Bioquímica Básica
5.5 A equação de Michaelis-Menten
em tentativas subsequentes. (3)Índice de purificação: razão entre a atividade específica da etapa considerada e a atividade específica do extrato celular.
5.5 A equação de Michaelis-Menten
A descrição matemática dos fenômenos cinéticos da catálise enzimática é dada pela equação de Michaelis-Menten. Para deduzi-la, será considerada a reação reversível:
Considerando os tempos iniciais de reação, a velocidade de formação de ES a partir de E + P
v–2 = k –2 [E] [P]
pode ser desprezada, pois, como a concentração inicial de P é insignificante em relação a S, o produto não conseguirá ligar-se à enzima, já que a probabilidade de ligação do substrato é muito maior. A própria equação desta velocidade mostra que, quando a concentração de P é próxima de zero, a velocidade v também tende a zero. –2
A velocidade de formação de ES é apenas:
v 1 = k1 [E] [S]
[E] é a concentração de enzima livre, isto é, a diferença entre a concentração adicionada de enzima (ou seja, sua concentração total = E ) e a t concentração de ES (ou seja, a quantidade de enzima ligada ao substrato). Substituindo este valor de [E] na equação de v 1:
v 1 = k1 ([E t] – [ES]) [S]
A velocidade de desaparecimento de ES será a soma de duas velocidades: aquela que dissocia ES em E + S (v ) e aquela que transforma –1
ES em E + P (v2):
v = k [ES] –1 –1
v2 = k 2[ES]
Assim, a velocidade de desaparecimento de ES será:
v + v = k [ES] + k [ES] –1 2 –1 2
v–1 + v2 = (k –1 + k2) [ES]
Durante os tempos iniciais de reação, a concentração de ES mantém-se constante, com o estabelecimento de um equilíbrio estacionário (steady-state). As velocidades de formação (v ) e de desaparecimento (v + v ) de 1 –1 2 ES são, então, iguais.
A velocidade inicial da reação total é a velocidade do aparecimento do produto:
v 0 = k2 [ES]
Substituindo, nesta equação, o valor de [ES] da equação (A):
Como a velocidade máxima (Vmáx) é obtida quando toda a enzima (Et) se encontra sob a forma de ES, o produto k 2 [Et] é a velocidade máxima e
A relação (k + k )/k foi definida por Michaelis e Menten como uma –1 2 1
nova constante, KM. Chega-se assim à expressão final da equação de Michaelis-Menten:
Quando a concentração de substrato é tal que a velocidade de reação é
metade da velocidade máxima (ponto B da Figura 5.7), resulta:
A última igualdade indica que a constante de Michaelis-Menten é numericamente igual à concentração de substrato que determina a metade da velocidade máxima, o que permite a determinação experimental desta
constante (Figura 5.7). O valor do KM indica o grau de afinidade da enzima
pelo substrato, como exemplificado pela hexoquinase (Tabela 5.9).
Tabela 5.9 Constante de Michaelis-Menten de enzimas.
Enzima Substrato K (mM) M
Glicerol desidrogenase Glicerol 39
Anidrase carbônica CO 7,5 2
Álcool desidrogenase Etanol 0,5
Isocitrato desidrogenase Isocitrato 0,45
Hexoquinase Glicose 0,15
Hexoquinase Frutose 1,5
A velocidade da reação só é diretamente proporcional a baixas concentrações
de substrato
Quando a concentração do substrato é muito inferior ao KM, KM + [S] é praticamente igual a K , e a equação de Michaelis-Menten se reduz a: M
Como é uma constante, é possível escrever
v 0 = K [S]
uma equação de reta do tipo y = ax. Esta equação mostra que, com concentrações pequenas de substrato, a velocidade de reação é diretamente proporcional à concentração do substrato (região do ponto A no gráfico da
Figura 5.7).
Por outro lado, quando a concentração de S é muito maior do que K M
(região do ponto C da Figura 5.7), KM + [S] é praticamente igual a [S] e a equação de Michaelis-Menten fica igual a
v0 = Vmáx
indicando que, quando a concentração de substrato é muito alta (saturante), a velocidade é constante e máxima, independendo da concentração de substrato. Na prática, é muito difícil atingir a V ; ainda assim, há recursos máx
matemáticos que permitem determinar seu valor.
