História do novo sobrenome
Capítulo 25
A dona da papelaria não se mostrou particularmente espantada com a ferida de Linda, mas, quando lhe perguntei se eu deveria passar no dia seguinte para pegar as meninas no horário de sempre, ela me respondeu que as filhas já tinham tomado muito banho de mar naquele verão, e eu não era mais necessária.
Não disse a Lila que eu tinha perdido o emprego. Por sua vez, ela nunca me perguntou como as coisas tinham ido, nem se informou sobre Linda e seu pequeno corte. Quando a revi, estava completamente empenhada na inauguração da nova charcutaria e me deu a impressão daqueles atletas que, quando treinam, pulam corda em ritmo cada vez mais frenético.
Arrastou-me para uma gráfica onde encomendara uma grande quantidade de folhetos que anunciavam a inauguração da nova loja. Quis que eu fosse até o padre marcar a hora em que ele passaria para abençoar o local e as mercadorias. Anunciou que contrataria Carmela Peluso com um salário bem mais alto do que o que recebia da dona da papelaria. Mas acima de tudo me disse que estava travando em todas as frentes, todas, uma guerra duríssima com o marido, Pinuccia, a sogra, o irmão Rino. Porém, não me pareceu particularmente agressiva. Exprimia-se em voz baixa, sempre em dialeto, enquanto fazia mil outras coisas que pareciam mais importantes do que aquilo que estava dizendo. Listou os erros que parentes novos e de sangue cometeram e estavam cometendo contra ela. “Eles acalmaram Michele”, disse, “assim como acalmaram Marcello. Apenas se serviram de mim, para eles eu não sou uma pessoa, só uma coisa. Vamos dar Lina a eles, vamos pendurá-la numa parede, ela é um zero, um zero à esquerda”. Enquanto falava, os olhos ágeis brilhavam dentro de olheiras roxas, a pele estava esticada sobre as maçãs do rosto, exibia os dentes em rápidos, breves sorrisos nervosos. Mas não me convenceu. Tive a impressão de que, por trás do ativismo aguerrido, havia uma pessoa extenuada, em busca de alguma saída.
“Qual é sua intenção?”, perguntei.
“Nenhuma. Só sei que vão ter de me matar para fazer o que querem fazer com minha fotografia.”
“Deixe para lá, Lila. No fim das contas, é uma coisa bonita, pense bem: somente as atrizes aparecem em grandes cartazes.”
“E eu por acaso sou uma atriz?”
“Não.”
“E então? Se meu marido resolveu se vender aos Solara, você acha que ele pode me vender também?”
Tentei acalmá-la, tinha medo de que Stefano perdesse a paciência e batesse nela. Manifestei meu receio, e ela começou a rir: desde que estava grávida, o marido não ousava mais lhe dar nem um tapa. No entanto, justamente quando pronunciou aquela frase, tive a suspeita de que a foto era uma desculpa, que na verdade ela queria exasperar todo mundo, ser massacrada por Stefano, por Rino, provocá-los a ponto de que a ajudassem, com as porradas, a esmagar o sofrimento, a dor, a coisa viva que trazia na barriga.
Minha hipótese se consolidou na tarde em que a charcutaria foi inaugurada. Ela se vestiu do modo mais desleixado possível. Tratou o marido diante de todos como um criado. Mandou embora o padre que ela mesma me fizera convidar, sem nem o deixar benzer a loja, mas metendo-lhe nas mãos um punhado de dinheiro, com desprezo. Passou a fatiar presunto e a enfiá-lo nos pães, distribuindo-os de graça a qualquer um, com um copo de vinho. Esse último detalhe teve um tal sucesso que a charcutaria logo ficou lotada, ela e Carmela foram tomadas de assalto, e Stefano, que estava muito elegante, precisou ajudá-las assim, sem avental, engordurando-se todo, a enfrentar a situação.
Quando voltaram exaustos para casa, o marido fez um escarcéu, e Lila tentou de tudo para provocar sua fúria. Gritou que, se ele queria uma mulher que lhe obedecesse e ponto final, fizera uma péssima escolha, ela não era nem a mãe nem a irmã dele, seria sempre um osso duro de roer. E recomeçou com os Solara, com a história da foto, insultando-o pesadamente. De início ele a deixou falar, depois respondeu com insultos ainda mais pesados. Mas não bateu nela. Quando no dia seguinte ela me contou o que acontecera, eu lhe disse que, mesmo tendo seus defeitos, Stefano sem dúvida a amava. Ela negou. “Aquele só entende disso”, rebateu, esfregando o polegar no indicador. De fato, a charcutaria já fazia sucesso em todo o bairro novo, enchendo-se de clientes desde o começo da manhã. “A gaveta do caixa já está abarrotada. Por mérito meu. Eu dou riqueza a ele, um filho, o que mais ele quer?”.
“O que mais você quer?”, perguntei com uma ponta de raiva que me espantou, tanto que logo sorri para ela, esperando que não tivesse percebido.
