História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 31 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 30

De todo modo, foi graças àquelas frases que em pouco tempo a loja dos Solara e os sapatos Cerullo se firmaram ainda mais. Gigliola e Pinuccia se pavonearam muito pelo modo como foram citadas nos jornais, mas o sucesso não atenuou a rivalidade entre as duas, e cada uma passou a atribuir-se o mérito pelo êxito do negócio, e considerar a outra um obstáculo para possíveis novos sucessos. Apenas em um único ponto nunca deixaram de estar de acordo: o painel de Lila era um opróbrio. Tratavam descortesmente todos os que, com suas vozinhas finas, se aproximavam só para dar uma olhada nele. E emolduraram os artigos do Roma e do Napoli Notte, mas não o do Mattino.

Entre o Natal e a Páscoa os Solara e os Carracci embolsaram muito dinheiro. Stefano sobretudo deu um suspiro de alívio. A charcutaria nova e a antiga estavam faturando bem, a fábrica de calçados Cerullo trabalhava a todo vapor. Além disso, a loja da Piazza dei Martiri revelou aquilo que sempre se soube, ou seja, que os sapatos desenhados por Lila anos antes não só vendiam bem no Rettifilo, na Via Foria ou no Corso Garibaldi, mas também eram um consenso entre os senhores ricos, aqueles que metiam a mão na carteira com desenvoltura. Um mercado importante, pois, que era preciso consolidar e alargar urgentemente.

A confirmar o sucesso, já na primavera começaram a aparecer nas vitrines da periferia umas boas imitações dos calçados Cerullo. Eram sapatos substancialmente idênticos aos de Lila, apenas modificados por uma franja, por uma tacha. Os protestos, as ameaças interromperam logo sua difusão, e Michele Solara pôs as coisas em seu devido lugar. Mas ele não parou ali, rapidamente chegou à conclusão de que era necessário criar novos modelos. Por esse motivo convocou certa noite, à loja da Piazza dei Martiri, o irmão Marcello, o casal Carracci, Rino e naturalmente Gigliola e Pinuccia. No entanto, de surpresa, Stefano se apresentou sem Lila, dizendo que a esposa se desculpava, mas estava cansada.

Aquela ausência não agradou aos Solara. Se Lila não está — disse Michele irritando Gigliola —, de que merda vamos falar? Mas Rino interveio imediatamente. Anunciou, mentindo, que ele e o pai há um bom tempo tinham começado a pensar em novos modelos e esperavam apresentá-los numa mostra em Arezzo prevista para setembro. Michele não acreditou nele e ficou ainda mais nervoso. Disse que era preciso lançar produtos realmente inovadores, e não artigos normais. Por fim, se dirigiu a Stefano:

“Sua senhora é necessária, você deveria tê-la obrigado a vir”.

Stefano respondeu com um fundo surpreendente de agressividade:

“Minha senhora trabalha o dia todo na charcutaria e, à noite, precisa ficar em casa, cuidando de mim”.

“Tudo bem”, disse Michele, desfigurando por um instante seu rosto de belo rapaz com um esgar, “mas veja se consegue pensar um pouco também em nós.”

A noite deixou todos insatisfeitos, mas os que mais se incomodaram foram Gigliola e Pinuccia. Ambas, por motivos diversos, acharam insuportável a importância que Michele atribuíra a Lila, e nos dias seguintes o descontentamento delas acabou se transformando num mau humor que, a qualquer ocasião, dava lugar a discórdias entre as duas.

Foi naquela altura — em março, se não me engano — que houve um incidente sobre o qual até hoje não sei bem. Numa tarde, durante uma de suas brigas habituais, Gigliola deu um tapa em Pinuccia. Pinuccia se queixou com Rino, que, convencido naquele período de estar na crista de uma onda do tamanho de um prédio, foi até a loja com ar patronal e deu uma bronca em Gigliola. Gigliola reagiu com muita agressividade, e ele exagerou a tal ponto que ameaçou demiti-la.

“A partir de amanhã”, disse a ela, “você vai voltar a meter ricota nos cannoli.”

Logo depois apareceu Michele. Rindo, levou Rino para fora, até a praça, e o fez dar uma olhada no letreiro da loja.

“Meu amigo”, disse, “a loja se chama Solara, e você não tem o direito de vir aqui e falar à minha noiva: vou demiti-la.”

Rino contra-atacou recordando que tudo o que havia dentro da loja era de seu cunhado, que quem fazia os sapatos era ele, e que portanto tinha todo o direito, e como. Enquanto isso, dentro da loja, Gigliola e Pinuccia, sentindo-se cada qual bem protegida pelo próprio noivo, já tinham recomeçado a se insultar. Os dois rapazes voltaram depressa e tentaram acalmá-las, mas não conseguiram. Então Michele perdeu a paciência e gritou que demitiria as duas. Não só: deixou escapar que daria a gerência da loja para Lila.

Para Lila?

A loja?

As duas jovens emudeceram, e aquela ideia também deixou Rino pasmo. Depois a discussão recomeçou, dessa vez toda concentrada naquela afirmação escandalosa. Gigliola, Pinuccia e Rino se aliaram contra Michele — o que é que não está indo bem aqui, de que lhe serve Lina, você não pode se lamentar dos lucros que estamos tendo, os modelos dos sapatos foram todos pensados por mim, ela na época era uma menina, o que poderia inventar —, e a tensão cresceu cada vez mais. A desavença teria prosseguido sabe-se lá por quanto tempo se não tivesse havido o incidente que mencionei. De repente, não se sabe como, o painel — o painel com as tiras de cartolina preta, a foto, as manchas densas de cor — emitiu um som rouco, uma espécie de respiro doentio, e se incendiou com uma chama alta. Pinuccia estava de costas para a foto quando aconteceu. A labareda subiu por trás dela como de um fogareiro secreto e lhe lambeu os cabelos, que crepitaram e teriam queimado inteiramente se Rino não os tivesse prontamente apagado com as próprias mãos.

 

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