História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 104 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 103

A situação estava mais ou menos nesse pé quando voltei ao bairro para as férias de Páscoa. Morava em Pisa havia dois anos e meio, era uma aluna muito brilhante, e voltar a Nápoles nas férias se tornara para mim um peso a que me submetia para evitar discussões com meus pais, principalmente com minha mãe. Bastava o trem entrar na estação e eu já ficava nervosa. Temia que algum incidente me impedisse de voltar à Normal no fim das férias: uma doença grave que me obrigasse a uma internação no caos de um hospital, algum acontecimento terrível que me obrigasse a parar de estudar porque a família precisaria de mim.

Tinha chegado em casa fazia poucas horas. Minha mãe tinha acabado de me fazer um relato maldoso sobre as tristes peripécias de Lila, de Stefano, de Ada, de Pasquale, de Rino, da fábrica de calçados que estava para fechar, dos tempos em que num ano você tinha dinheiro, se achava sabe-se lá o quê, comprava um conversível, e no ano seguinte precisava vender tudo, acabava no livro vermelho da senhora Solara e parava com aquela pose toda. De repente ela parou a ladainha e me disse: “Sua amiga achava que tinha chegado sabe-se lá onde, o casamento de princesa, o carro grande, a casa nova, e no entanto hoje você é muito melhor e muito mais bonita que ela”. Então fez uma careta para reprimir a satisfação e me entregou um bilhete que obviamente ela já tinha lido, embora fosse para mim. Lila queria me ver, estava me convidando para um almoço no dia seguinte, Sexta-Feira Santa.

Não recebi apenas esse convite, foram dias movimentados. Pouco depois Pasquale me chamou do pátio e, como se eu tivesse descido do Olimpo, e não da casa escura de meus pais, quis me expor suas ideias sobre a mulher, me dizer quanto sofria, conhecer minha opinião sobre como estava se comportando. O mesmo fez Pinuccia à noite, furibunda tanto com Rino quanto com Lila. O mesmo fez inesperadamente Ada, na manhã seguinte, queimando de ódio e sentimento de culpa.

Assumi com os três um tom distante. Recomendei tranquilidade a Pasquale, a Pinuccia, que se preocupasse sobretudo com o filho, a Ada, que tentasse entender se sentia um amor verdadeiro. Mas, apesar da superficialidade das palavras, devo dizer que quem mais chamou minha atenção foi ela. Enquanto falava, fixei-a como se fosse um livro. Era a filha de Melina, a louca, irmã de Antonio. Em seu rosto reconheci a mãe, muitos traços do irmão. Tinha crescido sem pai, exposta a todos os riscos, habituada a penar no trabalho. Tinha lavado as escadas de nossos prédios por anos, ao lado de Melina, cuja cabeça de repente variava. Os Solara a levaram no carro quando era uma menina, e eu podia imaginar o que tinham feito. Então me pareceu normal que tivesse se apaixonado por Stefano, patrão gentil. Ela o amava, me confirmou, os dois se amavam. “Diga a Lina”, murmurou com olhos brilhantes de paixão, “que não se controla o coração e que, se ela é a esposa, eu sou aquela a quem Stefano deu e dá tudo, toda a atenção e todo o sentimento que um homem pode ter, em breve também filhos, e por isso ele é meu, não pertence mais a ela.”

Compreendi que queria pegar para si tudo o que pudesse, Stefano, as charcutarias, o dinheiro, a casa, os carros. E pensei que era um direito seu combater aquela batalha; alguns mais, outros menos, todos a combatiam. Só tentei acalmá-la porque estava palidíssima, os olhos em fogo. E fiquei contente de ouvir o quanto ela me era grata, senti prazer em ser consultada como um oráculo, em distribuir conselhos em um bom italiano que confundia tanto ela quanto Pasquale e Pinuccia. Aí está, pensei com sarcasmo, para que servem as provas de história, a filologia clássica, a glossologia e os milhares de fichas com que me adestro ao rigor: para acalmá-los por algumas horas. Me consideravam acima das partes, isenta de maus sentimentos e de paixões, esterilizada pelos estudos. E eu aceitei o papel que me haviam designado sem aludir às minhas angústias, às minhas audácias, às vezes em que, em Pisa, pus tudo em risco deixando Franco entrar em meu quarto ou indo eu ao quarto dele, às férias que passamos sozinhos em Versilia, vivendo juntos como se fôssemos casados. Fiquei contente comigo.

