Bioquímica Básica

Anita Marzzoco e Bayardo Baptista Torres · Capítulo 118 de 225

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Bioquímica Básica

16.1 Degradação de triacilgliceróis

contraposição ao tecido adiposo marrom, tratado na Seção 11.5). Os triacilgliceróis são acumulados no citosol do adipócito branco como uma única grande gota, que pode ocupar mais de 95% do volume celular. A porção restante da célula, embora pequena, desempenha funções essenciais — o tecido adiposo branco, que por muito tempo foi considerado apenas como uma reserva de energia, é hoje reconhecido como um órgão endócrino ativo. Ele sintetiza uma série de hormônios peptídicos (adipocinas), que incluem leptina, adiponectina, resistina etc. A secreção destes peptídios é alterada sempre que a massa do tecido adiposo branco (a ser referido como tecido adiposo) sofre variações, seja por aumento ou redução. O tecido adiposo está claramente envolvido na etiopatogenia, tanto da obesidade quanto da caquexia, além do diabetes e das doenças cardiovasculares.

A utilização do depósito de triacilgliceróis pelo organismo e a sua reconstrução processam-se por vias metabólicas diferentes, localizadas em compartimentos celulares diferentes e, obviamente, submetidas a regulações

antagônicas (Seção 20.7).

 

16.1 Degradação de triacilgliceróis

Durante mais de quatro décadas, conhecia-se uma única enzima capaz de promover a mobilização do depósito de triacilgliceróis do tecido adiposo de mamíferos, a lipase hormônio-sensível. A partir de 2004, ficou evidenciado que a hidrólise completa do triacilglicerol em ácidos graxos e glicerol (lipólise) resulta da ação de três enzimas principais. Primeiramente, a lipase de triacilgliceróis do adiposo (ATGL, de Adipose Triglyceride Lipase) catalisa a hidrólise do triacilglicerol em ácido graxo e diacilglicerol; em seguida, a lipase hormônio-sensível (HSL) remove outro ácido graxo do diacilglicerol, que se converte em monoacilglicerol; finalmente, a monoacilglicerol lipase (MAGL) atua, formando glicerol e ácido graxo. O esquema a seguir mostra a hidrólise genérica de um triacilglicerol.

A lipólise nos adipócitos depende da interação das enzimas com a gota de triacilgliceróis. A gota é delimitada por uma monocamada de fosfolipídios e colesterol, à superfície da qual se associam numerosas proteínas, da família das perilipinas. Elas medeiam a fixação das lipases na periferia da gota e o acesso a seus substratos, além de regularem a sua

atividade (Seção 20.7). A gota de triacilgliceróis constitui uma organela dinâmica, cuja estrutura sofre alterações frente a situações fisiológicas diferentes. A lipólise é ativada durante períodos de aumento da demanda de energia por ação hormonal.

Os produtos da hidrólise de triacilgliceróis são oxidados por processos distintos.

O glicerol é pouco reaproveitado pelos adipócitos, que têm baixos níveis de glicerol quinase, sendo então liberado na circulação. Em outros tecidos, como fígado e rins, por ação desta quinase, é convertido a glicerol 3-fosfato, que pode ser transformado em di-hidroxiacetona fosfato, um intermediário da glicólise ou da gliconeogênese.

 

Os ácidos graxos liberados dos adipócitos são transportados pelo sangue ligados à albumina e utilizados como fonte de energia pelos tecidos, incluindo fígado e músculos; o tecido nervoso e as hemácias são exceções, porque obtêm energia exclusivamente a partir da degradação de glicose (o sistema nervoso, no jejum prolongado, passa a utilizar corpos cetônicos —

Seção 21.3).