História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 34 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 33

O casamento de Pinuccia e Rino foi preparado às pressas. Eu me envolvi pouco, tinha os últimos trabalhos no colégio, os últimos exames orais. E além disso houve um fato que me deixou em grande agitação. Galiani, cuja norma era violar com desenvoltura o cânone de comportamento dos professores, me convidou — a mim e a mais ninguém do liceu — à casa dela, para uma festa organizada pelos filhos.

Já era bastante anômalo que me emprestasse seus livros e jornais, que me indicasse uma marcha pela paz e uma conferência complexa. Agora excedera a medida: chamou-me à parte e me fez o convite. “Venha como quiser”, me disse, “sozinha ou acompanhada, com ou sem namorado: o essencial é que você venha.” Assim, a poucos dias do fim do ano letivo, sem se preocupar com quanto eu precisava estudar, sem se preocupar com o terremoto que me sacudia por dentro.

Eu imediatamente disse que sim, mas logo me dei conta de que nunca teria a coragem de ir. Uma festa na casa de uma professora qualquer já era um acontecimento impensável, imagine na casa da professora Galiani. Para mim, era como se eu tivesse que me apresentar num palácio real, fazer reverência à rainha, dançar com príncipes. Uma alegria, mas também uma violência, como um puxão: ser arrastada pelo braço, ser constrangida a fazer algo que, embora a atraia, você sabe que não é feito para você, sabe que, se as circunstâncias não a obrigassem, você evitaria ir de bom grado. Galiani provavelmente nem cogitara que eu não tivesse nada para vestir. Nas aulas eu usava um canhestro avental preto: o que a professora esperava que houvesse debaixo daquele uniforme, roupas, anáguas e calcinhas como as dela? O que havia era inadequação, era miséria, falta de educação. Eu possuía um único par de sapatos, muito surrados. A única roupa que me parecia boa era aquela que eu usara no casamento de Lila, mas fazia calor, ficava bem em março, não em fins de maio. De todo modo, o problema não era apenas como se vestir. Havia a solidão, o embaraço de me encontrar entre estranhos, rapazes com maneiras de conversar, de gracejar, com gostos que eu desconhecia. Pensei em perguntar a Alfonso se ele não queria me acompanhar, ele sempre era muito gentil comigo. Mas — como me lembrei — Alfonso era meu colega de turma, e Galiani tinha convidado somente a mim. O que fazer? Durante dias me vi paralisada pela ânsia, pensei em falar com a professora e arranjar uma desculpa qualquer. Depois me veio a ideia de pedir conselho a Lila.

Como sempre, ela estava passando por um péssimo período, tinha um hematoma amarelado sob a maçã do rosto. Não acolheu bem a notícia.

“O que você vai fazer lá?”

“Ela me convidou.”

“Onde essa professora mora?”

“No Corso Vittorio Emanuele.”

“Se vê o mar da casa dela?”

“Não sei.”

“O marido faz o quê?”

“É médico no Cotugno.”

“E os filhos ainda estudam?”

“Não sei.”

“Quer um vestido meu?”

“Você sabe que não caem bem em mim.”

“Você só tem o peito mais cheio.”

“Tenho tudo mais cheio, Lila.”

“Então não sei o que lhe dizer.”

“Não devo ir?”

“É melhor.”

“Tudo bem, não vou.”

Ela ficou visivelmente satisfeita com aquela decisão. Me despedi, saí da charcutaria, peguei uma rua com mirrados arbustos de oleandro. Mas a escutei me chamar, virei para trás.

“Posso ir com você”, disse.

“Aonde?”

“À festa.”

“Stefano não vai deixar.”

“Isso depois se vê. Me diga se quer que eu vá ou não.”

“Claro que quero.”

A partir daquele momento ela ficou tão contente que não ousei tentar fazê-la mudar de ideia. Mas, já enquanto voltava para casa, senti que minha situação se agravara ainda mais. Nenhum dos obstáculos que me impediam de ir à festa tinham sido removidos e, acima de tudo, aquela oferta de Lila só me deixara mais confusa. Os motivos eram intricados, e eu não tinha intenção de listá-los, mas, se tivesse tentado, me veria diante de afirmações contraditórias. Temia que Stefano não permitisse que ela fosse. Temia que Stefano permitisse. Temia que se vestisse de modo espalhafatoso, como fizera ao visitar os Solara. Temia que, não importa o que ela vestisse, sua beleza explodisse como uma estrela, e todos corressem para disputar seus fragmentos. Temia que se expressasse em dialeto, que dissesse coisas debochadas, que ficasse evidente seu abandono da escola após o ensino fundamental. Temia que, assim que abrisse a boca, todos acabassem hipnotizados por sua inteligência e a própria Galiani se encantasse. Temia que a professora a achasse tão presunçosa quanto ingênua e me dissesse: quem é essa sua amiga?, não a encontre mais. Temia que talvez percebesse que sou apenas a sombra pálida dela e não se importasse mais comigo, mas com ela, e pretendesse revê-la, e insistisse em que retomasse os estudos.

Por uns dias evitei ir à charcutaria. Esperava que Lila se esquecesse da festa, que a data chegasse, que eu fosse quase às escondidas e depois lhe dissesse: você não me falou mais nada. Mas não demorou muito e ela veio me encontrar, coisa que não fazia há tempos. Tinha convencido Stefano não só a nos acompanhar, mas também a nos buscar, e queria saber a que horas era preciso chegar à casa da professora.

“O que você vai vestir?”, perguntei ansiosa.

“O mesmo que você.”

“Eu vou pôr uma blusa e uma saia.”

“Então eu também.”

“E tem certeza de que Stefano vai nos levar e buscar?”

“Tenho.”

“Como você fez para convencê-lo?”

Fez um trejeito alegre, disse que agora sabia como dobrá-lo.

“Se quero uma coisa”, sussurrou como se ela mesma não quisesse ouvir o que dizia, “basta bancar um pouco a cadela”.

Disse assim mesmo, em dialeto, acrescentando outras expressões grosseiras de um jeito autoirônico, para que eu entendesse a repugnância que sentia pelo marido, o desgosto que infligia a si mesma. Minha ansiedade aumentou. Preciso dizer a ela — pensei — que não vou mais à festa, preciso dizer que mudei de ideia. Naturalmente eu sabia que por trás da aparência da Lila disciplinada, que trabalha de manhã até a noite, havia uma Lila nem um pouco submissa; mas sobretudo agora, que eu estava assumindo a responsabilidade de introduzi-la na casa de Galiani, a Lila recalcitrante me assustava, me parecia cada vez mais agastada por sua própria recusa à rendição. O que aconteceria se, na presença da professora, algo a fizesse insurgir-se? O que aconteceria se decidisse adotar aquela linguagem que acabara de usar comigo? Falei cautelosamente:

“Por favor, não fale dessa maneira lá.”

Ela me olhou perplexa.

“Dessa maneira como?”

“Como agora.”

Calou-se um instante, então perguntou:

“Sente vergonha de mim?”

 

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