Porém, enquanto se aproximava a hora do almoço, o prazer foi dando lugar ao mal-estar, e fui ver Lila sem vontade. Temia que ela achasse um jeito de restaurar num piscar de olhos a velha hierarquia, fazendo-me perder a confiança em minhas escolhas. Temia que me fizesse ver no pequeno Gennaro os traços de Nino, para me lembrar de que o brinquedo que deveria ter sido meu coubera afinal a ela. Mas não foi assim, a princípio. Rinuccio — assim o chamava quase sempre — me comoveu imediatamente: era um lindo menino moreno, e Nino ainda não tinha despontado em seu rosto e no corpo, tinha traços que lembravam Lila e até Stefano, como se o tivessem gerado os três. Quanto a ela, senti-a frágil como raramente a tinha visto. Assim que me viu, os olhos brilharam e todo o corpo tremeu, precisei abraçá-la forte para acalmá-la.

Me dei conta de que, para não fazer feio comigo, se penteara depressa, depressa passara um pouco de batom e vestira uma roupa de raiom cinza-perolado da época do noivado, e calçava sapatos de salto. Ainda era bonita, mas como se os ossos do rosto tivessem se tornado maiores, os olhos, menores, e sob a pele não circulasse mais sangue, mas um líquido opaco. Estava magérrima, senti seus ossos ao abraçá-la, a roupa aderente evidenciava o ventre inchado.

De início fingiu que tudo estava bem. Ficou contente ao ver meu entusiasmo com o menino, gostou de como eu brincava com ele, quis me mostrar as coisas que Rinuccio sabia dizer e fazer. De um modo ansioso, que eu nunca vira nela, começou a despejar em mim a terminologia tirada das leituras desordenadas que tinha feito. Citou autores de que eu nunca tinha ouvido falar, forçou o filho a se exibir em exercícios que ela mesma tinha inventado para ele. Notei que ela adquirira uma espécie de tique, um esgar da boca: a abria de repente e depois apertava os lábios como para conter a emoção induzida pelas coisas que estava dizendo. Com frequência o esgar era associado a um avermelhamento dos olhos, uma luminosidade rósea que a contração dos lábios prontamente ajudava — como um dispositivo movido a mola — a reabsorver no fundo da cabeça. Várias vezes me repetiu que, caso se dedicassem assiduamente a cada criança pequena do bairro, no intervalo de uma geração tudo estaria mudado, não haveria mais os excelentes e os incapazes, os bons e os ruins. Depois olhou o filho e caiu de novo no choro. “Ele acabou com meus livros”, disse entre as lágrimas, como se fosse Rinuccio que o tivesse feito, e os mostrou para mim, rasgados, divididos em duas metades. Demorei a entender que o culpado não era o pequeno, mas o marido. “Ele agora vasculha sempre minhas coisas”, murmurou, “não quer que eu tenha nem um pensamento meu e, se descobre que lhe escondi nem que seja uma coisa insignificante, me espanca.” Subiu numa cadeira, pegou do topo do armário do quarto de dormir uma caixa de metal e a entregou a mim. “Aqui está tudo o que aconteceu com Nino”, disse, “e muitos pensamentos que me passaram pela cabeça nesses anos, e até coisas minhas e suas que nunca nos dissemos. Leve embora, tenho medo de que ele encontre e resolva ler. Mas não quero, não são coisas para ele, não são coisas para ninguém, nem mesmo para você.”

 

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