História do novo sobrenome

Elena Ferrante · Capítulo 5 de 126

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História do novo sobrenome

Capítulo 4

Nos beijamos sem parar, atrás de uma árvore, no portão de um prédio, em ruelas escuras. Depois pegamos um ônibus, mais outro, e chegamos à estação. Seguimos rumo aos pântanos a pé, continuando a nos beijar pela rua pouco frequentada que margeava a ferrovia.

Eu sentia calor, embora meu vestido fosse leve e o frio da noite cortasse a tepidez da pele com repentinos arrepios. De vez em quando Antonio colava em mim na sombra e me abraçava com tanto ardor que me machucava. Seus lábios queimavam, o calor de sua boca me acendia os pensamentos e a imaginação. Talvez Lila e Stefano, eu me dizia, já estejam no hotel. Talvez estejam jantando. Talvez já tenham se preparado para a noite. Ah, dormir agarrada a um homem, não sentir mais frio. Eu sentia a língua de Antonio se agitando em minha boca e, enquanto me apertava os seios por cima do vestido, eu roçava seu sexo através do bolso da calça.

O céu negro estava manchado de nuvenzinhas iluminadas de estrelas. O cheiro de musgo e terra apodrecida dos pântanos estava cedendo aos odores adocicados da primavera. O capim estava molhado e a água soltava repentinos soluços, como se nela caíssem um fruto, uma pedra, uma rã. Percorremos uma trilha que conhecíamos bem, rumo a um grupo de árvores secas, de troncos finos e galhos quebrados. A poucos metros estava a velha fábrica de conservas, um edifício com o teto desabado, um amontoado de traves de ferro e chapas de metal. Senti em mim uma urgente necessidade de prazer, algo que me puxava desde dentro como uma tira de veludo retesada. Queria que o desejo encontrasse uma satisfação violentíssima, capaz de mandar pelos ares todo aquele dia. Percebia o roçar que acariciava e mordia prazerosamente o fundo do ventre, mais forte que das outras vezes. Antonio me dizia palavras de amor em dialeto, as dizia na boca, no pescoço, com ânsia. Eu me calava, nunca dizia nada naqueles encontros, apenas suspirava.

“Diga que me ama”, suplicou a certa altura.

“Sim.”

“Diga.”

“Sim.”

Não acrescentei mais nada, abracei-o, apertei-o com toda a força que eu tinha. Queria ser acariciada e beijada em cada dobra do corpo, sentia a necessidade de ser triturada, mordida, queria perder o fôlego. Ele me afastou um pouco de si e insinuou uma mão no sutiã, continuando a me beijar. Mas não me bastou, naquela noite era muito pouco. Todos os contatos que tínhamos tido até aquele momento, que ele me impusera com cautela e eu aceitara com a mesma prudência, agora me pareciam insuficientes, incômodos, rápidos demais. Mas eu não sabia como lhe dizer que queria mais, não achava as palavras. Em cada um de nossos encontros secretos celebrávamos um ritual silencioso, passo a passo. Ele me acariciava o seio, levantava minha saia, me tocava entre as coxas, e enquanto isso, como um sinal, me impelia contra a convulsão de pele macia, cartilagens, veias e sangue que vibravam dentro de sua calça. Mas naquela ocasião eu demorei a tirar seu sexo para fora, sabia que assim que o fizesse ele se esqueceria de mim, pararia de me tocar. Os seios, os flancos, o traseiro, o púbis já não o manteriam ocupado, ele se concentraria exclusivamente em minha mão, ou melhor, imediatamente a envolveria na sua para encorajar-me a movê-la no ritmo certo. Depois tiraria o lenço e o deixaria pronto para o momento em que lhe sairia da boca um grunhido abafado e, de seu pau, o líquido perigoso. Então ele se retrairia um tanto atônito, talvez envergonhado, e voltaríamos para casa. Um final costumeiro, mas que agora eu tinha confusamente a urgência de mudar: não me importava ficar grávida sem ter me casado, não me importava com o pecado, com os guardiões divinos aninhados no cosmo acima de nós, com o Espírito Santo ou quem mais fosse, e Antonio sentiu isso e ficou desorientado. Enquanto me beijava com crescente agitação, tentou várias vezes puxar minha mão para baixo, mas eu me esquivei, pressionei o púbis contra os dedos que me tocavam, empurrei mais forte e repetidamente, com suspiros fundos. Então ele tirou a mão e tentou desabotoar as calças.

