Bioquímica Básica

Anita Marzzoco e Bayardo Baptista Torres · Capítulo 104 de 225

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Bioquímica Básica

14.2 Reações da gliconeogênese

Músculos esqueléticos e + + +

cardíaco

Córtex renal + + +

*O cérebro, no jejum prolongado, torna-se capaz de oxidar corpos cetônicos.

 

Figura 14.1 Relação entre diferentes órgãos na gliconeogênese — esta via ocorre no fígado e nos rins, a partir de substratos produzidos pelo músculo: alanina e glutamina no jejum e lactato no esforço intenso; o lactato origina-se, ainda, de hemácias e outras células. A maior parte da glicose sintetizada destina-se ao cérebro.

 

14.2 Reações da gliconeogênese

A gliconeogênese utiliza as reações reversíveis da glicólise e substitui por

outras as reações irreversíveis

A transformação de alanina e lactato em glicose inicia-se por sua conversão a piruvato, por ação, respectivamente, da alanina

aminotransferase (Seção 17.2.1) e da lactato desidrogenase (Seção 9.2.1). A glutamina é inicialmente convertida em α-cetoglutarato por meio das reações catalisadas por glutaminase e glutamato desidrogenase; a aspartato

aminotransferase transforma α-cetoglutarato em oxaloacetato (Seção

17.2.1).

A conversão de piruvato em glicose pela gliconeogênese processa-se no

sentido oposto ao da glicólise (Figura 9.5, Seção 9.2), utilizando quase todas as suas enzimas, com exceção daquelas que catalisam reações irreversíveis: piruvato quinase, fosfofrutoquinase 1 e glicoquinase. Estas reações são substituídas por outras reações, catalisadas, naturalmente, por outras enzimas. As três etapas em que a gliconeogênese difere da glicólise são analisadas a seguir.

Etapa 1. Conversão de piruvato a fosfoenolpiruvato.

A reação catalisada pela piruvato quinase (Fosfoenolpiruvato + ADP → Piruvato + ATP) → substituída por duas reações, catalisadas pela piruvato carboxilase (1) e pela fosfoenolpiruvato carboxiquinase (2):

 

Para ser utilizado como substrato da piruvato carboxilase, uma enzima mitocondrial, o piruvato produzido no citosol entra na mitocôndria por ação da piruvato translocase. A piruvato carboxilase contém biotina (vitamina B7), como grupo prostético. A biotina combina-se com CO2 à custa de ATP

e promove a carboxilação do piruvato, produzindo oxaloacetato (Figura

14.2).

Figura 14.2 Carboxilação de piruvato formando oxaloacetato: o ATP é consumido na carboxilação da biotina, que transfere o grupo – COO – para o piruvato.

 

O oxaloacetato passa para o citosol pela lançadeira do malato-aspartato e, por ação da fosfoenolpiruvato carboxiquinase, é convertido a fosfoenolpiruvato, por descarboxilação e fosforilação à custa de GTP

(Figura 14.3). Em alguns organismos, como os seres humanos, a fosfoenolpiruvato carboxiquinase localiza-se também na mitocôndria — o fosfoenolpiruvato formado na organela é transportado para o citosol pela

tricarboxilato translocase (Seção 11.9).

Figura 14.3 A conversão de piruvato a fosfoenolpiruvato compreende o transporte de piruvato para a mitocôndria, sua carboxilação a oxaloacetato, a transferência de oxaloacetato para o citosol e a transformação deste composto em fosfoenolpiruvato. As setas tracejadas indicam transporte por translocases.

 

O fosfoenolpiruvato produzido nesta etapa é transformado em frutose 1,6-bisfosfato pelas enzimas que também compõem a glicólise, que, como catalisam reações reversíveis, podem operar a via no sentido inverso.

Etapa 2. Conversão de frutose 1,6-bisfosfato a frutose 6-fosfato.

Em substituição à reação irreversível catalisada pela fosfofrutoquinase 1, ocorre uma reação de hidrólise do grupo fosfato do carbono 1, catalisada pela frutose 1,6-bisfosfatase.

 

Frutose 1,6-bisfosfato + H 2O → Frutose 6-fosfato + Pi

 

A frutose 6-fosfato pode ser isomerizada a glicose 6-fosfato pela fosfoglicoisomerase.

Etapa 3. Conversão de glicose 6-fosfato a glicose.

Para contornar a irreversibilidade da reação catalisada pela glicoquinase, esta reação é trocada pela hidrólise do grupo fosfato ligado ao carbono 6, catalisada pela glicose 6-fosfatase.

 

Glicose 6-fosfato + H O → Glicose + P 2i

 

A glicose, diferentemente da glicose fosforilada, pode ser transportada

através da membrana plasmática (Seção 19.6.3) e ser liberada na circulação.