Lembro que fez uma expressão desorientada, tocou a testa com os dedos. Talvez nem ela mesma soubesse o que queria, só sentia que não era capaz de encontrar a paz.
Às vésperas da outra inauguração, a da loja da Piazza dei Martiri, ela ficou insuportável. Mas talvez o adjetivo seja exagerado. Digamos que ela despejava em todos nós, inclusive em mim, a confusão que sentia dentro de si. De um lado, tornava a vida de Stefano um inferno, se pegava com a sogra e a cunhada, ia até Rino e brigava com ele diante dos operários e de Fernando, que trabalhava mais encurvado que nunca sobre sua bancada, fazendo de conta que não escutava; de outro, ela mesma percebia que se enroscava em seu descontentamento sem consolo, e às vezes eu a flagrava na charcutaria do bairro novo, nos raros momentos em que estava vazia ou não tinha que tratar com fornecedores, com um ar absorto, uma mão na fronte, entre os cabelos, como para estancar uma ferida, a expressão de quem está tentando recuperar o fôlego.
Numa tarde eu estava em casa, ainda fazia muito calor, embora já fosse final de setembro. As aulas estavam para recomeçar, eu me sentia à mercê dos dias. Minha mãe me jogava na cara que eu passava o tempo sem fazer nada. Nino sabe-se lá onde estava, na Inglaterra ou naquele espaço misterioso que era a universidade. Não tinha mais Antonio, nem a esperança de voltar com ele, que partira com Enzo Scanno para o serviço militar e se despedira de todos, menos de mim. Ouvi que me chamavam da rua, era Lila. Estava com os olhos brilhando como de febre, disse que tinha achado uma solução.
“Que solução?”
“A fotografia. Se querem expor meu retrato, têm de fazer do jeito que eu disser.”
“E como vai ser?”
Não me disse, talvez naquele momento nem ela tivesse clareza sobre o que queria. Mas eu a conhecia bem e percebi em seu rosto a expressão que assumia quando, de seu fundo escuro, chegava um sinal que lhe incendiava o cérebro. Me pediu que a acompanhasse naquela noite à Piazza dei Martiri. Ali encontraríamos os Solara, Gigliola, Pinuccia, o irmão dela. Queria que a ajudasse, que a apoiasse, e compreendi que tinha em mente algo capaz de catapultá-la além de sua guerra contínua: um desabafo violento mas definitivo pela quantidade de tensões que acumulara, ou simplesmente um modo de livrar o pensamento e o corpo de energias represadas.
“Tudo bem”, respondi, “mas prometa que não vai dar uma de maluca.”
“Prometo.”
Depois que as lojas fecharam, ela e Stefano passaram de carro para me buscar. Pelas poucas palavras que trocaram, entendi que nem o marido sabia o que se passava pela cabeça dela e que agora minha presença, em vez de acalmá-lo, o alarmava. Lila finalmente se mostrara prestativa. Tinha dito ao marido que, se de fato estava excluída a possibilidade de não usar a foto, queria ao menos opinar sobre como deveria ser exposta.
“Uma questão de moldura, de parede, de iluminação?”, perguntou ele.
“Preciso ver.”
“Mas depois chega, Lina.”
“Sim, chega.”
Era uma bela noite tépida, a loja expandia pela praça as luzes luxuosas que brilhavam em seu interior. Mesmo à distância se via a imagem gigantesca de Lila vestida de noiva, apoiada na parede central. Stefano estacionou, entramos nos esgueirando entre caixas de sapatos ainda amontoadas de qualquer jeito, latas de tinta, escadas. Marcello, Rino, Gigliola e Pinuccia estavam visivelmente contrariados: por razões diversas, não queriam submeter-se pela enésima vez aos caprichos de Lila. O único que nos acolheu com irônica cordialidade foi Michele, que se dirigiu à minha amiga sorrindo:
“Bela senhora, poderia nos dizer de uma vez por todas o que tem em mente ou só quer arruinar nossa noite?”
Lila olhou o painel apoiado na parede e pediu que o deitassem no pavimento. Marcello disse cautelosamente, com a timidez reservada que sempre manifestava diante de Lila:
“Para fazer o quê?”
“Vou mostrar a vocês.”
Rino interveio:
“Não banque a cretina, Lina. Você sabe quanto nos custou isso aí? Se estragar o troço, ai de você.”
Os dois Solara deitaram a imagem no piso. Lila olhou ao redor com a testa franzida, os olhos em fenda. Procurava alguma coisa que sabia estar ali, que talvez ela mesma tivesse mandado comprar. Localizou em um canto um rolo de cartolina preta, pegou uma grande tesoura e uma caixa de tachinhas de uma prateleira. Em seguida, com aquela expressão de extrema concentração com que costumava se isolar de tudo à sua volta, retornou ao painel. Sob nossos olhos perplexos, em alguns casos ostensivamente hostis, com a precisão das mãos que sempre tivera, cortou listras de cartolina preta e as fixou aqui e ali sobre a foto, pedindo minha ajuda com gestos discretos ou simples olhares.
