História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 10 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 9

Ela ainda estava naquele estado quando, ali, nas escadas que levavam à casa da sogra, tirei seus óculos e afastei sua echarpe. A pele em volta do olho tinha uma cor amarelada, e o lábio inferior era uma mancha roxa com estrias de um vermelho vivo.

A parentes e amigos, dizia que tinha caído nos recifes de Amalfi numa bela manhã de sol, quando ela e o marido tinham ido de barco até uma praia bem embaixo de um paredão amarelo. Durante o almoço de noivado de seu irmão e Pinuccia, ao contar aquela mentira, ela tinha adotado um tom irônico, e todos acreditaram nela com ironia, especialmente as mulheres, que sabiam desde sempre o que se devia dizer quando os homens que as amavam e que elas amavam lhes davam uma coça de jeito. Além disso, não havia pessoa no bairro, especialmente do sexo feminino, que não achasse que ela estava precisando há tempos de uma bela sova. Por isso as bordoadas não tinham causado escândalo, ao contrário, só cresceram o respeito e a simpatia em torno de Stefano, aí estava um cara que sabia agir como homem.

Quanto a mim, ao vê-la tão maltratada, meu coração subiu à garganta e a abracei. Quando disse que não me procurara porque não queria que a visse naquele estado, meus olhos se encheram de lágrimas. O relato de sua lua de mel, como se dizia nas fotonovelas, embora lacônico, quase gélido, me causou raiva e sofrimento. No entanto, devo admitir, também experimentei um prazer sutil. Fiquei contente ao descobrir que Lila agora precisava de ajuda, talvez até de proteção, e me emocionou aquela admissão de fragilidade não em relação ao bairro, mas a mim. Senti que inesperadamente as distâncias tinham voltado a se encurtar e estive a ponto de lhe dizer ali mesmo que eu decidira parar de estudar, que estudar era inútil, que eu não tinha as qualidades para isso. Achei que aquela notícia lhe daria algum conforto.

Mas a sogra apareceu no parapeito do último andar e a chamou. Lila encerrou a história com poucas frases apressadas, disse que Stefano a enganara, que era idêntico ao pai.

“Lembra que em vez das bonecas dom Achille nos deu dinheiro?”, me perguntou.

“Lembro.”

“Não devíamos ter aceitado.”

“Compramos Mulherzinhas.”

“Fizemos mal: a partir daquele momento, sempre errei em tudo.”

Não estava agitada, estava triste. Recolocou os óculos, reajustou a echarpe. Senti prazer com aquele nós (nós não devíamos ter aceitado, nós fizemos mal), mas a brusca passagem ao eu me irritou: eu sempre errei em tudo. Nós, me veio o desejo de corrigi-la, sempre nós, mas não o fiz. Pareceu-me que ela estivesse tentando compreender sua nova condição, que tivesse urgência de entender a que poderia agarrar-se para enfrentá-la. Antes de subir as escadas, me perguntou:

“Quer vir estudar lá em casa?”

“Quando?”

“Hoje à tarde, amanhã, todos os dias.”

“Stefano não vai gostar.”

“Se ele é o dono, eu sou a mulher do dono.”

“Não sei, Lila.”

“Eu lhe dou um quarto, você se fecha lá dentro.”

“Mas para quê?”

Ela encolheu os ombros.

“Para saber que você está lá.”

Não lhe disse nem sim, nem não. Fui embora, passeei pela cidade como sempre. Lila estava certa de que eu nunca deixaria os estudos. Me atribuíra aquela figura da amiga de óculos cheia de espinhas, sempre debruçada nos livros, excelente na escola, e não podia sequer imaginar que eu pudesse mudar. Mas eu queria sair daquele papel. Tinha a impressão de ter compreendido, graças à humilhação do artigo não publicado, toda a minha inadequação. Mesmo tendo nascido e crescido como eu e Lila no perímetro miserável do bairro, Nino sabia fazer uso dos estudos com inteligência — eu, não. Portanto chega de ilusões, chega de cansaço. Era preciso aceitar a sorte, assim como há tempos tinham feito Carmela, Ada, Gigliola e, a seu modo, a própria Lila. Não fui à casa dela nem naquela tarde, nem nos dias seguintes, e continuei cabulando a escola, me atormentando.

