História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 36 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 35

 

Por mais que possa parecer estranho, aquela descoberta não estragou meu prazer de estar ali, naquela casa, entre gente educada. Eu amava Nino, não tinha dúvida, nunca duvidei disso. E, claro, deveria sofrer diante daquela enésima prova de que nunca o teria. Mas não aconteceu. Que ele tivesse uma namorada, que a namorada fosse em tudo melhor do que eu, tudo isso já se sabia. A novidade era que se tratava da filha de Galiani, crescida naquela casa, entre aqueles livros. Imediatamente senti que a coisa, em vez de dolorosa, me acalmava, justificava ainda mais eles terem se escolhido, era um movimento inevitável, em harmonia com a ordem natural das coisas. Enfim, me senti como se de repente tivesse diante dos olhos um exemplo tão perfeito de simetria que era preciso degustá-lo sem sequer respirar.

Mas não foi só isso. Aconteceu que, assim que Armando disse à irmã “Nadia, esta aqui é Elena, a aluna de mamãe”, a menina se acendeu e de pronto envolveu meu pescoço com os braços, murmurando: “Elena, como estou contente de conhecer você”. Então, sem me dar tempo de dizer uma só palavra, passou a elogiar sem a ironia do irmão os textos que eu escrevia e como os escrevia, com um tom de tanto entusiasmo que me senti como quando a mãe dela lia na aula alguma redação minha. Ou quem sabe foi até melhor, porque agora estavam ali presentes as pessoas mais preciosas para mim, Nino e Lila, e ambos podiam constatar que eu era amada e estimada naquela casa.

Assumi ares de camaradagem dos quais nunca me achei capaz, me lancei depressa numa falação desinibida, me saí com um belo italiano culto que não me pareceu artificial como o que eu usava na escola. Perguntei a Nino sobre sua viagem à Inglaterra, quis saber de Nadia que livros ela estava lendo, de que música gostava. Dancei ora com Armando, ora com outros, sem parar um minuto, e me senti até capaz de um rock’n’roll, durante o qual meus óculos voaram do nariz, mas sem se quebrar. Uma noitada miraculosa. A certa altura vi Nino trocando umas palavras com Lila, convidando-a para dançar. Mas ela recusou, saiu da sala de dança, e a perdi de vista. Passou muito tempo até que eu pensasse de novo em minha amiga. Foi preciso que a dança diminuísse lentamente, que começasse uma discussão cerrada entre Armando, Nino e uns dois rapazes da mesma idade, a ida de todos eles com Nadia ao terraço, um pouco pelo calor, um pouco para envolver Galiani na discussão, que ficara sozinha fumando e tomando ar. “Venha”, me disse Armando, segurando-me pela mão. Respondi: “Vou chamar minha amiga”, e me desembaracei. Sentindo muito calor, procurei Lila pelos cômodos e a encontrei sozinha diante de uma parede de livros.

“Vamos, vamos ao terraço”, falei.

“Fazer o quê?”

“Tomar um ar, conversar.”

“Vá você.”

“Você está entediada?”

“Não, estou olhando os livros.”

“Viu quantos?”.

“Vi.”

Senti que estava insatisfeita. Porque tinha sido deixada para trás. Culpa da aliança no anular, pensei. Ou talvez aqui sua beleza não seja tão reconhecida, vale mais a de Nadia. Ou talvez fosse ela que, mesmo tendo um marido, mesmo tendo ficado grávida, mesmo tendo feito um aborto, mesmo tendo inventado sapatos, mesmo sabendo fazer dinheiro, não soubesse quem ela é nesta casa, não soubesse se impor como no bairro. Eu, sim. De repente me dei conta de que se desfizera o estado de suspensão iniciado no dia do casamento de Lila. Eu sabia estar com aquelas pessoas, me sentia melhor entre eles que entre os amigos do bairro. A única ansiedade era a que Lila me causava com sua retração, seu permanecer à margem. Tirei-a da frente dos livros e a arrastei até o terraço.

