Um Curso de Cálculo, Volume 1
3.2 Definição de Função Contínua
Sejam f e g funções de gráficos
Observe que f e g se comportam de modo diferente em p; o gráfico de f não
apresenta “salto” em p, ao passo que o de g, sim. Queremos destacar uma propriedade que nos permita distinguir tais comportamentos.
Veja as situações apresentadas a seguir.
A função f satisfaz em p a propriedade
para todo ε > 0 dado, existe δ > 0 (δ dependendo de ε), tal que f(x) permanece entre f(p) – ε e f(p)
+ ε quando x percorre o intervalo ]p – δ, p + δ[, com x no domínio de f.
ou de forma equivalente
①
para todo ε > 0 dado, existe δ > 0 (δ dependendo de ε), tal que, para todo x ∊ D , f
p – δ < x < p + δ ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Entretanto, a função g não satisfaz em p tal propriedade:
para o ε > 0 acima, não existe δ > 0 que torne verdadeira a afirmação
Qualquer que seja o δ > 0 que se tome, quando x percorre o intervalo ]p – δ,
p + δ[, g(x) não permanece entre g(p) – ε e g(p) + ε.
A propriedade ① distingue os comportamentos de f e de g em p.
Adotaremos a propriedade ① como definição de função contínua em p.
De nição. Sejam f uma função e p um ponto de seu domínio D . De nimos: f
Observação. Sabemos que
e
A definição anterior pode, então, ser reescrita, em notação de módulo, na
seguinte forma:
Dizemos que f é contínua em A ⊂ D se f for contínua em todo p ∊ A. f
Dizemos, simplesmente, que f é uma função contínua se f for contínua em todo p de seu domínio.
Exemplo 1
Prove que f(x) = 2x + 1 é contínua em p = 1.
Solução
Precisamos provar que, para cada ε > 0 dado, conseguiremos um δ > 0 (δ
dependendo apenas de ε), tal que
1 – δ < x < 1 + δ ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
O ε > 0 é dado, queremos achar δ > 0. Devemos determinar δ > 0 de
modo que f(x) permaneça entre f(1) – ε e f(1) + ε para x entre 1 – δ e 1 +
δ. Vamos então resolver a inequação
f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Temos
f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε ⇔ 3 – ε < 2x + 1 < 3 + ε.
Somando –1 aos membros das desigualdades e dividindo por 2, resulta
Então, dado ε > 0 e tomando-se (qualquer δ > 0 com
também serve!), resulta
1 – δ < x < 1 + δ ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Logo, f é contínua em p = 1.
O exemplo acima pode também ser resolvido em notação de módulo.
Neste caso, precisamos provar que dado ε > 0, existe δ > 0 tal que
Temos
Assim, dado ε > 0 e tomando-se
Logo, f é contínua em p = 1.
Exemplo 2
A função constante f(x) = k é contínua em todo p real.
Solução
para todo x e todo p; assim, dado ε > 0 e
tomando-se um δ > 0 qualquer
Logo, f é contínua em p, qualquer que seja p. Como f é contínua em todo
p de seu domínio, resulta que f(x) = k é uma função contínua.
Exemplo 3
A função afim f(x) = ax + b (a e b constantes) é contínua.
Solução
Se a = 0, f é constante, logo contínua.
Suponhamos, então, a ≠ 0. Temos:
Assim, para todo ε > 0 dado
Tomando-se, então,
logo, f é contínua em p. Como p foi tomado de modo arbitrário, resulta
que f é contínua em todo p real, isto é, f é contínua.
Os dois próximos exemplos poderão facilitar as coisas em muitas ocasiões.
Antes, porém, observamos que se p ∊ ]a, b[, a e b reais, então existe δ > 0, tal que ]p – δ, p + δ[ ⊂ ]a, b[; basta, por exemplo, tomarmos δ = mín {b – p, p – a}.
Veja
Em qualquer caso, δ = mín {b – p, p – a} resolve o problema.
Exemplo 4
Prove que, se para todo ε > 0 dado existir um intervalo aberto I = ]a, b[,
com p ∊ I, tal que para todo x ∊ D f
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε
então f será contínua em p.
