Bioquímica Básica

Anita Marzzoco e Bayardo Baptista Torres · Capítulo 55 de 225

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Bioquímica Básica

6.2.7 Transporte de lipídios — Lipoproteínas plasmáticas

Nos fosfolipídios — glicerofosfolipídios e esfingomielinas — a porção hidrofílica é composta pelo grupo fosfato, que apresenta carga negativa em pH fisiológico, e seus substituintes, também polares, que podem ter carga positiva (colina e etanolamina), carga positiva e negativa (serina) ou não

apresentar carga (inositol) (Figuras 6.11 e 6.12). Os glicolipídios — cerebrosídios e gangliosídios — contêm açúcares hidrofílicos, que podem não apresentar carga (glicose e galactose) ou apresentar carga positiva

devido à presença de grupos amino (Figura 6.12).

A região hidrofóbica dos glicerofosfolipídios e esfingolipídios é representada pelas cadeias de hidrocarboneto dos ácidos graxos e da esfingosina.

A molécula do colesterol exibe um caráter fracamente anfipático, porque o grupo hidroxila é polar e o restante da molécula — os anéis

esteroídicos e a cadeia lateral alifática — é apolar (Figura 6.13).

Os lipídios anfipáticos, principalmente os fosfolipídios, são elementos estruturais importantes das membranas biológicas (Capítulo 7). O colesterol, por apresentar um sistema de anéis que compõem um plano rígido, interfere na fluidez das membranas celulares.

 

6.2.7 Transporte de lipídios — Lipoproteínas plasmáticas

Os lipídios, insolúveis em meio aquoso, são transportados pelo sistema circulatório dos organismos pluricelulares em agregados moleculares hidrossolúveis (o transporte de lipídios através de membranas encontra-se

na Seção 7.4.2). Nos seres humanos, os lipídios apolares associam-se a lipídios anfipáticos e proteínas, formando as lipoproteínas plasmáticas. Já os ácidos graxos são mobilizados ligados à albumina sérica; apenas uma fração pequena de ácidos graxos é transportada pelas lipoproteínas plasmáticas na forma de ésteres de colesterol. A associação a moléculas polares viabiliza a distribuição aos tecidos dos lipídios provenientes da dieta e absorvidos no intestino, e daqueles sintetizados endogenamente, sobretudo no fígado.

As lipoproteínas plasmáticas (Figura 6.14) são partículas esféricas com um núcleo central de lipídios apolares (ésteres de colesterol e triacilgliceróis), circundado por uma monocamada de lipídios anfipáticos (fosfolipídios e colesterol), à qual estão associadas moléculas de proteína.

Estas proteínas são denominadas conjuntamente de apolipoproteínas4 e classificadas em A, B, C, D, E, cada classe contendo vários subtipos. Além de elementos estruturais importantes que atribuem polaridade às lipoproteínas, atuam como ativadoras de enzimas que participam do metabolismo dessas partículas e constituem os ligantes dos receptores de lipoproteínas, situados na superfície celular dos tecidos.

 

Figura 6.14 Esquema geral das lipoproteínas plasmáticas. O modelo aplica-se a todas as classes de lipoproteínas, lembrando que elas diferem

quanto à proporção entre os lipídios transportados (Tabela 6.3) e quanto ao tipo de apolipoproteína associada à monocamada periférica. (Adaptada de Lieberman M, Marks AD: Mark’s Basic Medical Biochemistry — A Clinical Approach, 4th ed. Lippincott Wiliams & Wilkins, 2013, p. 590 — Fig. 32.8.)

As lipoproteínas plasmáticas são classificadas segundo a sua densidade,

que é tanto menor quanto maior for o seu teor de lipídios (Tabela 6.3). O diâmetro das lipoproteínas decresce de 103 nm nos quilomícrons até 10 nm nas HDL. A composição dessas partículas sofre modificações contínuas, devido à troca de moléculas de lipídios e de apolipoproteínas, por meio de processos ainda não totalmente elucidados. Segue-se uma descrição sucinta das principais classes de lipoproteínas.

 

Tabela 6.3 Composição das lipoproteínas plasmáticas.

Porcentagem dos lipídios totais

Ésteres

Densidade Proteínas Lipídios de

Lipoproteína – 3 (g • cm) (%) (%) Fosfolipídios Colesterol Triacilgliceróis colesterol

Quilomícrons 0,90 2 98 8 2 87 4

VLDL 0,98 8 93 18 8 58 13

IDL 1,01 17 83 24 9 30 28

LDL 1,04 22 78 22 9 10 42

HDL 1,14 48 53 33 7 8 21

Os dados apresentados são os valores médios de indivíduos normais. As apolipoproteínas foram omitidas.

Os quilomícrons são sintetizados na mucosa intestinal a partir dos lipídios da dieta, que, desta forma, são transportados aos tecidos; são especialmente ricos em triacilgliceróis.

As VLDL (Very Low Density Lipoproteins) têm origem hepática e transportam triacilgliceróis e colesterol para os outros tecidos; originam as IDL (Intermediate Density Lipoproteins) e as LDL (Low Density Lipoproteins), ricas em colesterol, predominantemente na forma de ésteres de colesterol. As LDL são a principal fonte de colesterol para os tecidos, exceto fígado e intestinos; elas penetram nas células através de endocitose

(Seção 7.4.2).