Um grá co com os valores inversos de v e [S] possibilita a determinação de 0
V máx e KM
A equação de Michaelis-Menten é a equação de uma hipérbole retangular; portanto, os valores exatos de V máx nunca são atingidos, pois a curva tem assíntota no valor V do eixo v . Mesmo aproximações de V máx 0máx seriam obtidas com concentrações tão altas de substrato, que são difíceis de conseguir experimentalmente. Como consequência, a determinação de K M também é impossibilitada.
O problema da determinação de V e K pode ser resolvido a partir da máx M transformação algébrica da equação de Michaelis-Menten. Esta transformação, formulada por Lineweaver e Burk, é obtida tomando o inverso daquela equação:
ou
que é uma equação de reta do tipo y = ax + b.
Um gráfico com os valores de contra valores de é uma reta cujo
intersepto nas ordenadas é e, nas abscissas, (Figura 5.10).
Figura 5.10 Transformação de Lineweaver-Burk para os resultados de um experimento onde foram preparados tubos contendo diversas concentrações de substrato e a mesma concentração de enzima; após a incubação, mediu-se v0. Os inversos dos valores das concentrações de substrato utilizadas e os inversos dos valores de v compõem uma reta (linha contínua), que, 0
extrapolada (linha pontilhada), permite a determinação dos valores de KM e de V . máx
Este gráfico permite aferir Vmáx sem que seja atingido, na prática, o ponto que equivaleria a esta velocidade, já que a reta pode ser traçada a partir de pontos experimentais conseguidos com concentrações não saturantes de substrato. Prolongando-se a reta, encontra-se o valor do inverso de V no intercepto com o eixo das ordenadas e o valor negativo máx
do inverso de K M, na intersecção com o eixo das abscissas.
Algumas enzimas estão próximas da perfeição catalítica
Para estudar a eficiência da catálise enzimática, define-se a constante catalítica, kcat:
A constante catalítica mede, para uma dada concentração de enzima, a eficiência máxima, obtida em condições de Vmáx, quando todas as enzimas estão complexadas com o substrato. Como V é igual ao produto k [Et], máx 2 k cat é igual a k2:
k é também conhecida como número de renovação (turnover number) cat
da enzima, porque equivale ao número máximo de moléculas de substrato que um centro ativo converte em produto, por segundo. O valor de k cat indica a rapidez com que uma enzima pode operar, quando todos os centros ativos estão ocupados, ou seja, evidencia com que eficiência o complexo
enzima substrato origina produto (Tabela 5.10). A eficiência é espantosa: pelo valor de k para a catalase, verifica-se que uma molécula desta enzima cat
é capaz de originar 10.000.000 de moléculas de produto por segundo!
Se ao valor de kcat for associado o valor de KM, pode-se definir uma nova constante k /K , que relaciona a eficiência catalítica da enzima com a cat M
sua afinidade pelo substrato. Um baixo valor de kcat/KM ocorrerá ou porque a enzima tem pouca afinidade pelo substrato (K grande), ou porque a M eficiência de gerar produto a partir de ES é pequena (k cat pequeno), ou pelas duas razões somadas. Por outro lado, os maiores valores desta relação serão obtidos satisfazendo simultaneamente duas condições: alta afinidade da enzima pelo substrato (K pequeno) e alta eficiência na transformação de M
ES em produto (kcat grande). Na Tabela 5.10 aparecem os valores da razão k cat/KM para várias enzimas. Esta razão para as enzimas mais eficientes aproxima-se muito dos valores do coeficiente de difusão, ou seja, da frequência de colisão entre enzima e substrato por difusão simples (108-109 M–1• s–1). Isto significa que estas enzimas catalisam a reação com uma eficiência próxima da perfeição: geram produto cada vez que colidem com o substrato. São enzimas que catalisam reações de grande importância para a fisiologia celular, seja na transmissão do impulso nervoso (acetilcolinesterase), na remoção de CO2 dos tecidos (anidrase carbônica) ou na eliminação de radicais livres de oxigênio (catalase e superóxido dismutase); comparativamente, a pepsina, uma enzima digestiva, é muito poucoeficiente.