“Espere”, eu disse.

Arrastei-o para o esqueleto da velha fábrica de conservas. Ali era mais escuro, mais abrigado, mas cheio de ratos, senti seus movimentos ariscos, a correria. Meu coração começou a bater muito forte, eu tinha medo do lugar, de mim, da ânsia que me tomara de apagar de meus modos e de minha voz a sensação de estranhamento que eu descobrira em mim poucas horas antes. Queria voltar a submergir no bairro, ser como tinha sido. Queria acabar com os estudos, com os cadernos cheios de exercícios. De resto, exercitar-me para quê? O que eu podia me tornar fora da sombra de Lila não contava nada. O que eu era diante dela vestida de noiva, dela no conversível, o chapeuzinho azul e o tailleur pastel? O que eu era aqui, com Antonio, às escondidas, entre destroços enferrujados, o rumor dos ratos, a saia erguida sobre as ancas, a calcinha arriada, ansiosa, angustiada e em culpa, enquanto ela se dava nua com lânguido abandono, entre lençóis de linho, num hotel com vista para o mar, e deixava que Stefano a violasse, entrasse dentro dela até o fundo, lhe desse seu sêmen, a engravidasse legitimamente e sem medos? O que eu era enquanto Antonio se debatia entre as calças e me ajeitava entre as pernas, em contato com meu sexo nu, a carne grossa de macho, e me apertava a bunda esfregando-se contra mim, movendo-se para frente e para trás, arquejando. Eu não sabia. Só sabia que não era o que eu queria naquele momento. Não me bastava ser esfregada. Queria ser penetrada, queria dizer a Lila quando voltasse: também não sou mais virgem, o que você faz eu também faço, não vai conseguir me deixar pra trás. Por isso estreitei os braços em volta do pescoço de Antonio e o beijei, pus-me na ponta dos pés, busquei com meu sexo o sexo dele, sem dizer uma palavra, em seguidas tentativas. Ele percebeu e ajudou com uma mão, senti dentro uma ponta procurando entrar, estremeci de medo e curiosidade. Mas também senti o esforço que ele estava fazendo para parar, para impedir-se de empurrar com toda a violência que nutrira durante toda a tarde e que certamente ainda nutria. Está prestes a desistir, me dei conta, e me apertei a ele para convencê-lo a prosseguir. Porém, com um suspiro longo, Antonio me afastou de si e disse em dialeto:

“Não, Lenu, só quero fazer isso como se faz com uma esposa, não assim”.

Agarrou minha mão direita, levou-a ao sexo com uma espécie de soluço abafado, e me resignei a masturbá-lo.

Depois, enquanto saíamos da área dos pântanos, disse constrangido que me respeitava e não queria me fazer algo de que mais tarde eu me arrependesse, não naquele lugar, não daquele modo sujo e apressado. Falou como se ele é que tivesse ousado demais, e talvez acreditasse mesmo nisso. Não pronunciei uma só palavra durante todo o percurso e me despedi dele com alívio. Quando bati na porta de casa, minha mãe abriu e, inutilmente detida por meus irmãos, sem gritar, sem sequer ensaiar uma reprimenda, me encheu de tapas. Meus óculos voaram pelo pavimento e imediatamente lhe gritei com uma alegria áspera, sem sombra de dialeto:

“Está vendo o que você fez? Quebrou meus óculos e agora, por culpa sua, não posso mais estudar, não vou mais ao colégio”.

Minha mãe gelou, até a mão com que me batera ficou imóvel no ar, como a lâmina de um machado. Elisa, minha irmã caçula, recolheu os óculos e disse baixinho:

“Tome, Lenu, eles não quebraram”.

 

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