Colaborei com aquela adesão crescente que eu bem conhecia desde que éramos pequenas. Como eram exaltantes aqueles momentos, como eu gostava de estar ao lado dela, deslizando dentro de suas intenções, chegando a antecipá-las. Senti que ela estava vendo algo que não havia e que estava fazendo de tudo para que nós também víssemos. Logo me senti contente e notei a plenitude que a tomava e que lhe escorria dos dedos enquanto manejava a tesoura, enquanto fixava com as tachinhas a cartolina preta.
No final, como se estivesse sozinha naquele espaço, ela mesma tentou erguer a tela, mas não conseguiu. Marcello interveio prontamente, eu também, e a apoiamos na parede. Depois recuamos todos para a soleira, uns rindo, outros enfezados, alguns estarrecidos. O corpo da imagem de Lila vestida de noiva surgia cruelmente retalhado. Grande parte da cabeça havia desaparecido, assim como a barriga. Restavam um olho, a mão sobre a qual apoiava o queixo, a mancha resplandecente da boca, faixas diagonais do busto, a linha das pernas cruzadas, os sapatos.
Mal contendo a raiva, Gigliola começou:
“Eu não posso colocar uma coisa dessas na minha loja.”
“Estou de acordo”, explodiu Pinuccia, “nós aqui precisamos vender, e esse mondrongo vai espantar os clientes. Rino, diga alguma coisa à sua irmã, por favor.”
Rino fingiu ignorá-la, mas se dirigiu a Stefano como se a culpa pelo que estava acontecendo fosse do cunhado:
“Eu lhe disse que não dá para discutir com essa aí. Ela deve dizer apenas sim, não e só; se não, está vendo o que acontece? É pura perda de tempo.”
Stefano não respondeu, fixava o painel apoiado na parede e era evidente que estava buscando uma escapatória. Então me perguntou:
“O que você acha, Lenu?”
Respondi em italiano:
“Eu acho lindo. É claro que eu não o colocaria no bairro, não é o ambiente adequado. Mas aqui é outra coisa, vai atrair a atenção, vai agradar. Justamente na semana passada vi em Confidenze que na casa de Rossano Brazzi havia um quadro desse tipo.”
Ao ouvir isso, Gigliola ficou ainda mais furiosa.
“O que você quer dizer? Que Rossano Brazzi sabe de tudo, que vocês duas sabem de tudo, e eu e Pinuccia não?”
Naquele ponto percebi o perigo. Apenas olhei para Lila e me dei conta de que se, quando tínhamos chegado à loja, ela realmente se sentia disposta a ceder caso sua tentativa resultasse em nada, agora que a tentativa fora feita e produzira aquela imagem de massacre, ela não cederia nem um milímetro. Senti que os minutos em que trabalhara na foto tinham rompido laços: naquele momento ela estava arrebatada por um senso exorbitante de si e precisava de tempo para retrair-se à dimensão da esposa do salsicheiro, não aceitaria sequer um suspiro de dissenso. Aliás, enquanto Gigliola falava, ela já vociferava: ou assim ou nada feito, e queria brigar, queria romper, arrebentar, e teria de bom grado se lançado contra ela com a tesoura.
Torci por uma intervenção solidária de Marcello. Mas Marcello permaneceu calado, cabisbaixo, e notei que todo resto de sentimento em relação a Lila estava se esvaindo naquele momento, ele já não conseguia acompanhá-la com sua antiga, deprimida paixão. Foi Michele quem interveio espicaçando Gigliola, a noiva, com sua voz mais agressiva: “Fique calada”, disse. E assim que a outra tentou protestar, ele impôs ameaçador, sem sequer olhar para ela, ao contrário, fixando o painel: “Calada, Giglió”. Então se dirigiu a Lila:
“Eu gostei, madame. Você se apagou de propósito, e entendi por que: para destacar bem a coxa, para mostrar como fica bem uma coxa de mulher com esses sapatos. Excelente. Você é uma chata, mas, quando faz uma coisa, faz com perfeição.”
Silêncio.
Gigliola enxugou com a ponta dos dedos umas lágrimas silenciosas, que não conseguiu conter. Pinuccia fixou o irmão como se quisesse dizer: falem alguma coisa, me defendam, não me deixem meter a mão na cara dessa idiota. Já Stefano murmurou, dócil:
“Sim, eu também gostei.”
E Lila disse imediatamente:
“Não está pronto”.
“E o que você ainda quer fazer?”, atacou Pinuccia.
“Preciso pôr um pouco de cor.”
“Cor?”, murmurou Marcello, cada vez mais desorientado. “Precisamos abrir daqui a três dias.”
Michele riu:
“Se tivermos que esperar um pouco mais, esperamos. Comece a trabalhar, madame, faça o que achar melhor.”
Aquele tom patronal, de quem faz e desfaz a seu bel-prazer, não agradou a Stefano.
“Temos a charcutaria nova”, disse, dando a entender que a esposa era necessária lá.
“Arranje-se”, respondeu Michele, “temos coisas mais interessantes a fazer aqui.”
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