História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 87 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 86

No início o maior problema não foi um possível boato que arruinasse tudo, mas ele, o rapaz amado. Não queria outra coisa senão agarrá-la, beijá-la, mordê-la, penetrá-la. Parecia que seu único interesse era poder viver com a boca colada na dela, dentro do corpo dela. E não tolerava separações, ficava em pânico, temia que ela sumisse de novo. Por isso se entorpecia com o álcool, não estudava mais, fumava sem parar. É como se, para ele, não houvesse outra questão no mundo a não ser os dois, e quando recorria às palavras era só para gritar seus ciúmes, para lhe dizer obsessivamente como era intolerável que ela continuasse vivendo com o marido.

“Eu abandonei tudo”, murmurava arrasado, “já você não quer abandonar nada.”

“E você quer fazer o quê?”, ela rebatia.

Nino se calava desconcertado com a pergunta, ou então se enfurecia, como se o estado das coisas o ofendesse. Falava desesperado:

“Você não gosta mais de mim.”

Mas Lila gostava, gostava mais e mais, mas também queria outras coisas, e depressa. Queria que ele retomasse os estudos, queria que ele continuasse mexendo com sua cabeça como ocorrera no período de Ischia. A prodigiosa menina da escola fundamental, a garotinha que encantara a professora Oliviero, a que escrevera a Fada azul tinha ressurgido e ansiava por energia nova. Nino a tinha encontrado no fundo da escuridão em que tinha ido acabar e a puxara para cima. Agora aquela menininha pressionava para que ele voltasse a ser o jovem estudioso de antes e a fizesse crescer até lhe dar forças para varrer de uma vez por todas a senhora Carracci. O que aos poucos ela conseguiu.

Não sei o que aconteceu: Nino deve ter intuído que, para não perdê-la, precisava voltar a ser algo mais que um amante furioso. Ou talvez não, talvez simplesmente tenha se dado conta de que a paixão o estava esvaziando. E Lila a princípio ficou contente: pouco a pouco ele se recompôs, voltou a ser quem ela conhecera em Ischia, o que o tornou ainda mais necessário a ela. Reconquistou não somente Nino, mas também um pouco de suas palavras, de suas ideias. Ele lia Smith insatisfeito, ela também tentava lê-lo; ele lia Joyce ainda mais insatisfeito, ela também se esforçava. Comprou os livros sobres os quais, nas raras vezes em que conseguiam se ver, ele trocava ideias com ela. Queria discuti-los, mas nunca havia meios.

Cada vez mais desorientada, Carmen não compreendia o que Lila tinha de tão urgente para, ora com uma desculpa, ora com outra, se ausentar por horas da charcutaria. Olhava para ela de cenho franzido quando, mesmo nos horários de maior movimento, ela a deixava com o peso dos clientes e parecia não enxergar nem ouvir mais nada, tão absorta que estava na leitura de um livro ou escrevendo em seus cadernos. Era preciso interrompê-la: “Lina, por favor, me ajude”. Só então ela erguia os olhos, passava a ponta dos dedos nos lábios e dizia que sim.

Quanto a Stefano, sempre oscilava entre o nervosismo e a concordância. Enquanto discutia com o cunhado, com o sogro, com os Solara, e se amargurava porque os filhos não vinham apesar dos banhos de mar, a mulher ironizava sobre a zona que estava o negócio dos sapatos e se fechava até tarde da noite dentro de romances, revistas, jornais: aquela mania voltara, como se a vida verdadeira já não lhe interessasse. Ele a observava e não entendia, ou não tinha o tempo e a vontade de entender. Depois de Ischia uma parte dele, a mais agressiva, diante daqueles comportamentos ora de recusa, ora de pacífico alheamento, forçava para chegar a um novo embate e a um esclarecimento definitivo. Mas a outra parte, mais prudente, quem sabe assustada, continha a primeira, fazia de conta que não era nada, pensava: melhor assim do que quando enche o saco. E Lila, que captara aquele pensamento, tentava fazer com que ele perdurasse em sua cabeça. À noite, quando ambos voltavam pra casa depois do trabalho, tratava o marido sem hostilidade. Mas, depois do jantar e das conversas, ela se retraía seriamente na leitura, um espaço mental inacessível a ele, habitado apenas por ela e por Nino.

O que esse rapaz se tornou para ela naquele período? Uma ânsia sexual que a mantinha em um estado de permanente fantasia erótica; uma excitação mental que queria estar à altura da dele; sobretudo um abstrato projeto de casal secreto, encerrado numa espécie de refúgio que devia ser em parte uma cabana para os dois corações, em parte um laboratório de ideias sobre a complexidade do mundo, ele, presente e ativo, ela, uma sombra colada em seu calcanhar, aconselhadora prudente, colaboradora devotada. As poucas vezes em que conseguiam estar juntos não por poucos minutos, mas por uma hora, aquela hora se transformava num fluxo inesgotável de trocas sexuais e verbais, um bem-estar pleno que, no momento da separação, tornava insuportável o retorno à charcutaria e à cama de Stefano.

“Não aguento mais.”

“Nem eu.”

“O que vamos fazer?”

“Não sei.”

“Quero ficar sempre com você.”

Ou pelo menos — ela acrescentava — por algumas horas todos os dias.

Mas como delimitar para si um tempo constante, seguro? Encontrar Nino em casa era perigosíssimo, vê-lo na rua, ainda mais perigoso. Sem contar que às vezes Stefano ligava para a charcutaria e ela não estava, e dar uma explicação plausível era complicado. Assim, pressionada entre as impaciências de Nino e as reclamações do marido, em vez de recuperar o sentido da realidade e admitir com clareza que estava numa situação sem saída, Lila começou a agir como se o mundo real fosse um cenário ou um tabuleiro, bastando deslocar algumas figuras de fundo e mover certas peças, e eis que o jogo — a única coisa que realmente importava, o seu jogo, o jogo dos dois — podia continuar sendo jogado. Quanto ao futuro, o futuro se transformou no dia seguinte, e depois mais outro, e depois mais outro. Ou imagens repentinas de massacres e de sangue, muito presentes em seus cadernos. Nunca escrevia vou morrer assassinada, mas anotava casos das páginas policiais e às vezes os reinventava. Eram histórias de mulheres assassinadas, e ela insistia na crueldade do assassino, no sangue que se espalhava por todo lado. Acrescentava os detalhes que os jornais não traziam: olhos arrancados das órbitas, danos causados pela faca na garganta ou nos órgãos internos, a lâmina que perfurava os seios, os mamilos decepados, o ventre aberto do umbigo para baixo, a lâmina raspando os genitais. Era como se ela quisesse retirar força da possibilidade realista de uma morte violenta reduzindo-a a palavras, a um esquema governável.

 

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