendera uma chama eu seu peito, ele por anos a custodiara sem se dar conta: agora que aquela chama se libertara, o que ele podia fazer senão amá-la? Ainda que ela não o amasse. Ainda que ela fosse casada e, portanto, inacessível, interditada: um casamento dura para sempre, para além da morte. A menos que seja rompido, condenando-se à tempestade infernal até o dia do Juízo. Quando a alvorada despontou, tive a impressão de ver claro. O amor de Nino por Lila era um amor impossível. Assim como o meu por ele. E somente nesse quadro de irrealização o beijo que ele lhe dera no mar começou a me parecer nomeável.

O beijo.

Não tinha sido uma escolha, simplesmente acontecera: tanto mais porque Lila sabia fazer as coisas acontecerem. Já eu, não: o que vou fazer agora? Vou ao encontro. Subiremos o Epomeu. Ou não. Vou embora esta noite com Stefano e Rino. Vou falar que minha mãe me escreveu dizendo que precisa de mim. Como posso subir a montanha com ele sabendo que ama Lila, que a beijou? E como vou conseguir vê-los juntos todos os dias, enquanto nadam cada vez mais longe? Estava exausta, voltei a dormir. Quando acordei em sobressalto, o esquema que me ocorrera de fato havia domesticado um pouco minha dor. Corri para o encontro.

 

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