Bioquímica Básica

Anita Marzzoco e Bayardo Baptista Torres · Capítulo 141 de 225

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Bioquímica Básica

18.2 Ingestão calórica

Os ruminantes constituem uma exceção entre os mamíferos, no que concerne à ingestão proteica, porque podem sobreviver à custa de vegetais (pastagem). Nestes animais, a maior parte da ureia produzida é transferida do sangue para o rúmen. Esta parte do sistema digestivo é habitada por microrganismos que utilizam a ureia como fonte de nitrogênio para sintetizar aminoácidos. A digestão de grande parte destas bactérias em porções distais do trato gastrointestinal satisfaz as necessidades proteicas dos ruminantes.

Outro fator que interfere nas doses mínimas recomendadas de proteína é o suprimento energético da dieta sob a forma de carboidratos e lipídios: sua ingestão concomitante reduz a utilização de proteínas como fonte de energia.

 

18.2 Ingestão calórica

 

18.2.1 Dispêndio de energia

Embora uma fração (10 a 15%) dos aminoácidos constituintes das proteínas da dieta seja sempre oxidada, a maior parte destina-se a servir como precursores para a síntese das proteínas características do organismo e demais compostos nitrogenados. Com os carboidratos e lipídios passa-se o oposto: destinam-se, em geral, a serem oxidados e, deste modo, fornecer

energia para os processos vitais. A necessidade energética2 de um indivíduo é composta de uma parte constante, que atende os gastos inevitáveis (metabolismo basal), e uma parte variável.

A taxa metabólica basal é a quantidade de energia necessária para a manutenção dos processos vitais básicos: atividade metabólica das células, trabalho osmótico, bombeamento do sangue, respiração, atividade renal, do sistema nervoso etc. O transporte ativo através das membranas celulares e o funcionamento do sistema nervoso central consomem mais de 50% dos gastos energéticos basais. A taxa metabólica basal é medida pela produção de calor ou pelo oxigênio consumido por um sujeito em repouso e acordado, 12 horas após a última refeição. É proporcional à área de superfície corpórea, mais diretamente à massa magra (músculos, ossos e vísceras, ou o peso corpóreo menos o peso da massa adiposa); é também relacionada com idade e sexo. Corresponde, em média, a 1.800 kcal/dia (7.530 kJ) para homens e 1.400 kcal/dia (5.850 kJ) para mulheres. O consumo de energia por minuto gira em torno de 1 kcal, um pouco menos do que isto para mulheres e um pouco mais, para homens — 1 kcal/min corresponde, aproximadamente, ao calor liberado por uma vela ou por uma lâmpada de 75 watts acesas.

A variável que mais interfere no consumo energético é a intensidade da atividade física: entre o repouso e o exercício intenso, o dispêndio de energia pode aumentar em até dez vezes. O gasto total de energia é a soma da taxa metabólica basal e da energia gasta nas diferentes atividades diárias

(Tabela 18.4).

 

Tabela 18.4 Consumo de energia por um homem adulto durante diferentes

atividades.

Tipo de atividade kcal/h kJ/h

Muito leves: ler, escrever, ver TV 110 460

Leves: dirigir, andar devagar, lavar louça 220 920

Moderadas: andar depressa, dançar, andar de bicicleta 370 1.550

Intensas: nadar, correr, jogar futebol ou basquetebol 580 2.430

 

As doses recomendadas de ingestão calórica, ao contrário das quantidades de proteína, não apresentam valores constantes por quilo de peso. São estabelecidas como o menor valor compatível com a manutenção da saúde e um grau apropriado de atividade física, considerando-se o sexo e a faixa etária; para mulheres grávidas ou lactantes, são acrescidas das necessidades energéticas associadas com a formação de tecidos ou secreção

do leite (Tabela 18.5). À semelhança do equilíbrio nitrogenado, deve haver um equilíbrio energético: a ingestão calórica deve contrabalançar o gasto de energia de modo a manter um peso corpóreo constante. Uma ingestão calórica insuficiente leva a um balanço energético negativo: a mobilização das reservas de lipídios provoca perda de peso. Por outro lado, dietas hipercalóricas resultam em ganho de peso, por aumento do depósito de gordura.