Introdução à Genética
Seleção de traços complexos
Nosso tópico final a respeito da herdabilidade no sentido restrito é a aplicação da seleção a longo prazo para melhorar o desempenho de uma população em relação a um traço complexo. Ao aplicar a seleção, agricultores ao longo dos últimos 10.000 anos transformaram um grande número de espécies de plantas selvagens no notável arranjo de cultivos de frutas, vegetais, cereais e especiarias de que desfrutamos atualmente. De modo semelhante, criadores de animais aplicaram a seleção para domesticar muitas espécies selvagens, transformando lobos em cães, aves selvagens em galinhas e javalis em porcos.
A seleção é um processo por meio do qual apenas os indivíduos com determinadas
características contribuem para o pool gênico que forma a próxima geração (ver Capítulos 18 e
20). A seleção aplicada pelos seres humanos para melhorar um cultivo ou rebanho é denominada seleção artificial, para distingui-la da seleção natural. Vejamos um exemplo de como a seleção artificial atua.
A provitamina A é um precursor na biossíntese da vitamina A, um nutriente importante para
olhos saudáveis e um sistema imune com bom funcionamento. Produtos vegetais são uma fonte importante de provitamina A para os seres humanos; entretanto, pessoas em muitas áreas do globo têm muito pouca provitamina A em suas dietas. Para solucionar esse problema, um agricultor busca aumentar o conteúdo de provitamina A de uma população de milho utilizada em partes da América Latina nas quais a deficiência de vitamina A é comum. Atualmente, essa população produz 1,25 μg de provitamina A por grama de grãos de milho. A variância em
relação à população é de 0,06 μg² (Figura 19.9). Para melhorar a população, o agricultor seleciona um grupo de plantas que produz 1,5 μg ou mais de provitamina A por grama de grãos de milho. A média em relação ao grupo selecionado é de 1,63 μg. O agricultor cruza aleatoriamente as plantas selecionadas e cultiva a descendência para produzir a próxima geração, que apresenta média de 1,44 μg por grama de grãos de milho.
Se a herdabilidade no sentido restrito de um traço não é conhecida antes da realização de um
experimento de seleção artificial, os resultados de tais experimentos podem ser utilizados para estimá-la. Aqui está um exemplo com a utilização do caso da provitamina A no milho. Iniciaremos com a equação anterior:
FIGURA 19.9 Distribuição dos valores de traço em relação à provitamina A em grãos de milho em uma população inicial (A) e na população de descendentes (B) após uma geração de seleção. A população inicial apresentava uma média de 1,25 μg/g, os indivíduos selecionados, uma média de 1,63 μg/g e a população de descendentes, uma média de 1,44 μg/g.
e a reescreveremos como:
–xp é o desvio médio dos genitores (as plantas selecionadas) da média da população. Esse é conhecido como o diferencial de seleção (S), a diferença entre a média do grupo selecionado e aquela da população de base. Em relação ao nosso exemplo:
–xp = 1,63 – 1,25 = 0,38
–x0 é o desvio médio da descendência da média da população. Essa é conhecida como a resposta à seleção (R), a diferença entre a média da descendência e aquela da população original. Em relação ao nosso exemplo:
–x0 = 1,44 – 1,25 = 0,19