História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 15 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 14

Foi difícil convencê-lo de que o que tinha visto com os próprios olhos não era aquilo que há tempos imaginava, mas apenas um comportamento amigável, sem outras finalidades. “Ele já tem namorada”, eu disse, “você mesmo viu.” Mas ele deve ter captado um traço de sofrimento naquelas palavras e me ameaçou, o lábio inferior começou a tremer, as mãos. Então murmurei que eu estava cansada, queria deixá-lo. Cedeu, nos reconciliamos. Mas a partir daquele momento passou a confiar ainda menos em mim, e a ansiedade pela convocação militar se fundiu de modo definitivo com o medo de me deixar para Nino. Passou a deixar o trabalho com mais frequência ainda para, dizia, correr e me dar um oi. Na realidade queria me pegar em flagrante e provar sobretudo a si mesmo que eu de fato lhe era infiel. O que teria feito em seguida, nem mesmo ele sabia.

Uma tarde a irmã dele, Ada, me viu passar em frente à charcutaria, onde agora trabalhava com grande satisfação, sua e de Stefano. Veio até mim correndo. Usava um avental branco engordurado que a cobria até abaixo dos joelhos, mas mesmo assim era muito graciosa e dava para ver pelo batom, pelos olhos maquiados, pelas presilhas nos cabelos, que mesmo debaixo do avental ela devia estar vestida como se fosse a uma festa. Disse que queria falar comigo, decidimos nos encontrar no pátio antes do jantar. Chegou ofegante do trabalho, acompanhada de Pasquale, que fora buscá-la.

Os dois falaram juntos, uma frase enrolada um, outra frase enrolada o outro. Vi que estavam muito preocupados, Antonio se enfurecia por qualquer coisa, não tinha mais paciência com Melina, se ausentava do trabalho sem aviso prévio. E até Gallese, o dono da oficina, estava desorientado porque o conhecia desde que era um menino e nunca o tinha visto assim.

“Está com medo do serviço militar.”

“De todo modo, se o chamarem, vai ter que ir de qualquer jeito”, disse Pasquale, “se não, vira desertor.”

“Quando você está perto dele, passa tudo”, disse Ada.

“Não tenho muito tempo”, respondi.

“As pessoas são mais importantes que os estudos”, emendou Pasquale.

“Passe menos tempo com Lina e vai ver que lhe sobra tempo”, disse Ada.

“O que está a meu alcance eu faço”, retruquei mordida.

“Ele está um pouco fraco dos nervos”, disse Pasquale.

Ada concluiu bruscamente:

“Eu cuido de uma louca desde que sou pequena, dois seriam realmente demais, Lenu.”

Fiquei contrariada, assustada. Cheia de sentimentos de culpa, voltei a ver Antonio com bastante frequência, mesmo sem ter vontade, mesmo se precisava estudar. Não foi suficiente. Uma noite, nos pântanos, ele começou a chorar, me mostrou o comunicado. Não lhe tinham dado a dispensa, teria de partir com Enzo no outono. E a certo ponto fez uma coisa que me impressionou muito. Caiu no chão e começou a enfiar freneticamente na boca punhados de terra. Precisei abraçá-lo com força, murmurar que o amava, tirar-lhe a terra da boca com os dedos.

Em que cilada estou me metendo, pensei mais tarde na cama, sem conseguir pegar no sono, e de repente descobri que se atenuara a vontade de abandonar a escola, de aceitar-me por aquilo que eu era, de me casar com ele, de viver na casa de sua mãe, com seus irmãos, enchendo os carros de gasolina. Decidi que devia fazer algo para ajudá-lo e, quando ele se recuperasse, sair daquela relação.

No dia seguinte, muito assustada, fui até Lila. Ela demonstrava uma alegria até excessiva, ambas naquele período estávamos instáveis. Contei-lhe de Antonio, do aviso, e disse a ela que tinha tomado uma decisão: sem que ele soubesse, pois jamais me daria a permissão, eu pretendia me dirigir a Marcello ou até a Michele para perguntar se eles podiam tirá-lo daquela situação.

Exagerei minha determinação. Na verdade, eu estava confusa: de um lado, me parecia uma tentativa obrigatória, visto que eu era a causa dos sofrimentos de Antonio; de outro, consultava Lila justamente porque dava por certo que ela me desaconselharia a tomar essa atitude. Mas, tomada como estava, naquela fase, por minha desordem emotiva, não levei em consideração a dela.

Teve uma reação ambígua. Primeiro zombou de mim, disse que eu era uma mentirosa, que eu devia realmente gostar muito de meu namorado, já que estava disposta a ir pessoalmente me humilhar diante dos Solara, mesmo sabendo que, depois de tudo o que havia acontecido, aqueles dois nunca moveriam uma palha por ele. No entanto, logo em seguida começou a girar em círculos nervosamente, ria, ficava séria, tornava a rir. Por fim, disse: tudo bem, vá, vamos ver o que acontece. E acrescentou:

“No fim das contas, Lenu, onde está a diferença entre meu irmão e Michele Solara ou, digamos, entre Stefano e Marcello?”.

“O que você quer dizer?”

“Quero dizer que talvez eu devesse ter me casado com Marcello.”

“Não entendo.”

“Pelo menos Marcello não depende de ninguém, faz o que bem entende.”

“Está falando sério?”

Apressou-se a negar, rindo, mas não me convenceu. É impossível, pensei, que esteja revalorizando Marcello: todas essas risadas não são verdadeiras, são apenas sinais de maus pensamentos e de sofrimento porque as coisas não vão bem com o marido.

Tive a prova imediatamente. Ela ficou séria, reduziu os olhos a duas fissuras, disse:

“Vou com você.”

“Aonde?”

“Encontrar os Solara.”

“Para quê?”

“Para ver se consigo ajudar Antonio.”

“Não.”

“Por quê?”

“Assim você vai provocar Stefano.”

“E daí? Se Stefano se dirige a eles, eu, que sou sua esposa, também posso fazer o mesmo.”

 

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