História do novo sobrenome
Capítulo 98
Por amor ao pequeno Gennaro, Lila voltou a sair de casa. Colocava o menino todo vestido de azul ou de branco no carrinho desconfortável e monumental que o irmão lhe dera de presente, gastando os olhos da cara, e passeava sozinha com ele pelo bairro novo. Assim que Rinuccio chorava, ela ia até a charcutaria e o amamentava entre a comoção da sogra, os cumprimentos enternecidos das clientes e a irritação de Carmen, que trabalhava de cabeça baixa sem dizer palavra. Lila alimentava o menino assim que ele se queixava. Gostava muito de senti-lo agarrado a si, de perceber o leite que escorria dela para ele esvaziando agradavelmente seu seio. Era o único laço que lhe dava bem-estar, e confessava em seus cadernos que temia o momento em que o menino se afastaria dela.
Quando os dias bonitos começaram, já que no bairro novo só havia ruas calcinadas e um ou outro arbusto ou arvorezinha mirrada, ela começou a ir até os jardinzinhos em frente à igreja. Todo mundo que passava por ali parava para apreciar e elogiar o menino, fazendo a felicidade da mãe. Se precisava trocá-lo, ia até a charcutaria antiga, onde, assim que entrava, as clientes faziam muitos mimos a Gennaro. Já Ada, com seu avental limpíssimo, batom nos lábios finos, o rosto pálido, os cabelos arrumados, os modos imperativos até em relação a Stefano, se comportava cada vez mais abertamente como criada-proprietária e, ocupada como andava, fazia de tudo para que se notasse que ela, o carrinho e o bebê eram um estorvo. Mas Lila fazia pouco caso. Ficava mais perturbada com a indiferença escorbútica do marido, na intimidade distraído, mas não hostil ao menino, e em público, diante das clientes que imitavam vozes infantis cheias de ternura e o queriam pegar no colo ou beijar, nem sequer olhava para ele, aliás, ostentava desinteresse. Lila ia para o fundo da loja, lavava Gennaro, vestia-o depressa e voltava para os jardins. Ali examinava o filho enternecida, procurando em seu rostinho os sinais de Nino e se perguntando se o que ela não conseguia ver estaria sendo vislumbrado por Stefano.
Mas logo não pensava mais nisso. Em geral os dias passavam por ela sem lhe causar nenhuma emoção. Cuidava sobretudo do filho, a leitura de um livro durava semanas, duas ou três páginas ao dia. Nos jardinzinhos, se o pequeno dormia, de vez em quando ela se deixava distrair pelos ramos das árvores que germinavam brotos novos e escrevia algo em seu caderno surrado.
Uma vez se deu conta de que a poucos passos, ali na igreja, havia um funeral, e foi espiar com o menino: descobriu que era o funeral da mãe de Enzo. Viu que estava palidíssimo, empertigado, mas não foi dar condolências. Uma outra vez em que estava sentada num banco com o carrinho ao lado, inclinada sobre um grosso volume de capa verde, parou diante dela uma velha magérrima apoiada numa bengala, as faces que pareciam chupadas até a garganta pela própria respiração.
“Adivinhe quem sou.”
Lila teve dificuldade de reconhecê-la, mas por fim os olhos da mulher lhe recordaram num lampejo a imponente professora Oliviero. Pôs-se de pé emocionada, fez que ia abraçá-la, mas ela se retraiu incomodada. Então Lila lhe mostrou o menino, disse com orgulho: “Se chama Gennaro”, e, como todos elogiavam o filho, esperou que a professora também o fizesse. Mas Oliviero ignorou totalmente o pequeno e pareceu interessada apenas no pesado livro que sua ex-aluna segurava na mão, um dedo entre as páginas para marcar o local.
“O que é?”
Lila ficou nervosa. A professora tinha mudado no aspecto, na voz, em tudo, exceto nos olhos e no tom brusco, o mesmo de quando lhe dirigia uma pergunta da cátedra. Então ela também se mostrou pouco mudada e respondeu entre indolente e agressiva:
“O título é Ulisses.”
“Fala da Odisseia?”
“Não, fala de como a vida de hoje é terra a terra.”
“E o que mais?”
“Nada. Diz que nossa cabeça está cheia de tolices. Que somos carne, sangue e ossos. Que uma pessoa vale tanto quanto outra. Que só queremos comer, beber e foder.”
Diante daquela última palavra, a professora a censurou como na escola, e Lila reagiu debochada, riu, de modo que a velha ficou ainda mais sisuda e lhe perguntou como era o livro. Ela respondeu que era difícil e que não entendia tudo.
“Então por que lê?”
“Porque alguém que eu conheci o estava lendo. Mas ele não gostava.”
“E você?”
“Eu, sim.”
“Mesmo sendo difícil?”
“Sim.”
“Não leia livros que não consegue entender, isso lhe faz mal.”
“Há tantas coisas que fazem mal.”
“Você não está contente?”
“Assim, assim.”
“Você era destinada a grandes coisas.”
“E eu as fiz: me casei e tive um filho.”
“Disso todos são capazes.”
“Eu sou como todos.”
“Você se engana.”
“Não, a senhora é que se engana, sempre se enganou.”
“Você era mal-educada na infância e é mal-educada agora.”
“Vê-se que comigo a senhora não acertou.”
Oliviero a olhou com atenção, e Lila leu em seu rosto o pavor do erro. A professora estava tentando reencontrar em seus olhos a inteligência que vira quando era menina, queria a confirmação de que não tinha errado. Ela pensou: devo apagar imediatamente do rosto qualquer sinal que lhe dê razão, não quero que me faça uma ladainha pelo meu desperdício. Mas enquanto isso se sentiu exposta a um enésimo exame e, contraditoriamente, temeu pelo resultado. Está descobrindo que sou estúpida, disse a si com o coração batendo cada vez mais forte, está descobrindo que toda minha família é estúpida, que são estúpidos meus antepassados e que serão estúpidos meus descendentes, que Gennaro será estúpido. Ficou despeitada, pôs o livro na bolsa, empunhou a alça do carrinho e murmurou nervosa que precisava ir. Velha maluca, achava que ainda podia lhe bater com a régua. Deixou a professora nos jardins, miúda, agarrada à empunhadura da bengala, devorada por um mal a que não queria ceder.
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