Solução
Pela hipótese, para todo ε > 0 dado existe um intervalo aberto I = ]a, b[,
com p ∊ I, tal que
① x ∊ ]a, b[ ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Tomando-se δ = mín {b – p, p – a}, ]p – δ, p + δ[ ⊂ ]a, b[. Assim,
x ∊ ]p – δ, p + δ[ ⇒ x ∊ ]a, b[.
Segue de ① que
x ∊ ]p – δ, p + δ[ ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Logo, f é contínua em p.
Exemplo 5
Seja r > 0 um real dado. Suponha que, para todo ε < r, ε > 0, existe um
intervalo aberto I, com p ∊ I, tal que para todo x ∊ D f
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Prove que f é contínua em p.
Solução
Precisamos provar (tendo em vista o exemplo anterior) que, para todo ε >
0, existe um intervalo aberto I, com p ∊ I, tal que para todo x em D f
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Pela hipótese, se ε < r, existe tal intervalo.
Suponhamos, então, ε ≥ r. Seja 0 < ε < r. 1 Pela hipótese, para o ε dado, existe I tal que 1
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε . 1 1
Para este mesmo I teremos, também,
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε
pois, f(p) – ε < f(p) – ε e f(p) + ε < f(p) + ε. (Interprete graficamente.) 1 1
Assim:
para f ser contínua em p, basta que, para cada ε < r, ε > 0 (em que r > 0 é xado a priori), exista um intervalo aberto I, com p ∊ I, tal que, para todo x em D , f
x ∊ I ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Exemplo 6
Mostre que 3 f ( x ) = x é contínua em 1.
Solução
Precisamos mostrar que dado ε > 0, existe um intervalo aberto I,
contendo 1, tal que
x ∊ I ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Vamos resolver a inequação f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Temos
Tomando-se
x ∊ I ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Logo, 3 f ( x ) = x é contínua em 1.
Observação. Tomando-se
1 – δ < x < 1 + δ ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε.
Exemplo 7
Prove que 2 f ( x ) = x é contínua.
Solução
Precisamos provar que f é contínua em todo p real (D = ℝ). f
Primeiro vamos provar que f é contínua em 0. Convém, aqui, usar a
definição em notação de módulo. Vamos provar, então, que dado ε > 0
existe δ > 0 tal que
Para se ter | 2 x | < ε, basta que se tenha Tomando-se
Logo, 2 f ( x ) = x é contínua em 0.
Vamos provar, agora, a continuidade de f em todo p ≠ 0. Temos
f 2 2 2 ( p ) – ε < f ( x ) < f ( p ) + ε ⇔ p – ε < x < p + ε.
Para 2 ε < p , ε > 0,
Se p > 0, tomamos assim
x 2 2 2 ∊ I ⇒ p – ε < x < p + ε.
Se p < 0, tomamos assim
x 2 2 2 ∊ I ⇒ p – ε < x < p + ε.
Logo, 2 f ( x ) = x é contínua em todo p real. (Interprete graficamente.)
Exemplo 8
é contínua em p = 1? Justifique.
Solução
Intuitivamente, vemos que f não é contínua em p = 1, pois o gráfico
apresenta “salto” neste ponto. Para provar que f não é contínua em p = 1,
precisamos achar um ε > 0 para o qual não exista δ > 0 que torne
verdadeira a afirmação
“∀x ∊ D , 1 – δ < x < 1 + δ ⇒ f(1) – ε < f(x) < f(1) + ε”. f
Como f(x) = 1 para x < 1 e f(1) = 2, tomando-se (ou 0 < ε < 1),
para todo δ > 0,
1 – δ < x < + ⇒ f(x) = 1
e 1 não está entre Logo, não existe δ > 0 que torna
verdadeira a afirmação
Portanto, a função dada não é contínua em p = 1. Observe que f é
contínua em todo p ≠ 1.