Enquanto a maioria ainda dançava, em torno da professora se formara um pequeno grupo, três ou quatro rapazes e duas garotas. Mas só os rapazes falavam, a única mulher que intervinha, e ironicamente, era Galiani. Logo percebi que os rapazes mais velhos, Nino, Armando e um chamado Carlo, não achavam decente confrontar-se com ela. Preferiam sobretudo confrontar-se entre si, considerando-a apenas alguém que, com sua autoridade, confere a palma da vitória. Armando estava polemizando com a mãe, mas de fato se dirigia a Nino. Carlo aderia às posições da professora, mas, ao confrontar-se com os outros dois, tendia a distinguir entre suas próprias razões e as dela. Já Nino rebatia em amistoso dissenso com Galiani e em conflito com Armando, em conflito com Carlo. Fiquei ouvindo, encantada. As palavras deles eram brotos que em minha cabeça se tornavam flores mais ou menos conhecidas — e nesse caso eu me exaltava, simulando participação —, ou manifestavam formas que eu desconhecia, e então me retraía para ocultar minha ignorância. Quando isso acontecia, eu ficava nervosa: não sei de que estão falando, não sei quem é esse fulano, não consigo entender. Eram sons sem significado, me demonstravam que o mundo das pessoas, dos fatos, das ideias era imenso, e que minhas leituras noturnas não tinham sido suficientes, eu precisava me dedicar ainda mais para poder dizer a Nino, a Galiani, a Carlo, a Armando: sim, eu entendo, eu sei. Todo o planeta está ameaçado. A guerra nuclear. O colonialismo, o neocolonialismo. Os pieds-noirs, a oea e a Frente de Libertação Nacional. O furor dos massacres. O gaullismo, o fascismo. France, Armée, Grandeur, Honneur. Sartre é pessimista, mas conta com as massas operárias comunistas de Paris. O declínio da França, da Itália. Abertura à esquerda. Saragat, Nenni. Fanfani em Londres, Macmillan. O congresso democrata-cristão em nossa cidade. Os fanfanianos, Moro, a esquerda democrata-cristã. Os socialistas acabaram nas garras do poder. Seremos nós, comunistas, nós, com nosso proletariado e nossos parlamentares, que aprovaremos as leis da centro-esquerda. Se as coisas seguirem esse rumo, o partido marxista-leninista se transformará numa socialdemocracia. Viram como Leone se comportou na abertura do ano letivo? Armando balançava a cabeça, desgostoso: não é com planejamento que o mundo se transforma, é preciso sangue, é preciso violência. Nino lhe respondia com calma: o planejamento é um instrumento indispensável. Um debate intenso, Galiani observava os rapazes. Quantas coisas sabiam, dominavam toda a face da terra. A certa altura Nino citou os Estados Unidos com simpatia, pronunciou palavras em inglês como se fosse um inglês. Notei que no intervalo de um ano sua voz engrossara, era espessa, quase rouca, e ele a usava de maneira menos rígida do que quando falara no casamento de Lila e, depois, no colégio. Citou também Beirute como se tivesse estado lá, e Danilo Dolci e Martin Luther King e Bertrand Russell. Mostrou-se favorável à formação do que chamava de Brigada mundial pela paz e rebateu Armando, que tratava dela com sarcasmo. Depois se exaltou, subiu de tom. Ah, como era bonito. Disse que o mundo tinha as capacidades técnicas para eliminar da face da terra o colonialismo, a fome, a guerra. Fiquei escutando arrebatada pela emoção e, mesmo me sentindo perdida entre mil coisas que ignorava — o que eram o gaullismo, a oea, a socialdemocracia, a abertura à esquerda; quem eram Danilo Dolci, Bertrand Russell, os pieds-noirs, os fanfanianos; e o que acontecera em Beirute e na Argélia —, senti a necessidade, como já há tempos, de cuidar dele, de acudi-lo, de protegê-lo, de defendê-lo em cada coisa que fizesse ao longo da vida. Foi o único momento da noite em que senti inveja de Nadia, que estava ao lado dele como uma divindade menor, mas radiante. Depois me ouvi pronunciando frases como se outra pessoa tivesse decidido falar por mim, como se alguém mais seguro, mais informado, tivesse resolvido se expressar por minha boca. Tomei a palavra sem saber o que diria, mas, ouvindo os rapazes, moveram-se em minha cabeça pedaços de frases lidas nos livros e nos jornais de Galiani, e a timidez se tornou menos forte que a vontade de me pronunciar, de mostrar que eu estava ali. Usei o italiano elevado no qual me adestrara fazendo traduções do grego e do latim. Alinhei-me com Nino. Disse que não queria viver em um mundo novamente em guerra. Nós, eu disse, não devemos repetir os erros das gerações que nos precederam. A guerra hoje deve ser travada contra os arsenais atômicos, contra a própria guerra. Se permitirmos o uso dessas armas, todos nos tornaremos muito mais culpados que os nazistas. Ah, como me emocionei ao falar: senti que lágrimas subiam aos meus olhos. Concluí afirmando que o mundo tinha urgência de mudança, que havia tiranos demais escravizando os povos. Mas que tinha de ser mudado pela paz.

Não sei se fui apreciada por todos. Armando me pareceu contrariado, e uma garota loira cujo nome eu não sabia me fixou com um risinho irônico. Mas, já enquanto eu falava, Nino me fez sinais de concordância. E Galiani, quando logo em seguida tomou a palavra, me citou duas vezes e foi emocionante ouvir: “Como justamente disse Elena”. De todo modo, foi Nadia quem fez o gesto mais bonito. Afastou-se de Nino e veio sussurrar em meu ouvido: “Como você é excelente, como é corajosa”. Lila, que estava a meu lado, não deu um pio. No entanto, enquanto a professora ainda falava, ela me deu um puxão e sibilou em dialeto:

“Estou morrendo de sono, você pode perguntar onde fica o telefone e chamar Stefano?”.

 

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