Certa manhã não me afastei muito do liceu e fiquei vagando pela Veterinária, atrás do Jardim Botânico. Pensei nas conversas que tivera com Antonio recentemente: ele esperava escapar do serviço militar sendo filho de mãe viúva, único arrimo da família; queria pedir um aumento na oficina e fazer uma poupança até conseguir arrendar a bomba de gasolina do estradão; depois nos casaríamos e eu lhe daria uma mão no serviço. Uma escolha de vida simples, minha mãe teria aprovado. “Não posso fazer sempre as vontades de Lila”, disse a mim mesma. Mas como era difícil tirar da cabeça as ambições induzidas pelo estudo. No horário em que as aulas terminavam, quase sem querer, fui para as bandas do colégio e fiquei perambulando em torno dele. Temia ser vista pelos professores e no entanto, notei, desejava que eles me vissem. Queria ser marcada de modo irremediável como estudante não mais modelo; ou ser recapturada pelo tempo escolar, me dobrar ao dever de recomeçar.

Apareceram os primeiros grupos de estudantes. Senti alguém me chamar, era Alfonso. Estava esperando Marisa, que se atrasara.

“Vocês estão juntos?”, perguntei debochada.

“Não, ela é que meteu isso na cabeça.”

“Mentiroso.”

“Mentirosa é você, que me fez acreditar que estava doente, e olha aí: está ótima. Galiani sempre pergunta por você, eu disse a ela que você estava com uma febre terrível.”

“E de fato estou.”

“Claro, está se vendo.”

Levava debaixo do braço os livros atados com um elástico, tinha o rosto cansado pela tensão das horas de aula. Será que Alfonso também escondia no peito dom Achille, seu pai, apesar do jeito delicado? Será possível que os pais não morram nunca, que todo filho os carregue dentro de si inevitavelmente? Então de dentro de mim realmente brotaria minha mãe, seu andar trôpego, como um destino?

Perguntei a ele:

“Viu o que seu irmão fez com Lina?”

Alfonso se embaraçou.

“Vi.”

“E você não diz nada a ele?”

“É preciso saber o que Lina fez com ele.”

“Você seria capaz de se comportar da mesma maneira com Marisa?”

Esboçou um risinho tímido.

“Não.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

“Por quê?”

“Porque conheço você, porque conversamos, porque vamos à escola juntos.”

No momento não entendi: o que significava conheço você, conversamos, vamos à escola juntos? Avistei Marisa ao fundo da rua, correndo porque estava atrasada.

“Sua namorada está chegando.”

Ele não se virou, deu de ombros, murmurou:

“Volte para a escola, por favor.”

“Estou mal”, insisti, e me afastei.

Não queria nem mesmo trocar um cumprimento com a irmã de Nino, qualquer sinal que o evocasse me dava ânsia. Mas me fizeram bem as palavras nebulosas de Alfonso, fiquei revirando-as na cabeça pela rua. Ele tinha dito que nunca imporia sua autoridade a uma eventual esposa na base da porrada porque me conhecia, porque conversávamos, nos sentávamos no mesmo banco escolar. Expressara-se com uma sinceridade indefesa, sem o temor de me atribuir, ainda que de modo confuso, a capacidade de influir sobre ele, um homem, modificando seu comportamento. Fiquei agradecida a ele por aquela mensagem truncada, que me consolou e articulou em mim uma mediação interna. Uma convicção já frágil precisa de pouco para enfraquecer-se até ceder. No dia seguinte falsifiquei a assinatura de minha mãe e voltei ao colégio. À noite, nos pântanos, prometi a Antonio agarrada a ele para me proteger do frio: termino o ano letivo e nos casamos.

 

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