O próximo exemplo destaca uma propriedade importante (conservação do
sinal) das funções contínuas. Tal propriedade conta-nos que se f for contínua em p e f(p) ≠ 0, então existirá um δ > 0 tal que f(x) conservará o sinal de f(p) para p – δ < x < p + δ, x ∊ D . f
Exemplo 9
Seja f contínua em p e f(p) > 0. Prove que existe δ > 0 tal que, ∀x ∊ D , f
p – δ < x < p + δ ⇒ f(x) > 0.
Solução
Como, por hipótese, f é contínua em p, dado ε > 0, existirá δ > 0 tal que
∀x ∊ D f
① p – δ < x < p + δ ⇒ f(p) – ε < f(x) < f(p) + ε.
Como para todo ε > 0 existe δ > 0 tal que ① ocorre, tomando-se, em
particular, ε = f(p) (por hipótese f(p) > 0), existirá um δ > 0 tal que, ∀x ∊
D , f
p – δ < x < p + δ ⇒ f(p) – f(p) < f(x) < f(p) + f(p)
e, portanto,
p – δ < x < p + δ ⇒ f(x) > 0.
De modo análogo, prova-se que se f for contínua em p e f(p) < 0,
então (neste caso basta tomar ε = –f(p)) existirá δ > 0 tal que
p – δ < x < p + δ ⇒ f(x) < 0.
Exercícios 3.2
1. Prove, pela definição, que a função dada é contínua no ponto dado.
a) f(x) = 4x – 3 em p = 2
b) f(x) = x + 1 em p = 2
c) f(x) = –3x em p = 1
d 3 ) f ( x ) = x em p = 2
e 4 ) f ( x ) = x em p = –1
2. Prove que é contínua em todo p ≠ 0.
3. n Seja n > 0 um natural. Prove que f ( x ) = x é contínua.
4. Prove que é contínua.
5. é contínua em 1? Justifique.
6. Dê exemplo de uma função definida em ℝ e que seja contínua em todos os
pontos, exceto em –1, 0, 1.
7. Dê exemplo de uma função definida em ℝ e que seja contínua em todos os
pontos exceto nos inteiros.
8. Seja f dada por Mostre que f é descontínua em todo
p real.
9. Determine o conjunto dos pontos em que a função dada é contínua.
10. Dê exemplo de uma função definida em ℝ e que seja contínua apenas em
–1, 0,1.
11. Determine L para que a função dada seja contínua no ponto dado.
Justifique.
12. Dê o valor (caso exista) que a função dada deveria ter no ponto dado para
ser contínua neste ponto. Justifique.
13. Sabe-se que f é contínua em 2 e que f(2) = 8. Mostre que existe δ > 0 tal
que para todo x ∊ D f
2 – δ < x < 2 + δ ⇒ f(x) > 7.
14. Sabe-se que f é contínua em 1 e que f(1) = 2. Prove que existe r > 0 tal que
para todo x ∊ D f
15. Seja f uma função definida em ℝ e suponha que existe M > 0 tal que | f(x)
– f(p) | ≤ M | x – p | para todo x. Prove que f é contínua em p.
Suponha que | 2 f ( x ) – f (1) | ≤ ( x – 1) para todo x. Prove que f é contínua
16. em 1.
17. 2 Suponha que | f ( x ) | ≤ x para todo x. Prove que f é contínua em 0.
18. Prove que a função é contínua em 0.
19. Sejam f e g definidas em ℝ e suponha que existe M > 0 tal que | f(x) – f(p) |
≤ M | g(x) – g(p) | para todo x. Prove que se g for contínua em p, então f também será contínua em p.
20. Suponha f definida e contínua em ℝ e que f(x) = 0 para todo x racional.
Prove que f(x) = 0 para todo x real.
21. Sejam f e g contínuas em ℝ e tais que f(x) = g(x) para todo x racional.
Prove que f(x) = g(x) para todo x real.
22. Suponha que f e g são contínuas em ℝ e que exista a > 0, a ≠ 1, tal que
para todo r r r racional, f ( r ) = a e g ( r ) = a . Prove que f(x) = g(x) em ℝ.
23. Seja Prove