Bioquímica Básica
18.4 Micronutrientes
O marasmo é causado por deficiência proteica associada à deficiência calórica; é ainda mais comum que o kwashiorkor e distingue-se dele por uma diminuição ainda mais acentuada de peso, acompanhada por redução extrema da musculatura e ausência de edema. A deficiência generalizada de nutrientes, inclusive carboidratos, resulta em hipoglicemia crônica, que determina uma razão insulina/glucagon baixa. Os processos degradativos são estimulados: as proteínas musculares são consumidas lentamente, levando a um balanço negativo de nitrogênio. A intensa mobilização de proteínas tissulares seria responsável pela manutenção dos níveis séricos de albumina compatíveis com a ausência de edema.
Marasmo e kwashiorkor nem sempre são síndromes inteiramente distinguíveis, pois encontra-se toda a sorte de condições intermediárias. Além disso, as deficiências proteico-calóricas estão quase sempre associadas a deficiências de vitaminas e minerais, agravando o quadro.
18.4 Micronutrientes
Vitaminas e íons inorgânicos são fatores essenciais da dieta
Além dos macronutrientes — carboidratos, lipídios e proteínas — os seres humanos dependem da ingestão de pequenas quantidades de vitaminas e íons inorgânicos, conjuntamente denominados micronutrientes.
As vitaminas não são estocadas em níveis apreciáveis, devendo, portanto, ser supridas continuamente pela dieta. São classificadas em dois grandes grupos, segundo suas características de solubilidade.
As vitaminas hidrossolúveis incluem as vitaminas do complexo B
(Tabela 5.13, Seção 5.9) e a vitamina C; são componentes de coenzimas, cuja atuação nas reações do metabolismo tem sido analisada ao longo deste texto. Eventuais excessos de vitaminas hidrossolúveis são excretados na urina e raramente provocam efeitos colaterais.
As vitaminas lipossolúveis — A, D, E e K — são eliminadas mais lentamente e a ingestão aumentada pode ocasionar efeitos danosos, particularmente no caso das vitaminas A e D. Ao contrário das hidrossolúveis, apresentam uma semelhança estrutural, por serem derivadas do isopreno. Ocorrem em alimentos de origem vegetal, incluindo óleos, ou alimentos animais ricos em gordura; são absorvidas no intestino delgado juntamente com os lipídios e, como estes, incorporadas em quilomícrons. Estão implicadas em processos fisiológicos bastante variados.
A vitamina A, obtida principalmente a partir de carotenoides vegetais, está envolvida nas reações da visão e no crescimento e diferenciação celular; devido a esta última ação, o ácido retinoico, uma das formas da vitamina A, tem sido utilizado para estimular a renovação da epiderme. Compostos precursores da vitamina D, presentes nos alimentos ou na pele de animais (como o 7-deidro-colesterol, um derivado do colesterol), são convertidos por radiação ultravioleta em formas inativas da vitamina, que, após sofrerem modificações enzimáticas no fígado e rim, passam a exibir atividade de hormônios reguladores do metabolismo de cálcio e fosfato; diversas outras funções da vitamina D têm sido descritas e sua deficiência, relacionada com o desenvolvimento de síndrome metabólica.
A vitamina E localiza-se, predominantemente, na bicamada lipídica de membranas celulares e na monocamada lipídica de lipoproteínas plasmáticas. Sua função principal é evitar que os ácidos graxos insaturados constituintes dessas estruturas sejam oxidados por radicais livres. Além da vitamina E, os carotenoides e as vitaminas A e C também agem como antioxidantes, bloqueando a ação lesiva de radicais livres sobre as estruturas celulares. Estudos populacionais têm mostrado uma correlação significativa entre a incidência de câncer e doenças cardiovasculares, e o baixo consumo de vitaminas antioxidantes e selênio. Por enquanto, não existe uma indicação explícita de suplementação de antioxidantes, recomendando-se, apenas, a ingestão de alimentos que os contenham em níveis significativos.
A vitamina K participa como cofator de reações de carboxilação de resíduos de glutamato de várias proteínas, dentre as quais os fatores responsáveis pela coagulação sanguínea.
Os íons, também chamados de nutrientes inorgânicos ou minerais, além de atuarem como cofatores enzimáticos, participam de inúmeros processos importantes; são responsáveis, ainda, pela dureza de certas estruturas, como ossos e dentes. O número de minerais que são indispensáveis para a manutenção de um estado saudável é muito grande. Alguns, como Ca2+, fosfato, Na+, K+, Mg2+, Fe2+ etc., são necessários em quantidades da ordem de miligramas ou gramas, enquanto, para outros, bastam algumas dezenas de microgramas. Dentre estes, encontra-se o selênio, que é cofator de diversas enzimas, por exemplo, a glutationa peroxidase, responsável pela dissipação de peróxidos; assim, o selênio, além das vitaminas citadas, participa do sistema antioxidante do organismo.