História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 98 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 97

Naquele período sonhei frequentemente com Lila. Uma vez ela estava na cama com uma camisola toda rendada, de cor verde, com tranças que na realidade ela nunca fizera, carregando nos braços uma menina vestida de rosa e falando continuamente com voz sofrida: “Façam uma foto, mas só de mim, da menina não”. Noutra vez, me recebia alegre e depois chamava a filha, que tinha meu nome. “Lenu”, ela dizia, “venha cumprimentar a tia.” Mas então aparecia uma gorda gigantesca, muito mais velha que nós, e Lila me obrigava a despi-la, lavá-la, trocar a fralda e os panos. Ao despertar, tentei buscar um telefone e ligar para Alfonso para saber se o menino tinha nascido bem, se ela estava contente. Mas ou tinha que estudar, ou tinha provas, e acabava me esquecendo. Quando em agosto me livrei de ambas as incumbências, ocorreu que não voltei para casa. Escrevi umas mentiras a meus pais e fui com Franco a Versilia, onde a família dele tinha um apartamento. Pela primeira vez pus um biquíni: cabia todo na palma da mão, e me senti ousada.

Foi no Natal que soube por Carmen como o parto de Lila tinha sido difícil.

“Ela quase morreu”, disse, “tanto é que, no final, o médico teve que abrir a barriga, se não o menino não nascia.”

“Ela teve um menino?”

“Sim.”

“E está bem?”

“Ele é lindo.”

“E ela?”

“Está mais larga.”

Soube que Stefano queria dar ao filho o nome do pai, Achille, mas Lila se opusera, e os gritos entre marido e mulher, que não se ouviam há tempos, ecoaram por toda a clínica, a ponto de as enfermeiras os repreenderem. Por fim o menino recebeu o nome de Gennaro, isto é, Rino, como o irmão de Lila.

Escutei sem dizer uma palavra. Me sentia triste e, para enfrentar a tristeza, me impus uma atitude distante. Carmen fez questão de notar:

“Eu falo, falo, e você não diz uma palavra, me faz sentir como um telejornal. Está se lixando para nós?”

“Claro que não.”

“Você ficou bonita, mudou até a voz.”

“Eu tinha uma voz feia?”

“Tinha a mesma voz que a gente.”

“E agora?”

“Agora menos.”

Fiquei no bairro dez dias, de 24 de dezembro de 1964 a 3 de janeiro de 1965, mas não fui fazer nenhuma visita a Lila. Não queria ver o filho, tinha medo de reconhecer na boca, no nariz, no desenho dos olhos e das orelhas alguma coisa de Nino.

Em minha casa agora me tratavam como se eu fosse uma pessoa de respeito, que se dignara a passar para uma visita apressada. Meu pai me observava satisfeito. Sentia seu olhar de contentamento em mim, mas, se lhe dirigia a palavra, ele se embaraçava. Não me perguntava o que eu estudava, para que servia, que trabalho eu faria em seguida, e não porque não desejasse saber, mas por medo de não compreender minhas respostas. Já minha mãe se movia raivosa pela casa, e eu, ao ouvir seu passo inconfundível, pensava em quanto temera me tornar como ela. Mas — ainda bem — eu tinha me distanciado muito, e ela sentia, me queria ali. Mesmo agora, quando falava comigo, é como se eu fosse culpada por coisas ruins: em cada circunstância eu percebia em sua voz uma nuance de reprovação, mas, diferente do que ocorria no passado, não quis que eu pusesse os pratos, que tirasse a mesa, que lavasse o chão. Também houve um certo incômodo com meus irmãos. Eles se esforçavam para falar italiano comigo e muitas vezes corrigiam seus próprios erros, envergonhados. Mas com eles eu tentava mostrar que era a mesma de sempre, e aos pouquinhos se convenceram.

À noite eu não sabia como passar o tempo, os amigos de antigamente não formavam mais um grupo. Pasquale estava em péssimas relações com Antonio e o evitava de todas as maneiras. Antonio não queria encontrar ninguém, em parte porque não tinha tempo (era continuamente mandado para cá e para lá pelos Solara), em parte porque não sabia sobre o que falar: não podia conversar sobre seu trabalho e não tinha uma vida privada. Ada, depois da charcutaria, ou ia cuidar da mãe e dos irmãos, ou estava cansada, deprimida e ia dormir, tanto é que quase não encontrava mais Pasquale, o que o deixava muito nervoso. Carmen agora odiava tudo e todos, talvez até a mim: odiava o trabalho na charcutaria nova, os Carracci, Enzo, que a abandonara, o irmão, que se limitara a romper com Enzo e não lhe quebrara a cara. Sim, Enzo. Finalmente Enzo — que agora estava com a mãe, Assunta, acometida de uma horrível doença e, quando não estava trabalhando para ganhar o dia se dedicava a ela, até de noite, e no entanto, sem que se soubesse, conseguiu tirar o diploma de perito industrial —, Enzo nunca se fazia notar. Fiquei surpresa com a notícia de que ele conseguira aquela coisa dificílima que era se diplomar estudando em casa. Quem diria, pensei. Antes de voltar a Pisa, me esforcei e o convenci a dar um passeio. Dei muitos parabéns pelo resultado obtido, mas ele se limitou a uma expressão minimizadora. Tinha reduzido seu vocabulário a tal ponto que somente eu falei, ele não disse quase nada. A única frase de que me lembro, a pronunciou antes de nos separarmos. Eu não tinha mencionado Lila até aquele momento, nem sequer uma palavra. No entanto, como se tivéssemos falado sobre ela o tempo todo, ele disse de repente:

“De todo modo, Lina é a melhor mãe do bairro.”

Aquele de todo modo me deixou de mau humor. Eu nunca tinha atribuído a Enzo uma sensibilidade particular, mas naquela ocasião me convenci de que, enquanto caminhava a meu lado, ele tivesse ouvido — ouvido como se eu declamasse em voz alta — a longa lista silenciosa de culpas que eu atribuía à nossa amiga, quase como se meu corpo a escandisse com raiva sem que eu percebesse.

 

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