História do novo sobrenome
Capítulo 39
Fiquei tentada a ir até ela, mudei logo de ideia. Devia estar muito nervosa e certamente me trataria mal, o que teria piorado ainda mais as coisas entre nós. Decidi voltar à minha mesa quando Fernando, pai de Lila, apareceu a meu lado e me perguntou timidamente se eu queria dançar.
Não ousei recusar o convite, e dançamos uma valsa em silêncio. Ele me conduziu com firmeza pelo salão, entre casais embriagados, apertando muito minha mão com sua mão suada. A esposa devia tê-lo incumbido da missão de me dizer algo importante, mas ele não teve coragem. Somente no fim da valsa murmurou, tratando-me surpreendentemente com grande formalidade: “Se não for incomodá-la, converse um pouco com Lila. A mãe está preocupada”. Depois acrescentou meio brusco: “Quando precisar de um par de sapatos, me procure, sem cerimônia”, e voltou depressa para a mesa.
Aquela referência a uma espécie de compensação por um eventual apoio meu a Lila me contrariou. Pedi a Alfonso e Marisa que fôssemos embora, o que eles aceitaram de bom grado. Enquanto saíamos do restaurante, senti o olhar de Nunzia sobre mim.
Nos dias seguintes comecei a perder a confiança. Tinha pensado que trabalhar numa livraria significava ter muitos livros à disposição e tempo para ler, mas não era nada disso. O dono me tratava como uma escrava, não tolerava que eu parasse um segundo: me obrigava a carregar caixas, empilhá-las uma sobre as outras, esvaziá-las, pôr em ordem os novos livros, reordenar os velhos, tirar a poeira deles, e ainda me mandava subir e descer uma escada de madeira só para me espiar debaixo da saia. Para piorar, Armando, que naquela visita me pareceu tão amigável, não deu mais as caras. E Nino nunca mais apareceu, nem acompanhado de Nadia, nem sozinho. O interesse deles por mim tinha durado tão pouco? Comecei a sentir a solidão, o tédio. O calor, o cansaço, o desgosto pelos olhares e frases grosseiras do livreiro me deprimiam. As horas passavam lentas. O que eu estava fazendo naquela gruta sem luz, enquanto na calçada desfilavam rapazes e moças rumo ao misterioso edifício da universidade, lugar onde quase certamente eu nunca entraria? Nino, onde estava? Já tinha ido estudar em Ischia? Tinha deixado a revista comigo, com seu artigo, e eu o estudara como para uma sabatina, mas ele voltaria para me sabatinar? Em que eu havia errado? Tinha ficado muito na minha? Esperava que o procurasse e por isso não vinha me ver? Será que devo falar com Alfonso, entrar em contato com Marisa, perguntar sobre o irmão dela? E para quê? Nino tinha uma namorada, Nadia: qual o sentido de perguntar à irmã onde ele estava, o que estava fazendo? Eu bancaria a ridícula.
Dia após dia minguou aquela imagem de mim que inesperadamente se expandira depois da festa, e me senti deprimida. Acordar cedo, correr para Mezzocannone, trabalhar o dia inteiro, voltar para casa exausta, as milhares de palavras da escola comprimidas na cabeça e sem serventia. Fiquei melancólica não só relembrando as conversas com Nino, mas também pensando nos verões no Sea Garden com as filhas da dona da papelaria, com Antonio. Como nossa história acabara estupidamente, ele foi a única pessoa que de fato me amou, não haveria outros. De noite, na cama, recordava o cheiro que emanava de sua pele, os encontros no pântano, nossos beijos e amassos na velha fábrica de tomates.
Estava entristecendo assim quando uma noite, após o jantar, vieram me ver Carmen, Ada e Pasquale, que estava com a mão toda enfaixada porque se ferira num acidente de trabalho. Fomos pegar um sorvete, o tomamos nos jardinzinhos. Carmen me indagou sem preâmbulos, um tanto agressiva, por que eu não aparecia mais na charcutaria. Respondi que estava trabalhando em Mezzocannone e não tinha tempo. Ada acrescentou, meio fria, que quando gostamos de uma pessoa sempre se acha tempo, mas, já que eu era assim, paciência. Perguntei: “Assim como?”. E ela respondeu: “Sem sentimentos, basta ver como tratou meu irmão”. Lembrei-lhe numa reação brusca que tinha sido seu irmão que me deixara, e ela replicou: “É verdade, sorte de quem acredita nisso: há os que deixam e os que se fazem deixar”. Nesse instante Carmen concordou: “Até as amizades”, disse, “parece que terminam por culpa de um e, no entanto, vendo bem, se descobre que é por culpa do outro”. Naquela altura perdi a paciência, esbravejei: “Escutem aqui, se eu e Lina nos afastamos, não foi por minha culpa”. Então Pasquale interveio e disse: “Lenu, não importa de quem é a culpa, o importante é que devemos estar com Lina”. Tirou do baú a história de seus dentes estragados, de como ela o ajudara, falou do dinheiro que continuava dando por baixo do pano a Carmen e de como mandava dinheiro até para Antonio, que, no serviço militar, apesar de eu não estar sabendo e não querer saber, estava passando muito, muito mal. Tentei perguntar com cuidado o que estava acontecendo com meu ex-namorado, e me contaram em tons diversos, uns mais agressivos, outros menos, que ele tivera um ataque de nervos, que estava péssimo, mas que continuava firme, não cedia, acabaria conseguindo superar. Quanto a Lina...
“O que Lila tem?”.
“Querem levá-la a um médico.”
“Quem quer levá-la?”.
“Stefano, Pinuccia, os parentes.”
“Por quê?”.
“Para saber por que ela ficou grávida só uma vez e depois não aconteceu mais nada.”
“E ela?”.
“Dá uma de louca, se recusa a ir.”
Dei de ombros.
“O que é que eu posso fazer?”
Carmen disse:
“Vá com ela, Lenu.”
OceanofPDF.com