História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 103 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 102

 

A partir daquela noite Lila perdeu grande parte das pequenas liberdades que lhe restavam. Stefano se comportou de modo totalmente contraditório. Visto que a mulher já estava a par de sua relação com Ada, deixou de lado qualquer cautela: frequentemente não voltava para dormir em casa; um domingo sim e outro não, passeava de carro com a amante; naquele agosto passou inclusive as férias com ela, foram até Estocolmo de conversível, embora oficialmente Ada tivesse ido a Turim, hospedada na casa de uma prima que trabalhava na Fiat. Mas nesse meio tempo ele explodiu numa forma doentia de ciúme: não queria que a esposa saísse de casa, obrigava-a a fazer as compras por telefone e, se Lila saía por uma horinha com o menino para pegar um ar, interrogava-a sobre quem tinha encontrado e com quem conversara. Estava se sentindo mais marido que nunca, e se mantinha vigilante. Era como se temesse que sua própria traição a autorizasse a traí-lo. O que fazia com Ada em seus encontros no Rettifilo lhe agitava a imaginação e o induzia a fantasias minuciosas, nas quais Lila fazia até mais com seus amantes. Temia ser ridicularizado por uma possível infidelidade dela, enquanto se vangloriava da sua.

Não sentia ciúme de todos os homens, tinha sua hierarquia. Lila entendeu logo que ele se preocupava especialmente com Michele, por quem se sentia trapaceado em tudo e mantido em condição de permanente subalternidade. Embora ela nunca lhe tivesse dito nada sobre a vez em que Solara tinha tentado beijá-la, ou de quando lhe propusera que se tornasse sua amante, Stefano tinha intuído que tirar-lhe a mulher por ultraje era um movimento importante para finalmente o arruinar nos negócios. Mas, por outro lado, justamente a lógica dos negócios implicava que Lila se mostrasse ao menos um pouco cordial. Consequentemente, qualquer coisa que ela fizesse não estava bom. Às vezes pressionava-a de modo obsessivo: “Você viu Michele, falou com ele, ele pediu que desenhasse novos sapatos?”. Às vezes gritava: “Você não deve nem dizer oi àquele merda, está claro?”. E abria suas gavetas, vasculhava em busca de provas sobre sua natureza de vadia.

Para complicar ainda mais a situação, se intrometeram primeiro Pasquale, depois Rino.

Obviamente Pasquale soube por último, até depois de Lila, que sua namorada era amante de Stefano. Ninguém lhe disse nada, viu com os próprios olhos quando, num fim de tarde de um domingo de setembro, os dois saíam de um portão do Rettifilo abraçados. Ada lhe dissera que tinha algo a fazer com Melina e por isso não podiam se encontrar. Ele estava sempre ocupado, seja com o trabalho, seja com os compromissos políticos, e dava pouca importância àquelas esquivas e subterfúgios da namorada. Vê-los juntos foi uma dor terrível, complicada pelo fato de que, enquanto seu impulso imediato teria sido trucidar os dois, a formação de militante comunista o proibia de fazer isso. Nos últimos tempos Pasquale se tornara secretário da seção de bairro do partido e, embora no passado, assim como todos os rapazes com quem tínhamos crescido, diante daquilo ele a rotulasse de vagabunda, agora — que se mantinha informado, lia o l’Unità, estudava opúsculos, presidia debates na seção — não se sentia mais capaz de fazê-lo, ao contrário, se esforçava para considerar as mulheres em princípio não inferiores aos homens, com nossos sentimentos, nossas ideias, nossas liberdades. Assim, constrito entre a fúria e as amplas visões, na noite seguinte, ainda sujo do trabalho, foi até Ada e disse a ela que sabia de tudo. Ela se mostrou aliviada e admitiu ponto por ponto, chorou, pediu perdão. Quando ele perguntou se ela tinha feito aquilo por dinheiro, respondeu que amava Stefano e que somente ela sabia que pessoa boa, generosa e gentil ele era. O resultado foi que Pasquale deu um murro na parede da cozinha dos Cappuccio e voltou para casa chorando, os nós dos dedos doloridos. Depois disso, conversou com Carmen a noite inteira, os dois irmãos sofreram juntos, um por culpa de Ada, a outra por culpa de Enzo, que ela não conseguia esquecer. As coisas só ficaram realmente mal quando Pasquale, mesmo tendo sido traído, decidiu que devia defender a dignidade tanto de Ada quanto de Lila. Como primeiro passo, quis esclarecer as coisas e foi falar com Stefano, a quem fez um discurso complicado cujo sumo era que ele devia deixar a mulher e começar um concubinato regular com a amante. Depois foi até Lila e a censurou por deixar Stefano espezinhar seus direitos de esposa e seus sentimentos de mulher. Uma manhã — eram seis e meia — Stefano o abordou justamente quando saía para o trabalho e lhe ofereceu amigavelmente dinheiro para que não importunasse mais ele, a mulher e Ada. Pasquale pegou o dinheiro, o contou e o jogou para o ar, dizendo: “Trabalho desde pequeno, não preciso de você”, e então, como se pedisse desculpas, acrescentou que precisava ir, se não ficaria tarde e o demitiriam. Mas quando já estava longe mudou de ideia, se virou e gritou ao salsicheiro que estava recolhendo as cédulas espalhadas na rua: “Você é pior do que aquele porco fascista do seu pai”. Os dois se atracaram, trocaram terríveis porradas e precisaram separá-los, caso contrário se matariam.

Rino também trouxe aborrecimentos. Não tolerou que a irmã tivesse parado de se esforçar para fazer de Dino uma criança muito inteligente. Não tolerou que o cunhado não só não lhe desse um centavo, mas tivesse até o atacado. Não tolerou que se tornasse de domínio público a relação entre Stefano e Ada, com todas as consequências humilhantes para Lila. E reagiu de modo inesperado. Visto que Stefano batia em Lila, começou a bater em Pinuccia. Visto que Stefano tinha uma amante, procurou uma amante para si. E assim deu início a uma perseguição da irmã de Stefano especular à que Stefano submetia sua irmã.

Isso lançou Pinuccia em desespero: lágrimas e mais lágrimas, súplicas, implorava que ele parasse. Mas nada. Aterrorizando até Nunzia, Rino perdia totalmente a luz da razão assim que a mulher abria a boca e gritava com ela: “Quer que eu pare? Quer que eu me acalme? Então vá até seu irmão e diga que ele precisa deixar Ada, que deve respeitar Lina, que devemos ser uma família unida e que me deve dar o dinheiro que ele e os Solara me ferraram e continuam ferrando”. O efeito foi que Pinuccia passou a fugir frequentemente e de bom grado de casa, toda estropiada, e correr à charcutaria do irmão para soluçar diante de Ada e das clientes. Stefano a levava aos fundos da loja, e ela listava todas a exigências do marido, mas concluía: “Não dê nada a esse bosta, venha logo para casa e acabe com ele”.

 

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