História do novo sobrenome
Capítulo 32
Insistiram até a exaustão, e aí ela fingiu ceder. Disse a Stefano que desenharia os novos sapatos, na primeira oportunidade disse o mesmo a Michele. Depois disso, convocou Rino e falou exatamente o que ele há tempos esperava escutar.
“Invente você os sapatos, eu não sou capaz. Invente com papai, vocês são do ofício e sabem como fazer. Mas, enquanto não os colocar no mercado e à venda, não diga a ninguém que não fui eu que os desenhei, nem mesmo a Stefano.”
“E se não venderem?”
“Será culpa minha.”
“E se forem bem?”
“Aí eu digo como as coisas se passaram e você receberá os elogios que merece.”
Rino gostou muito daquela mentira. Pôs-se a trabalhar ao lado de Fernando, mas de vez em quando encontrava Lila secretamente para lhe mostrar seus projetos. Ela examinava os modelos e a princípio fazia um ar de admiração, em parte porque não tolerava a cara ansiosa do irmão, em parte para livrar-se logo dele. Mas rapidamente ela mesma se admirou da beleza dos novos sapatos, coerentes com os que já estavam à venda e no entanto reinventados. “Talvez”, me disse um dia com um tom inesperadamente alegre, “eu não tenha de fato projetado aqueles outros, talvez sejam realmente obra de meu irmão.” E naquele momento pareceu ter se livrado de um peso. Redescobriu o afeto por ele, ou melhor, se deu conta de que tinha exagerado nas palavras: aquele laço não podia se romper, nunca se romperia, não importa o que seu irmão fizesse, ainda que de seu corpo saísse um rato, um cavalo enfurecido, qualquer outro animal. A mentira — especulou — tirou de Rino a ansiedade de não saber fazer, e isso o fez voltar a quando era garoto, e agora está descobrindo que tem um verdadeiro ofício, que é competente. Quanto a ele, estava cada vez mais contente com o modo como a irmã elogiava seu trabalho. Ao final de cada consulta, pedia no ouvido dela a chave de casa e, sempre no maior segredo, ia passar uma hora lá com Pinuccia.
De minha parte, tentei mostrar a ela que eu seria sempre sua amiga, e aos domingos a convidava frequentemente para sair. Uma vez fomos até a Mostra d’Oltremare com duas colegas de colégio, que no entanto se intimidaram quando souberam que ela era casada havia mais de um ano e se comportaram como se eu as tivesse obrigado a sair com minha mãe, respeitosas, solenes. Uma delas lhe perguntou, indecisa:
“Você tem filhos?”
Lila fez sinal que não.
A partir daquele momento a noitada foi quase um fiasco.
Em meados de maio a arrastei a um círculo cultural ao qual, só porque Galiani me tinha aconselhado, me senti obrigada a ir escutar um cientista que se chamava Giuseppe Montalenti. Era a primeira vez que passávamos por uma experiência desse tipo: Montalenti dava uma espécie de aula, mas não propriamente para jovens, e sim a pessoas adultas que tinham comparecido especialmente para ouvi-lo. Ficamos ouvindo no fundo da sala espartana e eu logo me entediei. A professora me havia enviado ali, mas ela mesma não dera as caras. Murmurei a Lila: “Vamos embora”. Mas Lila se recusou, me sussurrou que não tinha coragem de se levantar, temia perturbar a conferência: uma preocupação que não era típica dela, mas sinal de um repentino temor ou de um crescente interesse que não queria confessar. Ficamos até o final. Montalenti falou de Darwin, nenhuma de nós sabia quem era. Na saída, brincando, disse a ela:
“Ele disse uma coisa que eu já sabia: você é uma macaca”.
Mas ela não estava para brincadeira:
“Nunca mais vou me esquecer disso”.
“Que você é uma macaca?”
“Que somos todos animais.”
“Eu e você?”
“Todos.”
“Mas ele disse que há muitas diferenças entre nós e os macacos.”
“É mesmo? Quais? Que minha mãe furou minhas orelhas e por isso uso brincos desde o nascimento, enquanto as mães dos macacos não fazem isso e eles não usam brincos?”
A partir daquele momento tivemos um ataque de riso e listamos diferenças daquele tipo, uma atrás da outra, cada vez mais absurdas, e nos divertimos muito. Mas quando voltamos ao bairro nosso bom humor desapareceu. Encontramos Pasquale e Ada passeando pelo estradão e por eles ficamos sabendo que Stefano estava procurando Lila em toda parte, estava muito preocupado. Eu me ofereci para acompanhá-la até em casa, ela recusou. Aceitou, no entanto, que Pasquale e Ada a acompanhassem de carro.
Soube só no dia seguinte por que Stefano a procurava. Não era pelo fato de termos demorado. Não era nem mesmo porque se chateava de a mulher passar o tempo livre comigo, e não com ele. O motivo era outro. Tinha acabado de saber que Pinuccia se encontrara várias vezes com Rino em sua casa. Tinha acabado de saber que os dois se abraçavam em sua própria cama, que Lila dera a chave para eles. Tinha acabado de saber que Pinuccia estava grávida. Mas o que o deixara mais furioso era que, quando tinha dado uma bofetada na irmã pelas safadezas que ela e Rino tinham feito, Pinuccia lhe gritara: “Você está com inveja porque eu sou uma mulher, e Lina não, porque Rino sabe como se faz com as mulheres, e você não”. E como, ao vê-lo todo agitado e ao ouvi-lo — lembrando-se do decoro que ele sempre demonstrara quando eram noivos —, Lila caíra na risada, Stefano, para não matá-la, foi dar um giro de carro. Segundo ela, tinha saído para procurar uma puta.
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